domingo, outubro 14, 2007

A semana do corvo: capacidades inatas

A imagem mostra um corvo da Nova Caledónia, a espécie Corvus moneduloides, muito atarefado a usar um pauzinho para retirar comida de uma fenda. O uso de ferramentas existe num razoável número de outras criaturas na natureza, mas que revelam em geral pouca flexibilidade, e é muitas vezes inato. Claro que o facto de um comportamento se basear numa capacidade inata, não invalida o papel da aprendizagem e mesmo a existência de um padrão cultural. A produção e uso eficiente de ferramentas exigem obviamente um conjunto de competências motoras, e consequentes adaptações fisiológicas e neurológicas, e podem revelar-se nalguns tipos de propensão inata, mesmo entre os humanos. Todos os pais sabem que os bebés humanos começam a bater com objectos noutros objectos, e mesmo nos pais e visitas, muito antes de estarem aptos a usar martelos de forma adequada. Assim, antes de falar de cultura e aprendizagem noutras espécies, é importante perceber quais as competências de animais "ingénuos", isto é, que nunca tiveram acesso a treino. [... ler mais]

O estudo que analisa até que ponto as capacidade dos corvos neocaledónicos são inatas foi publicado num artigo de Ben Kenward e colegas na revista Nature (ref1). Os autores estudaram quatro animais jovens que tinham sido criados à mão por seres humanos desde pequenos, sem acesso a pauzinhos e coisas que tais. Os autores estudaram duas situações, uma em que mostravam o que fazer aos animais, e outra em que os colocavam sozinhos face a pauzinhos e comida escondida.

Eis aqui um exemplo de um animal, com 98 dias, chamado Uék, a quem foi mostrado o que fazer:

O corvo olhou muito atentamente para o que o ser humano fez, chegando ao ponto de agarrar a extremidade do pauzinho. Depois de comer o que o humano tinha retirado, resolveu experimentar o utensílio, que ainda estava dentro da fenda.

O animal entreteve-se a manobrar o pauzinho de forma semelhante à que viu o humano fazer. Estes corvos são criaturas que mostram curiosidade e capacidade de reproduzir o que observam. No entanto, o que fazem quando confrontados com ferramentas, sem que lhes seja mostrado como proceder? Isso foi testado com outros dois animais que nunca viram humanos ou congéneres a usarem ferramentas, nem tinham tido contacto prévio com ferramentas. O resultado é indicado nesta tradução livre do resumo do artigo:

Os corvos neocaledónicos (Corvus moneduloides) são entre as aves os mais prolíficos utilizadores de ferramentas. A variação regional na forma das suas ferramentas pode ser o resultado de evolução cultural cumulativa, um fenómeno considerado como apanágio da cultura humana. Mostramos aqui que corvos neocaledónicos juvenis criados à mão em cativeiro fabricam e utilizam ferramentas de forma espontânea, sem qualquer contacto com adultos da sua espécie e sem demonstrações anteriores por parte de humanos. A nossa descoberta é um passo crucial para produzir modelos de transmissão cultural nesta espécie, e nos animais em geral.

Ou seja, é claro que estes corvos possuem uma capacidade pré-programada para o uso e mesmo o fabrico de ferramentas. Para lá de serem capazer agarrar num pauzinho e andar com ele às voltas, os animais foram também capazes de fabricar ferramentas sem serem ensinados. Eis aqui um exemplo, em que um corvo chamado Corbeau, rasga uma tira da folha de uma planta do género Pandanus:

Eis o mesmo animal, a usar uma tira desse tipo para procurar comida.

Não tendo encontrado nenhuma comida naquele lado o animal tentou noutro sítio e foi recompensado.

O Corbeau aprendeu a fazer tudo isto sozinho.

Como referi no início, o facto de os animais conseguirem utilizar e fabricar ferramentas, sem serem ensinados, não quer dizer no entanto que não haja espaço para aprendizagem, e mesmo para um qualquer tipo de cultura. Os autores notam que as ferramentas produzidas por estes animais "ingénuos" são bastante diferentes daquelas que os animais usam na natureza. Isso, e a atenção que os animais mostraram face ao uso de ferramentas pelos humanos, sugere que possa existir uma componente cultural sobreposta a uma tendência inata. Além disso, os corvos parecem capazes de avaliar a aptidão das ferramentas para o fim que têm em vista, sem precisarem de recorrer a tentativa e erro. Mas isso terá que ficar para a próxima contribuição.

Referências
(ref1) Ben Kenward, Alex A. S. Weir, Christian Rutz, and Alex Kacelnik (2005). Tool manufacture by naive juvenile crows. Nature, 433: 121. DOI:10.1038/433121a.

sábado, outubro 13, 2007

A semana do corvo

Algures debaixo daquele pontinho azul ficam as ilhas da Nova Caledónia, um local de paisagens deslumbrantes, e lar de animais e plantas únicos. Já falei aqui de um desses animais, o corvo da espécie Corvus moneduloides. Trata-se de um corvo capaz de, não apenas utilizar, mas também fabricar ferramentas, e com capacidades cognitivas que se conhecem apenas nos seres humanos e nos grandes símios. É seguramente um dos animais mais fascinantes do planeta. A começar no próximo Domingo, e durante toda a semana, o Corvus moneduloides será o convidado de honra aqui no Cais de Gaia.

Segurança na estrada

Falei, na penúltima contribuição, de um trabalho de 2001, de um senhor chamado Joel Berger, que se disfarçava de alce para estudar o impacto da chegada de predadores, como ursos e lobos, em regiões onde os humanos os tinham exterminado dezenas de anos antes. Como referi, após um período inicial de desnorte, em que os alces tratavam os lobos como simples coiotes, e em que as mães os deixavam aproximarem-se a curta distância das crias, matando-as mesmo ao seu lado, os alces aprenderam a ser cuidadosos. Joel Berger continuou a estudar estas populações de alces, e acaba de documentar uma estratégia notável que as mães alces, como a da figura, usam para conseguirem um parto livre de ursos. Como descrevi, algumas contribuições atrás, as estradas são locais perigosos para os alces, mas pelos vistos também têm os seus benefícios, como as mães alces rapidamente descobriram. [... ler mais]

O novo artigo de Joel Berger foi publicado na revista Royal Society Biology Letters (ref1). Numa tradução livre do resumo:

As áreas protegidas são pontos de referência cruciais para aferir a mudança ecológica, contudo, certas áreas de África, Ásia e da América do Norte, que retêm grandes carnívoros, estão sob intensa pressão económica e política para acomodar uma quantidade imensa de visitantes e providenciar a infrastrutura adequada. Uma consequência indesejada é a forte modulação da interação tripartida envolvendo pessoas, predadores, e presas, uma dinâmica que coloca em questão até que ponto a interação e distribuição dos animais são independentes de influências humanas subtis.

Este é um aspecto que eu já referi a propósito das aves ciganas e dos golfinhos: o chamado ecoturismo é sobretudo turismo, e de ecológico tem muito pouco. O afluxo regular de visitantes tem sempre algum tipo de efeito pernicioso no ecossistema. No caso dos alces as modificações estão ligadas a infrastruturas construídas pelos humanos.
Aqui, eu recorro à notável sincronia dos nove dias em que nascem 90% do alces neonatos no ecossistema de Yellowstone, para demonstrar uma mudança substancial na forma como as presas evitam os predadores; os locais de parto deslocam-se das zonas com ursos pardos aversos ao tráfego, e na direcção de estradas pavimentadas. Este modificação ao longo de um decénio esteve associada com a recolonização dos carnívoros, mas nem as mães em zonas livres de ursos nem as mães fora dos períodos de parto alteraram os seus padrões de uso das paisagens.

