sexta-feira, novembro 17, 2006

Quão prejudicial é colocar rádios em golfinhos?

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Tal como prometido vou falar do boto-vermelho da Amazónia, de seu nome científico Inia geoffrensis. Ao ver as publicações decorrentes do Projecto Boto encontrei algo ligado à minha última contribuição sobre as aves ciganas, onde discuti o impacto dos turistas nos padrões de sobrevivência das aves. Uma questão relacionada, e também importante, é o impacto dos estudos científicos na sobrevivência e taxas de reprodução dos animais investigados, em particular os efeitos dos instrumentos de rastreio ou monitorização que se colocam sobre os indivíduos a estudar. Ora foi isso que os investigadores do Projeto Boto puderam quantificar como resultado da sua investigação. [... ler mais]

Os investigadores do Projeto Boto empregam uma técnica de rastreamento chamada rádio telemetria. Para poderem efectuar esse rastreio colocaram pequenos rádio-transmissores em 56 animais adultos: 3 seguidos por satélite e 53 seguidos por receptores colocados em torres ou árvores na reserva. Estas coisas são como que aparafusadas às pequenas barbatanas dorsais características destes animais:

Na esquerda (A) mostram-se o dispositivo rádio e uma etiqueta identificativa, com as setas a indicarem a posição dos pinos que suportam estas coisas. À direita (B) mostra-se um animal que carregou durante algum tempo um destes dispositivos, 6 anos após o dispositivo ter sido removido. O animal sarou sem problemas de maior e apenas algumas cicatrizes são visíveis. Por vezes no entanto os pinos "migram" e pode haver perda de tecido. A questão que Tony Martin, Vera da Silva e P. Rothery se colocaram foi até que ponto isso afectaria os animais. Os resultados desse trabalho foram publicados na revista Marine Mammal Science (ref1). Numa tradução livre do resumo:
Um estudo de longa duração de botos (Inia geoffrensis) an Amazónia Brasileira permitiu a comparação entre a sobrevivência e reprodução de 51 adultos equipados com transmissores rádio e um número idêntico que foram capturados e manuseados da mesma forma mas libertados sem um transmissor. Para ambos os sexos combinados, 47 botos com emissores (92.2%) sobreviveram pelo menos três anos após terem sido libertados, comparados com 42 (82.4%) sem emissores, o que se traduz numa taxa de sobrevivência anual de 97.3% e 93.6%, respectivamente. A diferença não era estatisticamente significativa. Oito das 15 fêmeas com emissores monitorizadas de perto estavam em período de aleitamento, e as suas crias desmamaram com sucesso. Duas que estavam prenhas aquando da captura deram à luz posteriormente. O número médio de crias nascidas destas 15 fêmeas após a primeira largada foi de 0.172 (SD = 0.107) e para as 17 sem emissores foi 0.174 (SD = 0.095), mais uma vez uma diferença não significativa. Os resultados indicam que colocar dispositivos nas barbatanas dorsais dos golfinhos pode ser conseguido sem impactos mensuráveis na sua sobrevivência ou no seu desempenho reprodutivo subsequentes. Contudo, os botos podem ser anormalmente robustos no que se refere ao manuseamento, e este estudo não deve ser usado para justificar técnicas semelhantes noutras espécies sem as habituais cautela, diligência e acompanhamento por um perito.

Agora que podemos estar sossegados quanto aos efeitos sobre o animal, que aparentemente não deverão passar de algum desconforto, sinto-me mais à vontade para falar nos resultados de alguns destes estudos, e também de vários aspectos da vida dos botos. Não resisto a mostrar uma imagem feliz destes animais únicos, com as sua enormes barbatanas e longos e estreitos focinhos, impossíveis de confundir com outras espécies de cetáceos.

Esta imagem ilustra outro aspecto único destas criaturas. Ao contrário de outras espécies de golfinhos, os botos não formam grandes grupos familiares, são em grande parte animais solitários: a única relação estável é entre mãe e cria. Voltarei a este tema nos próximos dias. A próxima contribuição será menos agradável, há um "abutre" que põe em risco a sobrevivência deste magnífico animal.

Ficha técnica
Todas as imagens e muita da inspiração para o texto foram retiradas das páginas do Projeto Boto.

Referências
(ref1) Martin, A.R., da Silva, V.M.F. and Rothery, P.R. (2006). Does radio tagging affect the survival or reproduction of small cetaceans? A test. Marine Mammal Science 22(1): 17-24. Laço DOI.

3 comentários:

João Carlos disse...

Bom... Pelo que se pode concluir dos dados coletados no projeto (apesar da amostragem ser pequena - quem nunca esteve lá, não faz idéia de quão enorme é a Amazônia), não é mais prejudicial do que o uso de telefones celulares por pessoas.

O passo seguinte seria o de implantação de microcâmeras de televisão, para que se pudesse ter uma visão do comportamento dos animais, sem a perturbadora presença de seres humanos no local.

Mas os botos são criaturas dóceis (eu travei contato com eles no Lago Puraquequara, parte do Centro de Instrução de Guerra na Selva do Exército Brasileiro) e - no caso de não serem hostilizados, como no que descrevi - se mostram curiosos para com seres humanos.

O grande problema com a sobrevivência da espécie é a concorrência que eles fazem com os pescadores humanos, que não costumam ser tão amistosos...

Caio de Gaia disse...

Na verdade a coisa com os pescadores é mais macabra. Vou falar nisso a seguir.

João Carlos disse...

Foi o que eu deixei implícito... A coisa chega a ser revoltante.

Eu nunca lidei pessoalmente com este aspecto, mas tenho alguma experiência no combate à caça predatória de jacarés no Pantanal de Mato Grosso.