segunda-feira, novembro 20, 2006

Quando para amar é preciso saber morder

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Eu tinha indicado na contribuição precedente que iria falar das vocalizações dos botos-vermelhos, Inia geoffrensis, mas resolvi deixar isso para depois, pois encontrei algo igualmente interessante. Esta imagem mostra um comportamento característico dos botos machos adultos durante a época do acasalamento: o uso de objectos durante paradas com carácter social e sexual. Mas esta é apenas a parte mais fácil do processo de acasalamento, os pobres machos têm que penar muito mais para terem sucesso na sua vida amorosa. Os botos não ficam passivos a verem outros botos desfilarem em frente aos alvos da sua afeição: aparentemente os machos agridem-se ferozmente uns aos outros, e as marcas disso são visíveis nos seus corpos. Este é mais um dos resultados só possíveis pela estudo de uma grande população destes animais que tem vido a ser feito há mais de dez anos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá no âmbito do Projeto Boto. Os resultados são fascinantes e mostram que o boto é de facto um caso à parte nos cetáceos. [... ler mais]

Este aspecto da vida dos botos é descrito em detalhe num estudo de Tony Martin e Vera da Silva na revista Marine Mammal Science (ref1). Numa tradução livre do resumo:
Obtiveram-se medições e descrições quantitativas de uma grande amostra de botos (Inia geoffrensis) adultos vivos da Reserva de Mamirauá no Amazonas central. Os machos eram em média 16% maiores e pesavam 55% mais que as fêmeas, mostrando que esta espécie é uma das mais sexualmente dimórficas em tamanho de todos os cetáceos.

Esta diferença de tamanho não existe noutros golfinhos de rio, e entre os cetáceos verifica-se apenas nuns poucos como o cachalote (Physeter catodon), a beluga (Delphinapterus leucas) o narval (Monodon monoceros) e alguns delfinídeos como a orca (Orcinus orca). O resumo aborda em seguida a questão da cor e das cicatrizes:
Os machos eram também mais rosados que as fêmeas, e mais fortemente cobertos de cicatrizes provocadas por filas de dentes da mesma espécie, e possuiam mais ferimentos com risco de vida.

Segundo referem os autores, no corpo do artigo, a cor rosada ocorre por um processo natural de envelhecimento da pele, em que o tom cinza passa a tons cada vez mais rosados, mas também tem a ver com as cicatrizes, que são rosa claro. Os autores especulam que o grau de coloração rosa pode ser usado como uma espécie de propaganda de maturidade por parte dos machos. Pois é, segundo parece nos botos "macho que é macho" veste cor de rosa.

Mas nos botos "macho que é macho" não se limita a vestir de cor de rosa, está também coberto de cicatrizes e sinais de violência. Eis aqui em baixo uma foto da cabeça de um boto macho adulto. Notem o padrão de pigmentação que mostra evidências de abrasão, como se o animal tivesse sido esfregado com lixa. Notem ainda o grande número de cicatrizes no animal.

As barbatanas caudais de muitos animais mostram também uma história de confrontos. Todas estas estrias são marcas de dentes.

Este tipo de "decoração" é quase universal nos botos, com a excepção de alguns animais muito jovens. A distância entre os dentes nas estrias mostra que não foram feitas por animais de outras espécies existentes na área. Os possíveis candidatos eram um outro golfinho, o tucuxi (Sotalia fluviatilis) e os jacarés (Melanosuchus niger e Caiman crocodilus). Mas não foram animais dessas espécies, estas marcas foram necessariamente infligidas por outros botos.

As marcas que os botos deixam uns nos outros não se limitam a uns quantos arranhões. Nalguns casos os botos mostram mesmo danos estruturais nalgumas partes do seu corpo. Notem bem os pedaços que faltam nesta barbatana caudal.

Os machos apresentam mesmo uma característica que pode ser uma adaptação destinada a esta vida de combate:
Alguns machos maiores tinham áreas de pele modificada que podiam ser simplesmente tecido de cicatrização, mas que poderiam ser também uma característica hereditária usada como escudo ou arma.

Estas zonas encontram-se por exemplo nas barbatanas peitorais:

e na região anterior à barbatana caudal:

No artigo em inglês os autores referem-se a este tipo de lesões como cobblestone skin, que poderíamos traduzir à letra como pele de macadame. Apenas os machos as possuem. As fêmeas, mesmo quando apresentam cicatrizes nestas áreas, nunca mostram algo semelhante. Os autores avançam a hipótese que se trata de uma adaptação: uma espécie de calosidade que funcionará ou como escudo, ou com intuitos ofensivos para atacar oponentes.

As cicatrizes são muito mais comuns entre machos e os danos realmente sérios também. Segundo os autores do artigo tem tudo a ver com a busca do amor:
Tal como nos cachalotes, o dimorfismo sexual e a agressão entre machos parecem estar ligados nos botos, sugerindo uma competição feroz por um recurso -- provavelmente oportunidades de acasalamento. O boto é único entre os golfinhos de rio no facto de os machos serem maiores que as fêmeas. Esta distinção implica uma longa separação evolutiva e diferenças fundamentais de comportamento social.

Todos estes comportamentos são apenas inferidos. É preciso muito mais trabalho de campo para comprovar estas suposições. Na próxima contribuição irei encerrar esta "investida" nos domínios do boto-vermelho do Amazonas com aspectos relativos às vocalizações deste intrigante animal.

Ficha técnica
Imagem no início da contribuição retirada das páginas do Projeto Boto.
Restantes imagens e inspiração para o texto retiradas do artigo abaixo (ref1).

Referências
(ref1) Martin, A.R., da Silva, V.M.F. (2006). SEXUAL DIMORPHISM AND BODY SCARRING IN THE BOTO (AMAZON RIVER DOLPHIN) INIA GEOFFRENSIS. Marine Mammal Science 22(1): 17-24. Laço DOI.

2 comentários:

Bruno H disse...

Cais, falando em mordidas de amor de golfinhos S2, você saberia dizer se é verdade o papo de que, além de nós humanos, os golfinhos também fazem sexo por prazer?

Caio de Gaia disse...

Só por prazer significaria que o animal não retira benefícios reprodutivos, mesmo que indirectos, do acto. Assim de repente, só me ocorre um estudo em que isso foi estabelecido, numa população de macacas, envolvendo ligações fêmea-fêmea, mas não sei de estudos equivalentes em golfinhos.