O ênfase é meu e ilustra um ponto importante, os alces fêmeas continuam a alimentar-se nas suas áreas tradicionais, é só durante o período crítico do parto, e apenas em regiões com ursos, que se aproximam das estradas alcatroadas. Porque é que os alces o fazem? Os humanos são pouco tolerantes em relação a predadores de grande envergadura que se aproximem demasiado, daí que os ursos receiem as estradas, mantendo em geral pelo menos cerca de 500 metros de distância das bermas. É nesta "zona livre de ursos" que os alces fêmeas dão à luz. É um resultado curioso e muito interessante, com implicações que vão para além do caso dos alces.
Estas descobertas oferecem evidência conclusiva de que os mamíferos usam os humanos como escudo contra os carnívoros e levantam a possibilidade de que essa redistribuição ocorreu noutros grupos de mamíferos, devido à presença humana, tomando formas que temos ainda que adivinhar. Para interpretar o funcionamento ecológico dos sistemas dentro dos parques, temos também que levar em consideração os efeitos antropogénicos indirectos na distribuição e comportamento das espécies.

Pois é, os parques não são vitrinas em que se observa a dinâmica natural dos animais que lá vivem. São sistemas artificiais, fortemente influenciados pela presença humana. Neste caso, os humanos trazem benefícios a uma das partes (os alces), mas retiram aos ursos a possibilidade de uma refeição fácil, e inflacionam a taxa de sobrevivência dos alces jovens. Toda a dinâmica do parque, incluindo os tipos de vegetação e populações de aves é afectada, pois as populações de alces têm um impacto profundo no ecossistema. Não deixa no entanto de ser notável ver como as populações de alces se adaptaram em tão pouco tempo à presença dos predadores, e desenvolveram estratégias tão eficientes para os evitar.

Ficha técnica
Imagem via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Joel Berger (2007). Fear, human shields and the redistribution of prey and predators in protected areas. Royal Society Biology Letters, no prelo. doi:10.1098/rsbl.2007.0415.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Sopa da pedra - versão zero

Algumas pessoas têm reclamado que eu não coloco apontadores para outros blogues na barra lateral. A questão é que não gosto disso, não me apetece ter uma barra com centenas de nomes, a maioria deles entretanto desaparecidos. Se vejo algo de que gosto prefiro escrever sobre isso ou incluir um laço numa das minhas contribuições. Sendo assim, decidi iniciar uma nova rubrica. No primeiro fim de semana do mês de Novembro farei uma resenha de contribuições sobre Geologia e Paleontologia, em português, publicadas durante o mês de Outubro noutros blogues. Aceito sugestões; se tiverem encontrado algo interessante, ou se quiserem fazer publicidade ao vosso blogue, enviem uma mensagem para o email que se encontra na barra lateral, ou deixem um comentário aqui. [... ler mais]

O critério é algo vasto. As coisas que me interessam são:

  • Ruminações de especialistas do ramo, desde que minimamente interessantes, e que não se percam em considerações sobre política ou criacionismo.
  • Menções a descobertas por parte de não especialistas, tal como se faz neste blogue, desde que incluam referências e não se limitem a ser cópias de comunicados de imprensa.
  • Entusiastas que falem dos seus passeios a grutas, recolha de fósseis e calhaus, visitas a museus, etc.

Porque não uma sopa de vermes ou algo semelhante dedicada à Biologia? Bem, logo se verá. Para já isto parece-me mais fácil.

Ficha técnica
Já que algumas pessoas mostraram curiosidade em relação ao nome deste blogue aproveito para esclarecer. Não tem nada que ver com teorias da Terra como organismo vivo, nem com grupos ecológicos. Vila Nova de Gaia é uma cidade no norte de Portugal, situada na margem esquerda do Douro, junto à Foz. O Cais de Gaia é o nome da zona ribeirinha, que mostro na imagem. A fotografia é da minha autoria, e pode ser usada livremente.

A candura das presas

A imagem ao lado mostra dois cavalheiros vestidos com uma fantasia animal. Não se trata de nenhum jogo, nem de nenhuma partida, trata-se de trabalho científico muito sério. Eu falei aqui, há algum tempo atrás, do trabalho que investigadores de uma universidade brasileira faziam para habituar emas, criadas em cativeiro, aos predadores que iriam encontrar se libertadas num meio natural. Vou voltar a essa questão mas de um outro prisma: o que sucede quando predadores voltam a áreas de onde tinham desaparecido? Uma situação desse tipo está a acontecer no Parque de Yellowstone, no Estados Unidos, com a reintrodução dos lobos e com a expansão da população de ursos pardos. Uma das espécies afectadas é o alce (espécie Alces alces) e é dessa criatura que Joel Berger e colega estão disfarçados. O disfarce permitia-lhes aproximarem-se dos animais e lançarem-lhes bolas de neve ensopadas em urina humana, de lobo, e de urso. Claro que a imprensa pegou sobretudo no aspecto algo folclórico e deu pouca importância à investigação em si. Os investigadores chegaram a ser convidados a aparecer, vestidos de alce, em programas televisivos, mas recusaram, pois não lhes era dado tempo suficiente para estabelecerem a seriedade do trabalho que faziam. [... ler mais]

Esta pesquisa foi publicada num artigo de Joel Berger, Jon Swenson, e Inga-Lill Persson na revista Science (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A extinção actual de muitos dos grandes carnívoros terrestres deixou muitas das espécies-presa existentes sem conhecimento de predadores contemporâneos, uma situação que tem paralelo à de 10,000 a 50,000 anos atrás, quando animais ingénuos encontraram pela primeira vez caçadores humanos coloizadores. Ao longo das frentes modernas de recolonização por carnívoros, os ursos castanhos (também chamados pardos) matam alces adultos ingénuos a taxas desproporcionalmente elevadas na Escandinávia, e mães alces que perderam crias para os lobos recolonizadores na região de Yellowstone na América do Norte desenvolveram hipersensibilidade aos uivos dos lobos. Embora as presas, que não tinham tido contacto com predadores durante a 50 a 130 anos, fossem altamente vulneráveis aos encontros iniciais, ajustes comportamentais para reduzir a predação surgiram apenas numa única geração. O facto de pelo menos uma espécie-presa ter aprendido rapidamente a ter cuidado com os carnívoros reintroduzidos deve mitigar medos relativos à extinção localizada de presas.

Há vários pontos neste estudo que merecem um tratamento mais detalhado. Os autores escolheram locais na Escandinávia, Alasca e na região do Yellowstone, onde podiam encontrar três tipos de populações: (i) populações livres de predadores, (ii) populações não habituadas a predadores mas que enfrentavam uma recolonização nos seus territórios por predadores, e (iii) populações em locais onde alces e lobos coexistiam há muito tempo.

