O tempo aqui nas montanhas do sul da Índia tem estado péssimo, com chuva quase contínua e algumas trovoadas impressionantes. Uma dessas trovoadas fulminou a minha ligação à internet, daí o meu silêncio nas últimas semanas. Para celebrar o regresso ao blog nada melhor do que referir que encontrei um sério candidato a prémio IgNobel. Imaginem lá que alguém dedicou o seu tempo a medir a correlação entre consumo de cerveja e produtividade científica. [... ler mais]
O artigo que estuda a relação entre a cerveja e a ciência é da autoria de Tomás Grim e foi publicado na revista Oikos (ref1). Numa tradução livre do resumo:A taxa de publicações é o padrão pelo qual se avalia a produtividade científica. Apesar de um grande número de artigos sobre o tema dos enviesamentos nas publicações e citações, nenhum estudo até agora considerou um possível efeito das actividades sociais na taxa de publicações. Uma das actividades sociais mais frequentes no mundo é beber álcool. Na Europa, a maior parte do álcool é consumida como cerveja e, baseado nos efeitos negativos do consumo de álcool no desempenho cognitivo, previ correlações negativas entre o consumo de cerveja e diversas medidas do desempenho científico. Utilizando um levantamento da República Checa, que possui a taxa de consumo de cerveja per capita mais elevada do mundo, mostro que um maior consumo de cerveja per capita está associada a menores números de artigos, citações totais, e citações por artigo (uma medida da qualidade dos artigos). Além disso, encontrei as mesmas tendências previstas comparando duas regiões separadas geograficamente na República Checa, que também se sabe diferirem nas taxas de consumo de cerveja. Estas correlações são consistentes com a possibilidade de que actividades sociais nos tempos livres possam influenciar a qualidade e a quantidade do trabalho científico e possam ser potenciais fontes de enviesamento nas publicações e citações.
A escolha do país é algo suspeita. Quem já tenha passado uns tempos com checos, sabe bem que o que eles consideram reduzido consumo de cerveja seria considerado consumo excessivo na maioria dos outros locais do mundo. De qualquer forma, há só uma maneira de destruir esta correlação e vou começar já, indo até à povoação mais próxima pedir uma kingfisher gelada.
Ficha técnica
Imagem cortesia de John White via Wikimedia Commons.
Referências
(ref1) Tomás Grim (2008). A possible role of social activity to explain differences in publication output among ecologists. Oikos 117 (4) , 484-487. doi:10.1111/j.0030-1299.2008.16551.x
segunda-feira, março 24, 2008
Se publicar não beba
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terça-feira, janeiro 22, 2008
Não, não sou o único...
... a não gostar de palhaços. Quando era miúdo e via aqueles adultos vestidos de forma esquisita, e com a cara pintada de forma sinistra, sentia-me sempre pouco à vontade. Não se tratava de uma fobia, nunca me senti assustado. As vozes esquisitas e as supostas piadas davam-me vontade de esconder, mas não de medo. Simplesmente não lhes achava piada, e apossava-se de mim aquela sensação de vergonha, que por vezes sentimos quando alguém faz figura de parvo à nossa frente. Mas sempre pensei que existiria algo de estranho comigo, afinal toda a gente sabe que "as crianças adoram palhaços". Ou será que não? [... ler mais]
Uma revista dedicada a cuidados de enfermagem, a Nursing Standard Magazine, publicou resultados de um estudo efectuado no hospital de Sheffield. Ao planear a decoração da ala das crianças, um conjunto de investigadores resolveu fazer o óbvio: perguntar às crianças antes de preencher o espaço com imagens de palhaços. A resposta dos 250 petizes entrevistados, dos 4 aos 16 anos, não deixa espaço para dúvidas. Eis uma das frases dos autores do estudo, extraída deste comunicado de imprensa:Descobrimos que os palhaços são universalmente detestados pelas crianças. Algumas consideram-nos assustadores e inescrutáveis.
A extensão do fenómeno não deixou de me surpreender: nem uma das 250 crianças afirmou gostar de palhaços.
