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sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O hipócrita, dissoluto e avarento crocodilo

Isto é chamado um COCODRILO devido à sua cor de açafrão (crocus). Reproduz-se no Rio Nilo: um animal com quatro patas, anfíbio, geralmente com 30 pés de comprimento, armado com dentes e garras horríveis. Tão grande é a dureza da sua pele que nenhum golpe pode magoar um crocodilo, nem mesmo se pesadas pedras forem lançadas sobre o seu dorso. Permanece na água durante noite, em terra durante o dia. Incuba os seus ovos em terra. O macho e a fêmea fazem turnos.

Esta é a descrição do crocodilo no bestiário de que tenho falado nos últimos dias. A figura que a acompanha, é absolutamente deliciosa. As orelhas (ou serão cornos?), e o focinho não são de estranhar, o animal é colocado no grupo das bestas e não no grupo dos répteis. Não nos devemos esquecer da data deste escritos, século XII, e que autor do texto baseia a sua descrição em relatos de outras pessoas. Não é por isso de espantar que a representação não seja lá muito fiel em relação ao aspecto do animal em questão. Na verdade, no que se refere aos crocodilos, as imprecisões vêm de muito atrás. O bestiário refere, por exemplo, que de entre os animais o crocodilo é o único que move a mandíbula superior, mantendo-se a inferior quieta. O próprio Aristótoles incorreu nesse erro. Mas o que mais aprecio é a descrição que o bestiário faz das propriedades dos excrementos do animal. [... ler mais]
O seu excremento providencia um unguento com o qual as prostitutas velhas e cheias de rugas untam as suas faces e as tornam belas, até que o suor dos seus esforços o lava do rosto.

O tradutor do bestiário, Terence White, faz algumas considerações sobre o tema. Aprendi assim que Galeno considerava que o excremento de crocodilo era bom para as sardas, que Aécio recomendava que fosse queimado e o fumo enviado para dentro de buracos de cobra, e que Quiranides defendia que os dentes eram afrodisíacos, desde que fossem retirados do animal vivo.

Como é hábito, o bestiário faz considerações de índole moral, e é muito severo com as pobres criaturas:
As pessoas hipócritas, dissolutas e avarentas possuem a mesma natureza que este bruto...

Mais sobre crocodilos nas próximas contribuições, mas sob uma perspectiva mais moderna.


Ficha técnica
Imagem retirada da referência abaixo.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Os medos dos elefantes


Existe um animal chamado Elefante que não tem nenhum desejo de copular.

É assim que, no mesmo bestiário do século XII, de que falei na contribuição anterior, se inicia a parte relativa aos hábitos dos elefantes. Os bestiários eram mais do que a simples descrição do comportamento dos animais, faziam paralelos entre o comportamento animal e a concepção do mundo que se possuía na época, ligada às Escrituras. Não surpreende assim que se estabeleça um paralelismo, entre os hábitos sexuais dos elefantes, e a história de Adão e Eva no Génesis. Os elefantes, macho e fêmea, quando queriam uma cria, deslocar-se-iam para oriente, para o Paraíso, onde comeriam da árvore Mandrágora, cedendo então aos prazeres da carne, e concebendo de imediato. Estranhamente, na época, julgava-se que os elefantes não tinham joelhos, e que copulavam costas com costas, uma suposição que vinha do tempo dos autores gregos da época clássica. No bestiário ficamos também a saber que, se o Elefante não tem problemas em enfrentar um touro, por outro lado tem medo dos ratos. Pois é, aquela imagem do elefante em pânico ao ver um rato, típica dos desenhos animados, afinal tem mais de 800 anos. Curiosamente, pode existir um fundo de verdade na história. [... ler mais]

O suposto medo dos ratos é tratado num episódio dos Caçadores de Mitos (Mythbusters), que fizeram uma experiência envolvendo um ratinho branco, um esconderijo feito de excremento de elefante, e dois elefantes num cenário natural:



Notem que o Adam e o Jamie fizeram mesmo uma experiência de controlo sem o rato, mostrando que não foram nem os fios, nem o monte de excremento a saltar, que assustaram os elefantes. Foi mesmo o ratinho. Deve notar-se que, embora isto signifique que seja possível que o mito tenha a sua base num comportamento real, os elefantes não têm realmente medo de ratos. Aquilo é sobretudo cautela com uma criatura, possivelmente barulhenta, que surge de repente no meio do caminho. Os elefantes nos zoológicos, e nos circos, convivem de perto com ratos e ratazanas, e não lhes prestam grande atenção.