Os autores submeteram os alces a toda uma série de estímulos, por exemplo os auditivos. Vestidos de alce, os autores passavam gravações de vários sons aos animais. Como controlo, verificaram que ao passarem ruído de água a correr não havia diferenças no comportamento de alces habituados e não habituados. Contudo, quando passavam sons de lobos, havia um aumento de 250% nos comportamentos de vigilância nos alces do Alasca habituados a predadores, relativamente a grupos, também do Alasca, mas habituados a viverem em regiões sem lobos. Curiosamente, os alces das regiões onde coexistem há muito com predadores são sensíveis a um outro estímulo auditivo: os crocitares de chamamento dos corvos quando encontram carcaças de animais mortos. Os alces que viviam em regiões com experiência prolongada no contacto com predadores mostravam uma resposta seis vezes maior a esses chamamentos em relação aos animais ingénuos. Faz sentido pois os bandos de corvos estão muitas vezes ligados a ursos e lobos.

A diferença entre animais ingénuos e habituados era também patente na resposta a estímulos olfativos. Aqui entra mais uma vez aquela história do disfarce de alce. Os autores fizeram 70 tentativas em que lançavam urina de lobo no meio de alces ingénuos, e em nenhuma delas os animais abandonaram o local. Aliás em 16% dos casos os alces ingénuos aproximavam-se mesmo dos odores. Os alces habituados nunca o faziam. Quando enfrentam lobos ou ursos, os alces baixam a cabeça, recolhem as orelhas, e erguem os pêlos do pescoço. Os alces habituados reagiam desta forma em 47% das vezes em que eram confrontados com os odores. Apenas em 11% dos casos é que os alces ingénuos mostraram comportamento agressivo quando confrontados com estímulos olfativos.

Como dá para perceber a resposta dos alces aos predadores é em grande parte aprendida, não é uma coisa inata. As populações sem contacto "esquecem" o que devem fazer. Isso vê-se claramente nas taxas de predação. Nas regiões em que entram em contacto com populações ingénuas os ursos têm um sucesso muito maior no que se refere à captura de alces adultos. Os autores referem, por exemplo, que numa região de Yellowstone, onde alces e ursos coexistem desde 1880, não há registos de alces adultos mortos por ursos de 1959 a 1992. Noutra região de Yellowstone, onde só recentemente começaram a aparecer ursos, 10 alces adultos foram mortos por ursos entre 1996 e 2000.

Mas após a fase vulnerável do impacto inicial, os alces mostraram ser capazes de reagir. As mães alces, em zonas onde a presença de predadores era algo recente, e que tinham perdido crias para lobos, mantinham-se muito mais vigilantes (aumento de 500%) no ano seguinte e escolhiam outros locais para darem à luz as suas crias. Desenvolviam também uma sensibilidade extrema aos uivos dos lobos, muito mais que animais de zonas onde os alces e lobos nunca deixaram de coexistir. Uma geração não foi no entanto tempo suficiente para os animais aprenderem a recear o cheiro a urina dos lobos e ursos, nem o crocitar dos corvos. Mas a reacção dos alces é encorajadora, pois os autores receavam um cenário de extinção generalizada, tal como tinha sucedido quando os caçadores humanos invadiram continentes como a Austrália e as Américas onde os animais não os temiam.

A situação no caso dos alces é apesar de tudo algo diferente da que sucedeu com os seres humanos. Os homens caçavam tudo, machos e fêmeas, juvenis e adultos. Embora lobos e ursos matem alces adultos, os alvos primordiais são sobretudo os juvenis e as crias. Isso permite aos adultos, após um contacto inicial com mortalidade elevada, ajustarem os comportamentos de uma época de procriação para a seguinte. Claro que os alces mostraram também serem animais relativamente adaptáveis e espertos, e é possível que os animais que se extinguiram no contacto com os humanos tivessem mais dificuldade nesses aspectos.

Um artigo recente mostra um desenvolvimento curioso nesta adaptação dos alces aos predadores. É a tal referência às estradas que tinha anunciado na contribuição anterior, e de que falarei amanhã. Deixo-vos para já com uma imagem que ilustra bem o tamanho destes animais:

Ficha técnica
Imagem cortesia de Dieter Wirz via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Berger, J., J. E. Swenson, and I. Per-Illson (2001). Re-colonizing Carnivores and Naive Prey; Conservation Lessons from Pleistocene Extinctions. Science 291:1036-1039. DOI:10.1126/science.1056466.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Colidir com um alce

Este é um sinal rodoviário que se pode encontrar com alguma frequência na Terra Nova, no Canadá. Não é um aviso qualquer, mas sim algo a que convém prestar mesmo muita atenção. No sinal podem ver um carro desfeito e ao lado a silhueta imponente de um alce (espécie Alces alces). A imagem do alce incólume e do carro destruído dá uma ideia daquelas cenas típicas de desenhos animados, em que ninguém se magoa, só que as coisas não são bem assim. Os embates com automóveis são muito perigosos, quer para os alces, quer para os humanos. Algo que confirmei ao encontrar alguma literatura sobre o tema, em sueco. Mais especificamente, encontrei um relatório sobre testes do comportamento de diversos modelos de automóveis em embates com alces. Claro que nesses testes os suecos não usam animais vivos, recorrem a "bonecos", mas os estragos são semelhantes aos de um alce verdadeiro. [... ler mais]

O trabalho sobre os testes de embate com alces é da autoria de Ylva Matstoms e faz parte de uma série de relatórios designada VTI meddelande (ref1). Está quase tudo em sueco mas há um pequeno resumo em inglês. A partir desse resumo é fácil perceber o que está em jogo. Na Suécia, em cada ano, cerca de 80 pessoas morrem, ou são feridas com gravidade, em acidentes envolvendo alces. No resumo em inglês não referem as baixas no lado dos alces, mas suponho que sejam em número muito mais elevado.

O álcool não é,em geral, uma causa destes acidente. Os condutores humanos envolvidos nestas colisões estavam em geral sóbrios, e suponho que os alces também. A maioria dos embates ocorre em estradas públicas, com um limite de velocidade de 90 km/hora, com o alce a aparecer de forma súbita e inesperada, não dando ao condutor tempo para se desviar, ou mesmo travar a viatura. Numa colisão com animais pequenos, os bichos batem no pára-choques do carro e são projectados. Isso não sucede com um alce. Um alce é um pouco como ter um barril de mais de meia tonelada em cima de umas andas. Face a automóvel de passageiros de tamanho normal, as pernas do alce ficam ao nível do pára-choques e o corpo do animal ultrapassa em altura o tejadilho do carro.

Eis aqui um esquema dos primeiros 60 milissegundos de uma colisão típica:

Nos primeiros instantes de um embate o infeliz alce fica de imediato com as pernas partidas, mas muito pouca energia é transferida do veículo para o corpo do animal. O verdadeiro impacto não é com o pára-choques do automóvel, mas sim com o pára-brisas, a parte estruturalmente mais fraca do veículo.

Como o alce acaba muitas vezes por esmagar o tejadilho, e lançar o pára-brisas na direcção dos ocupantes, nem mesmo o airbag e cintos de segurança ajudam por aí além num acidente destes. Daí o interesse em fazer testes de colisão. O modelo que os suecos usam é uma coisa, com o tamanho e peso aproximados de um alce, suspensa a uma altura corrpespondente ao corpo do animal.

Eis aqui o resultado de um dos testes dessa coisa chamada "Alce II".