Ficha técnica
Imagem do filme Killer Klowns from Outer Space obtida a partir de www.badmovies.org/movies/killerklowns/.
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sábado, janeiro 19, 2008
Grandes títulos
O texto sobre as formigas de rabinho vermelho vai ter que esperar. Os comunicados de imprensa abundam mas o artigo científico ainda não está disponível. No volume de Dezembro havia contudo um artigo de pesquisa com um título sugestivo
Quando cuidar de, abandonar, ou comer a vossa descendência: a evolução dos cuidados parentais e do canibalismo filial.
Referências
Hope Klug e Michael B. Bonsall. When to Care for, Abandon, or Eat Your Offspring: The Evolution of Parental Care and Filial Cannibalism. Am Nat 2007. Vol. 170, pp. 886–901. DOI: 10.1086/522936.
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segunda-feira, novembro 19, 2007
Hiato
Estou mais uma vez lá fora em viagem, e daqui até final do ano só devo passar cerca de uma semana em Portugal. Entre hotéis e pensões, entre a Alemanha e a Índia, vai ser um pouco difícil actualizar o blogue.
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sexta-feira, novembro 09, 2007
Viagem e direitos de autor
Eu tenho estado em França e não me tem sido possível colocar as contribuições em atraso, incluindo as da sopa da pedra. Volto amanhã, pelo que no sábado devo actualizar o blogue.
Entretanto, notei uma coisa. Aqui há uns meses, este blogue recebia umas largas centenas de visitas diárias provenientes do google. Essas caíram para umas dezenas e tem tudo a ver com o facto de algumas pessoas estarem a duplicar conteúdo meu na internet. Não é que isso me incomode, tudo o que está aqui pode ser usado desde que respeitem os desejos dos autores das imagens que uso e tenham cautela com as citações que faço a outras pessoas. O problema é que a cópia literal dos textos é encarada pelo google como estando a fazer batota e baixa a posição das minhas (e das vossas) páginas nos algoritmos de busca. Eu não vou incomodar ninguém por causa disso, mas, por favor, coloquem em linha duplicados apenas dos conteúdos que vos sejam realmente necessários.
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sábado, outubro 13, 2007
A semana do corvo
Algures debaixo daquele pontinho azul ficam as ilhas da Nova Caledónia, um local de paisagens deslumbrantes, e lar de animais e plantas únicos. Já falei aqui de um desses animais, o corvo da espécie Corvus moneduloides. Trata-se de um corvo capaz de, não apenas utilizar, mas também fabricar ferramentas, e com capacidades cognitivas que se conhecem apenas nos seres humanos e nos grandes símios. É seguramente um dos animais mais fascinantes do planeta. A começar no próximo Domingo, e durante toda a semana, o Corvus moneduloides será o convidado de honra aqui no Cais de Gaia.
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segunda-feira, setembro 03, 2007
Como é diferente o ensino em Portugal
Aqui há uns tempos circulava uma anedota, originalmente do Science & Vie, sobre o facilitismo do ensino de Matemática que, com a devida vénia à Associação de Professores de Matemática consistia no seguinte:
[... ler mais]Ensino de 1960: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda. Qual é o seu lucro?
Ensino tradicional de 1970: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda, ou seja 80 francos. Qual é o seu lucro?
Ensino moderno de 1970: Um camponês troca um conjunto B grande de batatas por um conjunto M de moedas. O cardinal do conjunto M é igual a 100 e cada elemento bM vale um franco. Desenha 100 pontos que representem os elementos do conjunto M. O conjunto C dos custos de produção compreende menos 20 pontos que o conjunto M. Representa o conjunto C como um subconjunto de M e responde à seguinte pergunta: qual é o cardinal do conjunto L do lucro (escreve-o a vermelho)?
Ensino renovado de 1980: Um agricultor vende um saco de batatas por 100 francos. Os custos de produção elevam-se a 80 francos e o lucro é de 20 francos. Trabalho a realizar: sublinha a palavra "batatas" e discute-a com o teu colega de carteira.