Ficha técnica
Imagem retirada da referência abaixo.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.

domingo, janeiro 27, 2008

As cobras do leite

Esta cobra é uma Lampropeltis triangulum syspila, um animal que, apesar das cores berrantes, é relativamente inofensivo para os humanos. Possui no entanto uma má reputação junto aos agricultores que enveredam pela pecuária, que é extensiva a outras cobras. Essa má reputação provém de uma crendice, que existia já na idade média. Por estranho que pareça, os manuscriptos mais populares na período medieval, a seguir à Bíblia, eram tratados de biologia animal, os bestiários. Os autores dos bestiários deixavam de fora dos seus livros as criaturas fantásticas dos pagãos: os animais descritos eram supostamente criaturas reais, e os hábitos relatados eram considerados como comportamento de facto das criaturas. Algumas das coisas referidas nos bestiários são claramente fantasiosas, e levam-nos muitas vezes a esboçar um sorriso. Mas não nos podemos esquecer que os autores deste livros limitavam-se a aceitar o testemunho de pessoas mais autorizadas do que eles: caçadores e camponeses, que lidavam directamente com os animais, ou relatos de viajantes que os teriam visto em primeira mão. Ora o que é que isso tem a ver com a Lampropeltis triangulum? Bem, é que esta cobra é conhecida nos Estados Unidos da América como red-milk-snake, ou seja, a cobra-do-leite vermelha, e a razão para o nome poderia ser decalcada de um bestiário com mais de 800 anos. [... ler mais]

Eis então uma tradução para português, de um excerto de uma tradução do latim para inglês da autoria de Terence Hanbury White, de um bestiário do século XII:

A BOA é uma cobra italiana que persegue manadas de vacas ou grandes grupos de búfalos, e se agarra aos seus úderes plenos com muito leite. Destrói-os ao mamar. Assim, pela devastação do gado (Boves), a Boa retira o seu nome.

A cobra-do-leite dos Estados tem exactamente a mesma reputação. Quando as vacas aparecem com os úderes vazios a culpa é das cobras. O facto das cobras aparecerem nos estábulos das vacas não tem grandes segredos: procuram roedores, não leite. Mas, mesmo que se desse importância ao facto de aparecerem nos estábulos com as vacas sem leite, a associação causal não faz sentido, é que uma cobra destas não possui capacidade para secar uma vaca. Para lá das cobras não possuirem um aparelho bucal adequado a mamar nas tetas duma vaca, trata-se de animais relativamente pequenos. O volume de leite ingerido pela cobra seria sempre diminuto em relação à capacidade da vaca. Mas esse tipo de considerações não detém os agricultores. De acordo com as crendices locais, uma só cobra-de-leite consegue sugar, de uma assentada, leite capaz de saciar quarenta homens.

O mesmo mito existe, ou pelo menos existia quando eu era miúdo, nas aldeias portuguesas. Quando uma cabra aparecia com as tetas vazias, dando muito menos leite do que era costume, a culpa era invariavelmente de alguma cobra. Pelo menos era o que meu avô me dizia, e eu acreditava na história. Claro que nenhuma das cobras nativas portuguesas se presta a este tipo de actividades, mas as histórias do apetite das cobras por leite abundam em Portugal, e possuem mesmo versões mais tenebrosas. Uma outra história, que me lembro da minha infãncia, é a da cobra que entra em casa atraída pelo cheiro do leite humano, e apanhando a mãe adormecida com o filho ao colo, aproveita para mamar em vez da criança. Com requintes de malvadez, o animal chegaria ao ponto de tapar a boca da criança com a cauda à laia de chupeta, para a manter sossegada. Nalgumas versões, as cobras procuram crianças pequenas que tenham acabado de mamar, e entram-lhes pela garganta abaixo para irem buscar o leite, sufocando-as.

Enfim, contos de terror das aldeias, mas que as pessoas juram a pés juntos terem acontecido ao avô do tio do primo de um vizinho. Não adianta tentar argumentar acerca da impossibilidade do fenómeno. A maioria das pessoas reage de forma irracional às cobras, e mesmo os meus parentes mais próximos continuam a julgar-me louco por agarrar nas cobras, que me entram em casa, e por largá-las no campo, em vez de simplesmente lhes esborrachar a cabeça.

Os bestiários eram levados muito a sério pelas pessoas da época, e o facto de muitas das histórias persistirem são reveladoras. Na próxima contribuição descreverei mais algumas curiosidades destes bestiários. Sabiam, por exemplo, que para assustar um leão basta mostrar-lhe um galo, em especial se for branco?

Ficha técnica
Imagem de Lampropeltis triangulum syspila cortesia de Mike Pingleton via Wikimedia Commons.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.