O carro ficou bastante destruído. Mas não se pense que o modelo exagera os efeitos das colisões. Eu sabia que tinha visto algo relativo a este tema, alguns anos atrás. Após procurar um pouco na minha caixa do correio, encontrei referência a umas imagens, que circulavam por volta de 2004, sobre um acidente envolvendo um alce. Infelizmente, os endereços onde se encontrariam as imagens já não tinham nada lá. Contudo na internet nada se perde e, após pesquisar um pouco, lá encontrei o que queria. As imagens podem ser vistas aqui. O mais supreendente é que a senhora que ia no automóvel escapou apenas com ferimentos ligeiros.

Todo este enredo de alces e automóveis tem a ver com um estudo científico recente. É uma história de alces que procuram a vizinhança das estradas. Será que são suicidas? Tudo será revelado na próxima contribuição.

Ficha técnica
Sinal rodoviário obtido via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Ylva Matstoms (2003). Evaluation of the moose dummy Mooses II with a view to consumer guidance. VTI meddelande 955. PDF (em sueco).

quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma história de corvos interpretada por orangotangos

A ilustração aqui ao lado refere-se a uma conhecida fábula de Esopo, "o corvo e o jarrro." É a história de um corvo morto de sede que encontra um jarro com água, mas com apenas um pouquinho no fundo, de tal maneira que o animal não consegue lá chegar com o bico. O jarro é também demasiado pesado para que o animal o consiga virar. O corvo tem no entanto uma ideia e começa a largar pequenas pedras dentro do jarro. Tantas lança que a água finalmente sobe o suficiente para que o animal possa saciar a sua sede. Esta é mais ou menos a versão que me recordo da minha infância e a moral da história era qualquer coisa como "o engenho vale mais que a força bruta." Ora foi publicado um artigo que é uma espécie de encenação moderna desta história, só que em vez de um corvos temos como protagonistas orangotangos, em vez de sede temos a vontade de comer um amendoim, e em vez da largada de seixos temos cuspidelas de água. [... ler mais]

O trabalho com os orangotangos é da autoria de Natacha Mendes, Daniel Hanus, e Josep Call e foi publicado na revista Royal Society Biology Letters (ref1). Pelo que percebi da referência à FCT nos agradecimentos, Natacha Mendes é uma estudante portuguesa a fazer o seu doutoramento por terras germânicas. Numa tradução livre do resumo:

Investigámos o uso de água como ferramenta confrontando cinco orangotangos (Pongo abelii) com um amendoim a flutuar fora de alcance dentro de um tubo vertical transparente.

Eis aqui, em imagens, o dispositivo, e uma mãe orangotango maila sua cria. A mãe inspeciona o dispositivo, vê que o dedo não chega ao amendoim e depois desaparece da imagem.

A cria repete o comportamento da mãe, que na verdade não tinha desistido. Limitou-se a procurar em volta até encontrar uma ferramenta para tirar o amendoim.
Todos os orangotangos recolheram água de um bebedouro e cuspiram-na para dentro do tubo para ganhar acesso ao amendoim. Os indivíduos necessitaram de uma média de três bocas cheias de água para alcançarem o amendoim. Esta solução ocorreu na primeira tentativa e todos os indivíduos continuaram a usar esta estratégia de sucesso nas tentativas subsequentes.

Eis aqui os mesmo animais da sequência anterior, com a mãe a encher o tubo com a água que traz na boca.

Só que este esguicho não foi suficiente. Ele verifica de novo o alcance dos dedos e confirma que o amendoim está fora de alcance.

Parte então novamente em busca de água, que desta vez enche o tubo até colocar o amendoim ao alcance dos dedos.

Como é costume neste tipo de estudos os autores fizeram uma série de controlos:
A demora em obter a recompensa diminuíu de forma drástica após a primeira tentativa. Para além disso, a demora entre as cuspidelas em relação à primeira boca cheia também diminuíu dramaticamente na primeira tentativa para as seguintes na mesma tentativa ou em tentativas subsequentes. Condições de controlo adicional sugeriram que esta resposta não era devida à simples presença do tubo, à exitência de água no interior, ou à frustração de não conseguir a recompensa.

Adoro que tenham controlado para o "já que não te consigo agarrar cuspo-te em cima." O resumo termina com uma frase que parece a conclusão óbvia do estudo:
A aquisição súbita do comportamento, o tempo das acções e as diferenças com condições de controlo fazem deste comportamento um candidato provável para a resolução ponderada de problemas.

Fascinante. Interrogo-me quantos alunos das nossas universidades seriam capazes de resolver este problema pelo engenho e não pela força bruta. Eis aqui as imagens que mostram a mãe orangotango a recolher a sua recompensa:

O olhar triste da cria não lhe serviu de nada, a mãe comeu o amendoim. Simpatizei com o pequenito, espero que os tratadores lhe tenham dado qualquer coisa.

Ficha técnica
Ilustração da fábula de Esopo por Milo Winter (1886-1956) via etexto no projecto Gutemberg.
Imagens da experiência retiradas do filme que acompanha o artigo indicado como ref1 abaixo.

Referências
(ref1) Natacha Mendes, Daniel Hanus, e Josep Call (2007). Raising the level: orangutans use water as a tool. Royal Society Biology Letters Volume 3, Number 5, 453-455. DOI:10.1098/rsbl.2007.0198.

terça-feira, outubro 09, 2007

A guerra das escamas compridas


Esta é uma reconstrução do aspecto do Longisquama insignis, o tal réptil estranho encontrado por Alexander Sharov na Quirguízia. O animal é de facto bizarro mas assim à primeira vista não parece coisa para despertar grandes paixões, nem capaz de inflamar os ânimos. Na verdade, descrita em 1970, a criatura foi durante muito tempo encarada como um curiosidade, e só recentemente se gerou a controvérsia de que falei nas contribuições anteriores. Esta história do Longisquama é um bom exemplo de como as coisas podem ficar feias entre cientistas, quando há subjectividade na avaliação dos dados. Já referi anteriormente o artigo original de Terry Jones e colegas que falavam nas penas, e num artigo de Robert Reisz e Hans-Dieter Sues, que dizia que não era nada disso. Por incrível que possa parecer, ambos os trabalhos tinham como base o mesmo fóssil. Onde se vê até que ponto as coisas ficaram azedas é em comentários e subsequentes respostas ao artigo de Terry Jones na Science que eu não resisto a mostrar aqui. [... ler mais]

Vamos então às guerras do Longisquama (ref1). No início do primeiro comentário, Richard Prumm é algo lacónico:

O réptil do Triásico Longisquama possui apêndices integumentares em forma de lâminas que Terry D. Jones e colegas no seu relato "Penas não avianas num arcossauro do Triásico Tardio" propõem serem homólogas às penas avianas. Contudo, um exame da sua evidência sugere que esta conclusão tem falhas.

Basicamente o autor fornece uma leitura diferente das características morfológicas das estruturas e conclui que as semelhanças são superficiais. Isto baseado numa análise do fóssil que teria feito na mesma altura que a equipa do artigo de Terry Jones e colegas. A resposta de Jones e colegas é igualmente contundente e nem é preciso entrar nos detalhes:
Richard Prum diz que "examinou o Longisquama com os autores em Abril de 1999." Embora cada coautor do nosso relato tenha passado muitas horas durante 3 a 4 dias a estudar todo o material disponível o "exame" de Prum (testemunhado por todos os coautores) consistiu de 5 a 10 minutos de manuseamento apenas da placa principal. Muitas das suas outras afirmações são igualmente enganadoras ou incorrectas.

Acho que nãoé preciso citar mais nada desta parte da resposta.