Ensino reformado de 1990: Um kanpunez kapitalista privilejado enriquesse injustamente em 20 francos num çaco de batatas, analiza u testo e procura os erros de kontiudo, de gramatica, de ortugrafia, de pontuassão e em ceguida dis o que penças desta maneira denriquesser.
Lembrei-me disto a propósito da Biologia. Enquanto punha a leitura em dia dei de caras com algo de surreal no Conta Natura. É de ir às lágrimas! Prova escrita e Biologia, 2005/2006, exame 12 ano:Analise os documentos 1e 2. Responda, depois, aos itens de 1. a 4.
...No Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), foi desenvolvida uma nova técnica de manipulação genética que tira partido de um sistema de defesa de Escherichia coli contra antibióticos. Quando a bactéria é confrontada com tetraciclina, activa um sistema genético – o operão da tetraciclina (operão tet – documento 2) – que leva à produção de proteínas que provocam a saída do antibiótico da célula, garantindo, desse modo, a sua sobrevivência.
...Vários grupos mostraram já interesse nesta técnica, nomeadamente uma empresa farmacêutica multinacional, que pretende utilizá-la nos seus estudos de modelos animais de doenças humanas.
...Esta invenção é, assim, um caso exemplar de como a investigação básica em Biologia produz ideias e conhecimentos aplicáveis ao desenvolvimento de novas tecnologias em Biomedicina.
...A investigação no IGC abarca tanto a investigação científica básica como as áreas de desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias, sendo privilegiadas as interacções entre ambas. Esta estratégia tem granjeado ao Instituto uma sólida reputação internacional e coloca o IGC numa posição privilegiada para fazer a ponte entre conhecimento e inovação.
Eis uma das "questões" referentes a esse texto.4. Seleccione a alternativa que completa correctamente a afirmação seguinte.
De acordo com o documento 1, uma das razões que levam a que o Instituto Gulbenkian de Ciência seja reconhecido internacionalmente é o facto de...
(A) ... procurar articular a investigação básica com o desenvolvimento de novas tecnologias.
(B) ... desenvolver essencialmente investigações em cooperação com empresas farmacêuticas.
(C) ... desenvolver técnicas que permitem compreender os mecanismos reguladores do cancro.
(D) ... ter desenvolvido investigação acerca dos efeitos dos antibióticos no homem.
Quem quiser ver as referências originais pode encontrá-las aqui no texto do Santiago. Não se trata de uma anedota. Para breve os erros na ortografia e os pontapés na gramática?
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sexta-feira, março 23, 2007
Pequeno mundo blogueiro
Para espairecer um pouco, nada melhor que roubar descaradamente algo do blog do Osame. Por muita faladura que se bote num blog convém não perder a noção da real importância destas coisas.
Veja o resto da tira no SEMCIÊNCIA.
Ficha técnica
Tirinha da autoria de André Dahmer, obtida a partir de http://malvados.com.br/
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domingo, novembro 26, 2006
Ciência à distância de um clique
O Adilson de Oliveira, responsável pelo blog por dentro da ciência, é um dos editores e colunistas duma nova experiência de divulgação científica, a revista digital clickCiência. O projecto conta com vários apoios mas está ligado essencialmente à Universidade Federal de São Carlos (Brasil). O lançamento formal pelos vistos só ocorrerá no dia 29 deste mês mas as páginas já estão a funcionar. Pelo que percebi é uma revista algo generalista, mas que em cada número coloca o destaque num tema em particular. No primeiro número o ênfase é nas nanotecnologias, embora faça também uma incursão astronómica, com uma coluna dedicada à despromoção de Plutão. As páginas são graficamente agradáveis, mas mantendo uma saudável sobriedade. Gosto particularmente do tucano que aparece no cabeçalho. Portanto já sabem, se querem saber mais sobre nanotecnologia, e para que serve, directamente do teclado dos especialistas, basta dar um saltinho ao clickCiência.
