quarta-feira, março 07, 2007

Os chimpanzés da idade da pedra

Este é Toubo Youode Eloi, um marfinense auxiliar do trabalho de campo de uma equipa de investigação que procura vestígios arqueológicos algures no Parque Nacional Taï, nas selvas da Costa do Marfim. Quando as escavações nas quais participou Toubo Eloi atingiram um nível de terreno correspondente a cerca de 4,300 anos atrás, os investigadores da equipa começaram a descobrir ferramentas de pedra de certa forma invulgares. O que estas ferramentas tinham de extraordinário é que eram demasiado grandes para mãos humanas. Embora invulgares como vestígio arqueológico esses utensílios assemelhavam-se de forma clara às ferramentas usadas por alguns habitantes não humanos da região. Esta escavação produziu os primeiros vestígios arqueológicos deixados por chimpanzés, milhares de anos atrás, numa época em que agricultores humanos não se tinham ainda estabelecido nessa região. [... ler mais]

Eis aqui um dos cientistas de expedição, Christophe Boesch, atarefado a escavar um dos achados arqueológicos:

Os resultados desta escavação foram publicados num artigo da autoria de Julio Mercader e colegas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Pesquisa arqueológica na floresta tropical africana revela resultados inesperados na procura das origens da tecnologia hominóide. Os antigos locais de Panin na Costa do Marfim constituem a única evidência de comportamento pré-histórico de antropóides conhecida até à data em qualquer local do mundo. Trabalho arqueológico recente revelou pedras modificadas pelo uso, datadas por meios cronométricos a cerca de 4,300 anos atrás, alojando ainda vestígios vegetais sugestivos de prácticas dietárias de antigos chimpanzés. Os "Chimpanzés da Idade da Pedra" antecedem a chegada de comunidades de agricultores nesta parte da floresta tropical africana e sugerem que a cultura material percussiva possa ter sido herdada de um clado comum a chimpanzés e homens, e não inventada pelos hominíneos, ou que tenha surgido por imitação, ou que tenha resultado por convergência tecnológica independente.

Eis aqui alguns exemplos destas ferramentas, cujo peso pode chegar a cerca de 9 kg, e que mostram modificações com o uso como martelos. Este é um ponto convém sublinhar: estas ferramentas não foram fabricadas, trata-se de pedras escolhidas para essa tarefa, e transportadas de outras locais. Através do uso ganham muitas vezes uma forma característica que as torna facilmente identificáveis.

Não foram encontrados esqueletos associados às ferramentas, mas tudo aponta para que os utilizadores fossem chimpanzés. As ferramentas são demasiado grandes e pesadas para serem usadas confortavelmente por seres humanos. Os martelos de pedra humanos em geral não vão além de meio kg. Além disso, os vestígios das nozes encontradas com as ferramentas são de nozes que os chimpanzés consomem mas os humanos não. Trata-se de uma tarefa ainda executada por populações locais de chimpanzés e que é transmitida de mães para filhos. Demora qualquer coisa como 7 anos a aprender, pois combina o uso de grande força com suficiente destreza para partir a casca sem esmagar a noz no seu interior. A casca das nozes é duríssima, exigindo para alguma delas uma pancada com uma força de compressão superior a uma tonelada.

A descoberta é importante pois alguns autores diziam que o uso de martelos pelos chimpanzés seria recente na região e copiado da observação de comunidades de agricultores humanos. Este trabalho mostra que se trata de uma cultura transmitida ao longo de milhares de anos. Os autores sugerem que o uso de ferramentas percussivas (isto é, martelos) seria parte do reportório habitual do antepassado comum a humanos e chimpanzés. Mesmo que fosse esse o caso é claramente um comportamento cultural, aprendido e não de algo inato. Outras populações de chimpanzés vivendo em locais onde existem nozes semelhantes não usam martelos de pedra. O resultado importante deste estudo é que as populações de chimpanzés são capazes de manter tradições culturais durante longos períodos de tempo. Por outro lado, trata-se de um estudo que pode auxiliar os cientistas na interpretação de outros locais semelhantes.

Quanto ao tema do antepassado comum a homens e chimpanzés, há um trabalho recente com resultados surpreendentes, indicando que teria tal criatura teria existido há muito menos tempo do que se suspeitava. Falarei aqui desse trabalho em breve.

Ficha técnica
Imagens e alguma da inspiração para o texto retirados deste comunicado de imprensa cortesia da Universidade de Calgary.

Referências
(ref1)Julio Mercader, Huw Barton, Jason Gillespie, Jack Harris, Steven Kuhn, Robert Tyler, and Christophe Boesch (2007). 4,300-Year-old chimpanzee sites and the origins of percussive stone technology. PNAS 104: 3043-3048. Laço DOI

1 comentários:

João Carlos disse...

Caio, esta descoberta me torna temeroso. Tinha eu como certo que o principal motivo da esécie humana ter adquirido a postura ereta, polegares preenseis, etc, era justamente o uso de instrumentos.
Mas, se é um facto que os chimpanzés primitivos os usavam também, o que terá feito com que a espécie humana tenha adquirido a postura ereta e os chimpanzés, não?
Um prato cheio para os místicos, não achas?...