Há ainda um comentário de Unwin e Benton que para lá de diferenças na interpretação morfológica das "penas", foca os aspectos filogenéticos. Os vários grupos de répteis podem distinguir-se por aberturas entre os ossos do crânio, as fenestras (janelas). Foi com base nessas aberturas, que julgou identificar no Longisquama, que Sharov o identificou como arcossauriano. Unwin e Benton dizem contudo que essas aberturas não são fiáveis no crânio do Longisquama e poderão simplesmente representar danos no fóssil. Vão ainda mais longe:
Nos vestígios conhecidos do esqueleto do Longisquama faltam todas as outras características de diagnóstico arcossauriano [a fúrcula mencionada por Jones et al. consiste em clavículas emparelhadas, tal como Sharov notou originalmente], mas exibem duas características, dentes acrodontes e uma interclavícula, que são típicas dos lepidossauros. Em consequência, suspeitamos que o Longisquama não é um arcossauro.

Ou seja chegam mesmo a propor que o Longisquama poderá estar mais próximo das cobras e lagartos (lepidossauros) que das aves e crocodilos (arcossauros). Ora Terry Jones e colegas responderam à letra:
Embora Unwin and Benton sugiram que o Longisquama não seria um arcossauro, uma fenestra anteorbital, a marca que define os Archosauria, é claramente visível na contra-placa. Contrariamente às afirmações adicionais por Unwin and Benton, a interclavícula é retida num certo número de arcossauros (por exemplo, Euparkeria) e aves, e a fúrcula do Longisquama é virtualmente idêntica à do Archaeopteryx. Devido à pobre preservação, a natureza exacta da inclusão dos dentes não pode, no presente, ser determinada a partir dos exemplares conhecidos. Concordamos com Sharov, e todos os autores anteriores, no provável estatuto arcossauriano do Longisquama.

Como se pode ver por esta amostra de citações, cada um dos lados vê as coisas que lhe dão jeito e atribui os problemas a questões de preservação do fóssil. Os argumentos são do tipo "tu vês isso mas é um disparate, eu vejo isto e eu é que sei." É óbvio que para acalmar os ânimos precisamos de mais fósseis desta criatura, que possam para já confirmar que as estruturas pertencem mesmo ao Longisquama, e que nos permitam ter mais certezas na interpretação do esqueleto.

Ficha técnica
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Richard O. Prum;, D. M. Unwin, M. J. Benton;, Terry D. Jones, John A. Ruben, Paul F. A. Maderson, and Larry D. Martin (2001). Longisquama Fossil and Feather Morphology. Science Vol. 291. no. 5510, pp. 1899 - 1902. DOI: 10.1126/science.291.5510.1899c.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Nem sempre uma escama longa é uma pena

De volta ao enigmático réptil descoberto por Sharov na década de 1960, ou mais exactamente às coisas que o bicho tinha nas costas. O Longisquama era um animal pequeno, que viveria uma vida provavelmente arborícola alimentando-se de insectos nas florestas da Ásia cerca de 220 milhões de anos atrás. O mundo do Triásico em que o Longisquama insignis vivia era povoado por outros répteis fantásticos, como o Sharovipteryx mirabilis de que falei há pouco tempo, e de outros seres igualmente bizarros conhecidos como lagartos-macacos, de que falarei proximamente. Para já vou falar da controvérsia em relação às hastes que lhe saíam das costas. A discussão não demorou muito a passar para a literatura científica. Uns meses depois do artigo que dizia que as estruturas eram penas semelhantes às das aves modernas, saíu um artigo, baseado exactamente nos mesmos vestígios, a dizer que aquelas coisas de penas não tinham nada. [... ler mais]

O artigo que diz que o que se vê nas costas do Longisquama não são penas é da autoria de Robert Reisz e Hans-Dieter Sues e foi publicado na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os apêndices dorsais alongados do réptil Longisquama insignis do Triásico do Quirguistão, foram reinterpretatados recentemente como sendo o primeiro registo de penas num tetrápode não aviano — precedendo por grande margem as penas da mais antiga ave conhecida, o Archaeopteryx. Apresentamos aqui evidência de que as escamas dorsais do Longisquama não são penas, e que elas são de facto marcadamente diferentes de penas avianas. Concluímos que o Archaeopteryx permanece o mais antigo tetrápode conhecido com penas.

Não vou entrar em detalhes, os autores dizem que o veio que se vê nas estruturas do Longisquama não se assemelha à haste de uma pena e que as extremidades distais das estruturas não têm nada a ver com as das penas. Este trabalho baseia-se exactamente no mesmo fóssil que o trabalho anterior. Não deixa de ser impressionante como as conclusões podem ser tão antagónicas. Mas as reacções não se ficaram por aqui nem as respostas. Amanhã há mais.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Longisquama a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.

Referências
(ref1) Robert R. Reisz and Hans-Dieter Sues (2000). The 'feathers' of Longisquama. Nature 408, 428. doi:10.1038/35044204.

domingo, outubro 07, 2007

Uma escama longa, insigne mas controversa

De volta ao Triásico e às descobertas de um senhor chamado Alexander Sharov. Se um réptil capaz de vôo planado usando as pernas parece extraordinário, que tal uma criatura do tamanho de um rato, de corpo semelhante a um lagarto, com cabeça com um formato que faz lembrar uma ave, e com estruturas em forma de haste, de 12 centímetros de comprimento, a sairem-lhe do dorso? Pois bem, Sharov encontrou um animal desses, que baptizou de Longisquama insignis. Nos últimos sete anos este animal passou de uma relativa obscuridade para as luzes da ribalta, sendo o pomo de intensa discórdia, com interpretações completamente antagónicas da mesma evidência, e resvalando inclusive para o insulto pessoal mais ou menos velado. É que há quem veja nas estruturas no dorso deste animal os precursores das penas das aves, há quem veja apenas escamas longas, e até há quem diga que seriam hastes de fetos preservadas junto com um réptil. Enfim, quando os cientistas estão em desacordo as coisas podem ficar feias. [... ler mais]

O campo que vê as estruturas como penas publicou o seu ponto de vista num artigo de Terry Jones e colegas na Science em 2000 (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Longisquama insignis era um arcossauro pouco usual do Triásico Tardio da Ásia central. Ao longo do seu eixo dorsal o Longisquama apresentava uma série de apêndices integumentares que se assemelhavam em muitos detalhes às penas das aves, em especial na anatomia da região da base. Esta era de tal forma semelhante ao cálamo das penas modernas que cada uma representa provavelmente o culminar de processos morfogenéticos virtualmente idênticos. A relação exacta do Longisquama às aves é incerta. Apesar disso, interpretamos os longos apêndices integumentares do Longisquama como sendo penas não avianas e sugerimos que eles são provavelmente homólogos com as penas avianas. Se assim for, eles precdem as penas do Archaeopteryx, a primeira ave conhecida a partir do Jurássico Tardio.

Eu já referi aqui por diversas vezes que há um certo consenso em que as aves serão dinossauros. Ora consenso não quer dizer unanimidade, há quem não esteja convencido, e algumas das vozes discordantes mais famosas, Alan Feduccia e John Ruben, são coautores deste artigo. Em declarações em comunicados de imprensa na sequência do artigo, Alan Feduccia, e outros autores, defendem que as aves fazem parte de uma linhagem de arcossauros que incluiria o Longisquama, e as semelhanças com os dinossauros terópodes seriam fruto de convergência.