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sexta-feira, setembro 29, 2006
O circo dos sem-espinha

Os blogs de ciência em inglês organizam regularmente aquilo que chamam Blog Carnivals, que se poderia traduzir por Feiras de Blogs. De tanto em tanto tempo um blog coloca uma lista de artigos publicados noutros blogs durante esse período, e os outros blogs fazem publicidade ao evento. Uma destas feiras de blogs é o Circus of the Spineless. Estou aqui a falar nele não só pelas contribuições, que são interessantes, mas especialmente por causa da apresentação. Esta semana o evento está ancorado no Deep-Sea News, de Craig McClain e Peter Etnoyer, o blog onde eu vou para me informar de tudo o que se passou, se está a passar, ou se irá passar nas profundezas oceânicas.
A apresentação está fenomenal (e eu até nem aprecio tatuagens). Aconselho-vos a visitarem. Vão gostar, afinal não tem espinhas.
Ficha técnica
Imagem adaptada de um original que pode ser encontrado na edição em linha da 20th U.S. edition of Gray's Anatomy of the Human Body, publicada em 1918.
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sexta-feira, abril 07, 2006
Mercenário Esloque
Howard Tayler é um sujeito curioso. Com um bom emprego numa empresa de software nos Estados Unidos da América, casado, com filhos, decide um belo dia dedicar os seus a uma banda desenhada na Internet sobre um grupo de mercenários que navegam pela Galáxia em busca de serviços que exigem os seus talentos especiais. A arte ao início era, e estou a ser simpático, lamentável, mas com o tempo aprimorou-se, e hoje pode ser definida como "não é tão má como isso". Koalas genocidas, criaturas de matéria escura de Andrómeda empenhadas em destruir a Via Láctea, mercenários sem escrúpulos, viagens no tempo, clones, aqui há de tudo. Uma das coisas que sempre distinguiu esta banda desenhada, o Schlock Mercenary, de outras BDs na Internet foi que Howard Tayler cumpriu sempre escrupulosamente a actualização, nunca falhando com um dos painéis diários, nem mesmo o painel especial dos Domingos.
Eu disse que se trata de um sujeito curioso porque às tantas decidiu abandonar o emprego bem remunerado e dedicar-se de corpo e alma ao Mercenário Esloque. Ele lá se tem aguentado, e acaba de lançar a primeira edição em papel da obra. A "edição de árvore morta" corresponde a uma aventura do meio da saga, e pode ser apreciada aqui das páginas 38 à 41 (pdf de qualidade média). Infelizmente existe apenas em Inglês. É claro que já encomendei a minha.
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quinta-feira, março 02, 2006
Fixação brasileira por Tucídides
O Cais de Gaia, para além dos três visitantes razoavelmente fiéis que vêm aqui duas a três vezes por semana, começou a atrair nos últimos dias uma quantidade inusitada de internautas do Brasil que procuram pelo historiador grego Tucídides nos motores de busca brasileiros. Uma média de 15 buscas por dia são enviadas para a página em que falo da peste de Atenas, esse flagelo da antiguidade. Admirável este gosto brasileiro pelos clássicos. Ou será mais do que isso? Se alguém me puder esclarecer as razões do fenómeno desde já agradeço. Confesso que estou curioso.
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domingo, outubro 30, 2005
Sita sings the blues
Não tem a ver com ciência, mas não deixa de ser algo de fantástico. Nina Paley, uma americana que desenha tiras de banda desenhada diárias para jornais, resolveu enveredar pela mitologia indiana. A história que escolheu, tirada do Ramaiana, conta as desventuras de Sita, a encarnação terrena da deusa Lakshmi, personificação da castidade e da pureza. Sita, casada com Rama, personificação do deus Visnu, guerreiro e herói, é raptada por demónios, salva por Rama, abandonada por ele, acabando por voltar ao seio da Terra. Nina Paley, fruto de provações de índole pessoal que têm a ver com a sua passagem pela Índia, resolveu adaptar o mito indiano mas tendo como fundo musical os blues de Annette Hanshaw, uma cantora famosa por volta de 1920. A autora colocou em linha capítulos da animação que podem ser descarregados gratuitamente. Os desenhos são estilizados e belíssimos, as músicas acabam por ficar no ouvido, e o resultado é qualquer coisa de sublime.
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