sábado, novembro 18, 2006

Urubu d'água, o apetite colombiano que está a dizimar o boto

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O peixe da imagem é a piracatinga, Calophysus macropterus, um bicho essencialmente necrófago, que come os cadáveres de animais aquáticos, conhecido por isso pela designação urubu d'água. Com tal designação, e com tais hábitos alimentares, não espanta que não seja muito popular como alimento no Brasil, e até há pouco tempo a sua pesca não tinha grande expressão. É no entanto muito apreciado na Colômbia, onde é fatiado, transformado em filetes e vendido em Bogotá, ou então exportado para os Estados Unidos da América, onde o catfish é razoavelmente popular. Até aqui tudo bem, não há de errado em gostar de um alimento, por muito repugnante que pareça a outras pessoas. Além disso o urubu d'água é bastante comum em muitas partes da bacia do Amazonas, incluindo regiões do Brasil, por exemplo na área coberta pela Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. O apetite dos colombianos por esta criatura tornaram-na um bem relativamente escasso nesse país e a pesca atravessou fronteiras, para o lado brasileiro, essencialmente dedicada à exportação para a Colômbia. O efeito nos botos vermelhos tem sido devastador. Não se trata de problemas de golfinhos presos em redes, ou dos pescadores a tentarem livrar-se de um competidor indesejado. Não, é uma história de desperdício criminoso, revoltante, e mesmo com requintes de malvadez. [... ler mais]

Não sou muito de puxar para o sentimentalismo ou procurar reacções emotivas nas minhas contribuições, mas quando descobri o que se passava nas páginas do Projeto Boto devo confessar que senti uma imensa revolta. O que se segue é em grande parte emprestado das páginas do Projecto Boto, embora esta parte esteja apenas em inglês.

O boto da imagem acima é um macho jovem que tem marcado o nome que os cientistas lhe deram, "Vani". Os investigadores do Projecto Boto aperceberam-se dele pela estranha barbatana dorsal e cicatrizes no corpo. Quando finalmente o capturaram ficaram chocados quando perceberam o que tinha sucedido ao animal. A aparência do animal é consequência de ter sido mutilado com uma faca. Além disso havia uma corda atada firmemente em torno da cauda do animal. Se não tivesse sido retirado o nó, que já estava a cortar a pele do animal, teria levado à queda da cauda, devido à interrupção do fluxo de sangue. Felizmente a corda foi cortada a tempo e o Vani foi visto um ano depois, recuperado das suas feridas. Não se trata apenas de um trabalho de um sádico sem propósito, os investigadores pensam que a corda teria sido colocada para segurar o boto até que fosse preciso para servir de isco. Isco para quê? Bem, os pescadores que trouxeram a pesca do urubu d'água para o Brasil trouxeram também o hábito repugnante de usar golfinhos e jacarés como isco. Esta caça é neste momento generalizada e o número de botos tem caído de forma acentuda. A espécie corre o risco de desaparecer da zona.

Os requintes de crueldade dos pescadores de piracatinga vão no entanto ainda mais longe. Os investigadores do Projeto Boto têm encontrado crias atingidas por arpões, mutiladas e moribundas, algumas com cordas atadas em torno da cauda. Eis abaixo um exemplo de um pequenita que foi encontrada ainda com vida.

Apesar dos esforços para a salvarem, esta cria morreu nos braços dos investigadores enquanto a mantinham à superfície da água e a tentavam levar para o laboratório para tratamento. Uma autópsia mostrou que mesmo que tivessem conseguido chegar um pouco antes teria sido já demasiado tarde. A pequenita tinha sido arpoada uns dias antes, e tinha uma infecção generalizada na região da cauda, com gangrena dos tecidos. A mãe desta pequena fêmea tinha permanecido perto dele até ao fim. Os investigadores estão convencidos que o sofrimento que a cria suportou durante esses dias terá sido infligido por um pescador no intuito de atrair a mãe e poder arpoá-la de perto. Este descrição perturbou-me, sobretudo porque ao procurar material sobre os botos tinham encontrado este filme de uma mãe a pertilhar um peixe com a sua cria.

Após procurar um pouco encontrei números do IBAMA. Entre Maio e Dezembro de 2001 cerca de 140 toneladas de piracatinga passaram pelo porto de Tabatinga em direcção à Colômbia. Este negócio envolvia na altura a matança de cerca de 8,000 jacarés e 150 botos por ano. Quanto aos jacarés não há perigo de extinção, são milhões, e recuperam rapidamente. Para os golfinhos, mesmo esquecendo os aspectos emotivos, este tipo de exploração é insustentável. Os botos vivem de 30 a 40 anos, mas crescem lentamente. As fêmeas só dão à luz a primeira cria por volta dos 6 a 8 anos de vida, e o intervalo entre crias é de 4 a 5 anos. É preciso parar a actividade antes que a espécie se extinga. O problema começou há poucos anos, tem vido a agravar-se, e é possível que por esta altura sejam mortos alguns milhares de animais por ano, incluindo dentro da própria reserva de Mamirauá. A caça ocorre em zonas inundadas, sendo por isso difícil de deter ou fiscalizar e, para além disso, os envolvidos usam a força e ameaças para silenciar eventuais testemunhas. Os investigadores do Projeto Boto estão no entanto optimistas, pois a quase totalidade da população local opõe-se fortemente a esta práctica, pelo que esperam que se consiga eventualmente acabar com ela. Espero bem que sim.

Para a semana voltarei aos botos, mas para falar de artigos científicos e não de aspectos tão macabros. A próxima contribuição será sobre as vocalizações destas fantásticas criaturas.

Nota: na pesquisa que fiz sobre o tema a piracatinga é o Calophysus macropterus, no entanto nas páginas do projecto boto fala-se do Cetopsis coecutiens. Se alguém me pudesse esclarecer de qual das criaturas se trata agradecia muito.

Ficha técnica
Foto do urubu d'água tirada por Mark Smith obtida por intermédio do PlanetCatfish.
Outras fotos e inspiração para o texto provenientes das páginas do Projeto Boto.

3 comentários:

Lucia Malla disse...

Nao sabia desse apetite colombiano. Lastimavel, eh tudo q me vem a tona pensar.

João Carlos disse...

Como eu disse antes, eu tenho alguma experiência com caçadores de couro de jacaré (e de filhotes de Arara), no Pantanal de Mato Grosso...

Vou me eximir de comentar sobre as providências que tomávamos, mas o que caracteriza esse povo que faz essas coisas é uma completa indiferença quanto à própria vida... (que dirá de outras?...)

Anónimo disse...

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