O artigo de Terry Jones e colegas foi obviamente controverso e foi recebido de forma particularmente hostil pelo campo que defende que as aves são dinossauros terópodes. Num artigo de acompanhamento no mesmo número da Science (ref2) Erik Stokstad escreve este parágrafo que resume bem as reacções dos dois campos:
A minoria de cientistas que rejeitam a origem dinossauriana das aves está radiante com a nova descrição do Longisquama. «É quase demasiado bom para ser verdade,» diz Storrs Olson, curador das aves no Smithsonian, e que não contribuiu para o artigo. «Este é um passo maior para compreender a origem das aves que o Archaeopteryx» -- o fóssil com 145 milhões de anos cujos dentes, escamas, e outras características primitvas estabeleceram um laço inequívoco entre as aves e os répteis. A resposta dos defensores dos dinossauros a este novo antepassado não terópode das aves? «Sem sentido.» «Loucura.» «disparate» -- para não mencionar alguns comentários que não se podem reproduzir.

Parte do problema com a hipótese do Longisquama como parente das aves tem a ver com problemas filogenéticos. As afinidades do animal não são claras. Sharov classificou-o originalmente como arcossauriano (como as aves e crocodilos), mas o diagnóstico não é seguro e alguns aspectos do animal sugerem que poderia ser um lepidossauro (como as cobras e lagartos). O texto de Erik Stokstad refere mais adiante algo a este respeito:
Para Padian, o Longisquama é a última gota. "Se pensam que é daqui que as aves vêm, onde está a vossa análise cladística?" pergunta ele. »Onde está a vossa falsificação das dezenas de cladogramas que colocam as aves no meio dos dinossauros terópodes?»

Ao que o outro campo responde:
Não é preciso, diz Martin. «Não temos que fazer nenhum cladograma. Podemos dizer-vos desde já que todas as características que encontrámos no exemplar são consistentes com o parentesco com as aves.» E quanto aos muitos cladogramas que demonstram a origem dinossauriana das aves, Martin defende que eles estão semeados de características baseadas em anatomia errónea, ou noutras palavras, «se entra lixo, sai lixo» numa escala gigantesca.

Como podem ver não há entendimento possível entre estes senhores. Mesmo a identificação das estruturas como penas permanece controversa. Voltarei a este tema na próxima contribuição. Para já deixo-vos com o último parágrafo do artigo de Erik Stokstad, que corresponde ao que eu penso sobre toda esta questão:
Mas mesmo os paleontólogos que recusam qualquer ligação entre o Longisquama e a origem das aves continuam a considerá-lo um fóssil intrigante. «Onde quer que o Longisquama caiba na árvore da vida, é um réptil notável de um período extremamente interessante na história dos vertebrados», diz Holtz. Prum salienta que nenhum animal moderno possui semelhante escamas membranosas e longas. Mesmo que não tenham nada que a ver com penas, diz ele, «estas estruturas são bastante bizarras e fascinantes. Quero saber o que são.»

Podem ver uma reconstituição da cabeça deste animal da autoria de Matt Celeskey nestas páginas do Hairy Museum of Natural History.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Longisquama a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.

Referências
(ref1) Terry D. Jones, John A. Ruben, Larry D. Martin, Evgeny N. Kurochkin, Alan Feduccia, Paul F. A. Maderson, Willem J. Hillenius, Nicholas R. Geist, and Vladimir Alifanov (2000). Nonavian Feathers in a Late Triassic Archosaur. Science Vol. 288. no. 5474, pp. 2202 - 2205. DOI: 10.1126/science.288.5474.2202.
(ref2) Erik Stokstad (2000). Feathers, or Flight of Fancy? Science Vol. 288. no. 5474, pp. 2124 - 2125. DOI: 10.1126/science.288.5474.2124

sábado, outubro 06, 2007

Velocirraptor, o pequenote

Como referi numa das contribuições dedicadas aos ovirraptores, o artigo que descreve o "ladrão de ovos com apetência pelos de cerátopo" foca dois outros dinossauros famosos. O mais famosos dos três animais descritos no artigo de 1924 não é o ovirraptor mas sim o Velociraptor mongoliensis, que ganhou projecção mediática em todo o mundo devido à sua infame participação nos vários filmes do Parque Jurássico. O infame na frase anterior não se refere ao facto de o velocirraptor ser o vilão da história, mas sim aos erros tremendos na caracterização dessa criatura. Os velocirraptores do cinema têm muito pouco que ver com o que se sabe sobre este animal. [... ler mais]

Nestas coisas nada melhor do que começar pela referência original. Vejamos então como Henry Fairfield Osborn descreveu o animal em 1924 na revista American Museum Novitates (ref1). Há uma frase que é reveladora:

Este crânio foi encontrado na matriz de arenito macio jazendo ao lado de um crânio de Protoceratops andrewsi. Embora esguio e diminuto é apesar de tudo do tipo do terópode tipicamente megalosauriano,

O ênfase é meu, e ilustra um dos pontos em que os velocirraptores do Parque Jurássico mais se afastam da realidade: os velocirraptores eram muito mais pequenos que as criaturas que têm esse nome no filme. O crânio descrito por Osborn tinha apenas 176 milímetros de comprimento total. Eis aqui uma comparação com um ser humano adulto:

O animal teria uma corpulência muito próxima da de um peru, com o dorso a apenas meio metro de altura e cerca de 15 kg de peso. A ferocidade não se mede aos palmos mas, vendo o tamanho relativamente a um ser humano, temos que convir que seria uma criatura muito menos assustadora do que aquela que surge no filme.

Mas há uma coisa na descrição de Osborne que os aproxima dos animais do filme:
Os dez ou doze dentes extremamente recurvados são fortemente serrilhados na margem posterior, menos serrilhados na anterior; treze a catorze em número em cada mandíbula, algo homodontes ou similar em forma, embora diferindo em tamanho, curvatura e serração; irregulares ou alternando na substituição, de forma a que os grandes intervalos entre as coroas curvas estão perfeitamente adaptados para a captura súbita de presas ligeiras de movimentos rápidos; o rosto comprido e a grande abertura das mandíbulas indicam que a presa não só estaria viva mas seria de tamanho considerável.

Isto é, seria um predador activo e ágil. O filme afasta-se também bastante da realidade na cena idiota em que os velocirraptores aparecem a abrir portas. As mãos do velocirraptor não funcionariam como as dos primatas, na verdade os membros anteriores deste animal assemelhar-se-iam a asas providas de grandes garras. Aliás descobriu-se recentemente que a parecença a asas ia mesmo ao ponto de possuirem penas de vôo. Falarei disso numa próxima contribuição.

Ficha técnica
Ilustração do esqueleto cortesia Frederik Spindler via Wikimedia Commons.
Comparação entre velocirraptor e humano baseada numa ilustração de Matt Martyniuk retirada da Wikimedia commons.

Referências
(ref1) Henry Fairfield Osborn, Peter C. Kaisen e George Olsen (1924). Three new Theropoda, Protoceratops zone, central Mongolia. American Museum novitates no. 144. PDF.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Um almoço com o elo entre dois mundos

Em 1983 um paleontólogo de seu nome John Horner sentou-se para almoçar em cima de uma rocha de aspecto avermelhado. Essa rocha continha os restos muito difíceis de ver de um pequeno dinossauro, o Cerasinops hodgskissi, que teria que esperar 24 anos até ser descrito numa revista da especialidade. Trata-se de um membro do grupo conhecido como "faces com cornos", os ceratopianos, embora o animal descrito recentemente na verdade não tivesse cornos na face. Este é um fóssil importante para a compreensão da evolução dos ceratopianos, que se espalhavam da Ásia à América do Norte. É que os ceratopianos asiáticos e norte-americanos apresentavam características distintas, por exemplo a nível da dentição. Ora, sendo uma forma norte-americana, o Cerasinops apresenta contudo traços que se conheciam apenas nas formas asiáticas, ao mesmo tempo que partilha alguns aspectos característicos dos grupos norte-americanos. Não admira que a descoberta tenha feito surgir nos comunicados de imprensa os famigerados termos "fóssil de transição" e "elo perdido". [... ler mais]

O tal elo entre animais de dois continentes é descrito num artigo de Brenda Chinnery and John Horner na revista Journal of Vertebrate Paleontology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os neoceratopianos basais (do ponto de vista cladístico) são membros gráceis e relativamente pequenos dos Ceratopsia (os dinossauros "com cornos"), os quais também incluem formas maiores como o Triceratops e o Centrosaurus. Os neoceratopianos basais asiáticos partilham alguns traços muito importantes que até agora não tinham sido encontrados em nenhum grupo norte-americano, incluindo um capuz cefálico fenestrado e dentes pré-maxilares. Do mesmo modo, os grupos taxonómicos basais norte-americanos possuem alguns traços não encontrados nas formas asiáticas, o mais importante dos quais é um padrão de desgaste dos dentes muito especializado. Cerasinops hodgskissi, um novo neoceratopiano basal da Formação Inicial de Two Medicine River no Montana, exibe todas as características mencionadas acima juntamente com outras previamente encontradas em apenas um dos dois continentes. A nova espécie é o grupo irmão dos Leptoceratopsidae numa análise cladística, e é um elo entre grupos taxonómicos nos dois continentes. O Cerasinops exibe também características anatómicas e histológicas extremamente interessante que indicam a possibilidade de bipedalismo neste táxon, um padrão locomotar não encontrado anteriormente em neoceratopianos basais (tinha sido sugerido em alguns, mas com evidência escassa).

Nada mau para um animal do tamanho de um peru e que terá vivido há cerca de 80 milhões de anos. A ilustração no início da contribuição mostra alguns "espinhos" na cauda. Trata-se de uma liberdade artística que se baseia no integumento encontrado num animal muito próximo dos ceratopianos. Falarei desse dinossauro espinhudo em breve.

Ficha técnica
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.
A referência ao almoço de John Horner foi retirada do artigo sobre a descoberta na National Geographic.

Referências
(ref1) Brenda J. Chinnery and John R. Horner (2007). A new neoceratopsian dinosaur linking North American and Asian taxa. Journal of Vertebrate Paleontology. Volume 27, Issue 3, pp. 625-641. Laço DOI.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Perder um nome em Portugal

Esta é uma ilustração do dinossauro Baryonyx walkeri, um tipo de dinossauro terópode algo bizarro, cujos restos podem ser encontrados em várias regiões do que é agora a Europa. Descobriu-se recentemente que o género Baryonyx existiria também em Portugal. O problema é que os fósseis que se sabem ser agora de Baryonyx, dentes e fragmentos de mandíbulas, já tinham nome, tinham sido atribuídos a uma criatura baptizada como Suchosaurus girardi, que se julgava ser um crocodilo. Ora esse nome tem precedência e neste momento pode vir a ocorrer uma pequena revolução na taxonomia de todos os espinossaurídeos. O Baryonyx pode ter perdido o nome em Portugal. [... ler mais]

A identificação dos restos atribuídos ao género Baryonyx é feita num artigo de Eric Buffetaut na revista Geological Magazine (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Redescrevem-se fragmentos de mandíbulas com dentes do Barremiano de Boca do Chapim (Lisboa e Setúbal, Portugal), originalmente considerados como crocodilianos e identificados como Suchosaurus girardi por Sauvage, que são referidos ao dinossauro espinossaurídeo Baryonyx, com base na comparação com Baryonyx walkeri, do Barremiano de Inglaterra. Isto estende a distribuição geográfica, deste género de terópode pouco usual, a Portugal. O Baryonyx parece ter sido um componente das jazidas de dinossauros do Cretácico Inicial da região Ibérica, que pode ter formado uma zona de passagem biogeográfica para a dispersão dos baryonychine entre a Europa e a África.

Ora qual é o problema com a taxonomia? É que uma criatura designada por Suchosaurus cultridens, na verdade não uma criatura mas um dente gasto, foi descrita antes de existir a designação Baryonyx. As regras de nomenclatura taxonómica em geral consideram a prioridade histórica, logo o género Suchosaurus tem prioridade sobre o género Baryonyx, o que significa que o género Baryonyx poderá passar a Suchosaurus. Isso acarretaria mudanças ainda mais profundas na classificação do grupo a que pertencem estes animais, os espinossaurídeos pois o Suchosaurus também ultrapassa em antiguidade o Spinosaurus. Este tipo de imbróglios é relativamente comum em descrições que não se basearam em espécimes articulados, mas sim em fragmentos do esqueleto ou dentes. Um outro exemplo famoso é o do Stenonychosaurus, cujos dentes se mostrou depois já terem sido atribuídos anteriormente a uma criatura baptizada Troodon.

Não há ainda certezas quanto ao que vai acontecer, há uma comissão que vai decidir a esse respeito, mas não me admiraria que o Baryonyx fosse afundado como sinónimo de Suchosaurus e desaparecesse da literatura futura.

Ficha técnica
Imagem de Baryonyx (?) cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Eric Buffetaut (2007). The spinosaurid dinosaur Baryonyx (Saurischia, Theropoda) in the Early Cretaceous of Portugal. Geological Magazine, Cambridge University Press.

quarta-feira, outubro 03, 2007

A miraculosa asa voadora de Sharov

Na década de 1960 um senhor chamado Alexander Sharov estudava fósseis do Triásico na então República Soviética da Quirguízia. Sharov estava interessado sobretudo em invertebrados, mas, nos sedimentos finos, capazes de guardar os detalhes dos insectos, encontrava de vez em quando pequenos vertebrados, extraordinariamente bem preservados, com impressões da pele e tudo. Um desses fantásticos achados é a criatura da imagem, inicialmente chamada de Podopteryx, e que seria mais tarde baptizada como Sharovipteryx mirabilis. É de facto um pequeno milagre. Trata-se do mais antigo fóssil que se conhece com evidências de uma membrana entre as patas do animal, algo que nos animais modernos significa que deslizam pelos ares. Só que "a miraculosa asa voadora de Sharov" é única, pois, em vez de asas nos braços, o Sharovipteryx usava uma prega de pele apoiada nas patas traseiras. Esta parece uma forma estranha de voar, e os cientistas têm especulado sobre a forma como o Sharovipteryx o faria. [...ler mais]

O animal vivo seria semelhante a algo do género:

Esta pose parece pouco natural pois o centro de massa do animal estaria à frente do patágio. Mas esta é apenas uma entre várias possibilidades pois há muitas dúvidas quanto à vizinhança dos membros anteriores. É que essa parte do fóssil foi alterada durante a preparação e não há certeza quanto à forma do patágio nessa região, aliás não se sabe mesmo se existia um patágio nessa região. Recentemente, alguns cientistas procuraram reconstruir o aspecto do animal t
endo como base o desempenho aerodinâmico de várias configurações do Sharovipteryx. Os resultados são descritos num artigo de Gareth Dyke e colegas publicado na revista Journal of Evolutionary Biology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Sharovipteryx mirabilis, um réptil de há 225 milhões de anos, foi o primeiro planador de tipo asa-delta no mundo; este animal notável possuía um superfície de vôo composta inteiramente por uma membrana nos membros posteriores. Utilizamos teoria aerodinâmica padrão de asas-delta para reconstruir o vôo do S. mirabilis demonstrando que a forma da asa poderia ter sido controlada simplesmente pela protracção do fémur ao nível dos joelhos, e pela variação na incidência de uma pequena asa-canard nos membros anteriores. O nosso método permitiu-nos abordar a questão de como a identificação realista do desempenho no vôo planado pode ser utilizada para colocar limites na reconstrução aerodinâmica deste pequeno animal. A nossa interpretação inovadora do bizarro modo de vôo do S. mirabilis é a primeira baseada directamente na interpretação do fóssil e a primeira a ter como base a aerodinâmica.

A tal asa-canard é uma pequena asa que se coloca nalguns tipos de avião à frente das asas principais, e que apresenta nesse tipo de aviões vantagens em relação às tradicionais pequenas asas da cauda. O comentário quanto ao animal ser pequeno é adequado, os autores estimam que pesaria cerca de 4 gramas e meio.

Eis aqui algumas das configurações testadas pelos autores:

A configuração da esquerda (a) é a reconstrução original de Alexander Sharov, (b) é a reconstrução devida a um artigo de Gans et al. (1987), (c) a de um artigo de Wellnhofer (1991), e (d) é o modo que os autores do artigo de Dyke e colegas consideram o mais eficiente. O traço visível à direita da cauda de (b) representa dois centímetros. Os autores referem que o animal conseguiria voar mesmo sem a asa-canard, mas que a presença de uma tal estrutura aumentaria e muito a estabilidade.

Claro que este estudo não prova realmente que o Sharovipteryx voasse assim. É que, como referi, não se sabe se existiriam de facto patágios acima das pernas, e muito menos se existiria algo equivalente a uma asa-canard. É algo a que não se poderá responder sem descobrir mais fósseis deste animal. Quase de certeza que, algures na Quirguízia, existem outros exemplares destes répteis por descobrir. Ou mesmo de outros animais igualmente fascinantes. É que o Sharovipteryx não foi o único vertebrado enigmático descoberto por Alexander Sharov: ele deparou-se com um animal tão ou ainda mais estranho. Mas essa é uma história que terá que ficar para outra contribuição.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Sharovipteryx a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Dyke, G. J., Nudds, R. L. & Rayner, J. M. V. (2006) Flight of Sharovipteryx mirabilis: the world’s first delta-winged glider. Journal of Evolutionary Biology 19, 1040-­1043. doi: 10.1111/ j.1420-9101.2006.01105.x.

terça-feira, outubro 02, 2007

Pequenos dragões de pescoço comprido

Descobrir fósseis de animais bizarros sem contrapartidas modernas é interessante, mas descobrir animais extintos que, por convergência evolutiva, se assemelham extraordinariamente a animais modernos é também fascinante. Este pequeno lagarto é um velho conhecido aqui no Cais de Gaia. Trata-se do Draco volans, o dragão-voador das florestas do sudoeste asiático. Os dracos voam estendendo uma prega de pele entre as costelas, o que lhes permite deslizar de árvore para árvore. Eu tinha usado esta mesma imagem em Março deste ano, para falar sobre a descoberta do fóssil de um pequeno lagarto que também utilizaria as costelas para planar, em plena época dos dinossauros. Ora, uns meses depois, foi descrito um outro grupo de animais, de uma espécie baptizada Mecistotrachelos apeoros, que também usavam um patágio estendido entre as costelas para voar. Esses animais eram muito antigos: dois deles tiveram que esperar cerca de 220 milhões de anos para serem submetido a exames médicos, o que até nem é muito mau se comparado com as esperas nos hospitais e centros de saúde portugueses. [... ler mais]

Os cientistas que fizeram a descoberta não conseguiram remover os fósseis da matriz de sedimento que os envolvia, por meios mecânicos ou químicos, daí o uso de um método de diagnóstico usual na medicina moderna, a tomografia axial computorizada. Eis aqui o desultado de um dos varrimentos:

Notem bem o enorme comprimento das costelas, e também o do pescoço. Os dois fósseis são descritos num artigo Nick Fraser e colegas, publicado na revista Journal of Vertebrate Paleontology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descreve-se um novo táxon de tetrápodes do Triásico Superior, da Formação de Cow Branch da Virginia, com base apenas em varrimentos de tomografia axial computorizada de dois indivíduos. A nova forma caracteriza-se pela presença de costelas torácico-lombares que em vida presumivelmente suportariam uma membrana para deslizar pelos ares. Difere de todos os outros terápodes planadores por possuir um pescoço bastante comprido. O pé, capaz de agarrar, é consistente com um habitat arborícola.

Eis o aspecto do outro destes "exames médicos":

Notem os ossos dos pés, encurvados, sugerindo que o animal seria capaz de se agarrar, por exemplo, a ramos finos. Ambos os fósseis foram recuperados de sedimentos que provinham de um lago de margens pantanosas, tudo indicando que se teriam afogado na parte mais profunda desse mesmo lago. Contudo, sendo animais arborícolas, sem especializações de tipo aquático, esperar-se-ia que num salto falhado se afogassem próximo das margens. Os autores do artigo referem no entanto ser possível que ao tentarem deslizar de árvore para árvore tenham sido empurrados e transportados para muito longe por alguma rajada de vento.

Os autores deixam as afinidades filogenéticas do animal um pouco vagas. Sugerem que estaria mais próximo dos arcossauromorfos (e logo das aves e crocodilos) que dos lepidossauromorfos (e logo das cobras e lagartos). Referem algumas características semelhantes às encontradas num animal chamado Sharovipteryx, que segundo alguns autores seria um protorossauro, um grupo de criaturas bizarras que incluía o Tanystropheus, um animal de que falei na contribuição anterior. Tal como o Tanystropheus o Mecistotrachelos era um animal pescoçudo: o pescoço e a cabeça do animal corresponderiam a cerca de 8 centímetros de um comprimento total do corpo de cerca de 25 centímetros. Uma reconstrução do aspecto do animal em vida pode ser vista nas páginas da artista Karen Karr.

Como estas duas últimas contribuições mostram, a paleontologia dos vertebrados terrestres não se esgota nos dinossauros e mamíferos. As faunas do Pérmico e do Triásico também escondem muitas surpresas. Havia, por exemplo, muitos outros animais planadores. Falarei deles em breve.

Ficha técnica
Imagens de Draco volans cortesia de Alfeus Liman retiradas desta página na Wikimedia Commons.


Referências
(ref1) N. C. FRASER, P. E. OLSEN, A. C. DOOLEY JR., and T. R. RYAN (2007). A NEW GLIDING TETRAPOD (DIAPSIDA: ?ARCHOSAUROMORPHA) FROM THE UPPER TRIASSIC (CARMAN) OF VIRGINIA. Journal of Vertebrate Paleontology, Volume 27, Issue 2, pp. 261–265. Laço DOI.