terça-feira, março 20, 2007

As gargalhadas ultrassónicas das ratazanas

Muitos mamíferos jovens, e mesmo alguns não tão jovens quanto isso, gostam de brincar, incluindo mesmo criaturas que despertam sentimentos de alguma repugnância a muito boa gente. As ratazanas, mesmo aquelas com um ar tão sério como esta na imagem, também são danadas para a brincadeira. Aliás, gostam tanto disso que, em antecipação, soltam ultrassonoras gargalhadas. Não estou a inventar, trata-se de algo verificado em estudos científicos. O mais estranho nesta história é que a melhor maneira de conseguir que as ratazanas riam é fazer-lhes cócegas. [... ler mais]

Uma revisão do riso nas ratazanas é levada a cabo num artigo de Jaak Panksepp e Jeff Burgdor na revista Physiology & Behavior (ref1). Ora como é que foi descoberto este riso?

Quando avaliávamos os sistemas sensoriais que controlam os combates a brincar em ratazanas juvenis, notámos que a surdez tinha um efeito modesto na redução do comportamento de brincadeira. Isso sugeriu a possibilidade de que um qualquer tipo de comunicação sociovocal pudesse facilitar a apetência para brincar. Esse problema foi abordado por Brian Knutson no nosso laboratório, que foi o primeiro a monitorizar as vocalizações ultrassónicas de ratos jovens envolvidos em brincadeiras. Ele descobriu rapidamente uma grande abundância de gorgeios na banda dos 50-kHz durante este tipo de interação social.

Vocalizações deste tipo era emitidas também durante interações de âmbito sexual, e esporadicamente durante contactos agressivos, mas não com o nível observado durante os combates a brincar.
Depois de termos estudados os gorgeios nos 50 kHz induzidos pela brincadeira, e por recompensas, durante cerca de três anos, ocorreu-nos que essa ocorrência pudesse reflectir algum tipo de resposta semelhante ao riso. Durante a primavera de 1997, o primeiro autor veio ao laboratório e sugeriu ao segundo autor: «Vamos fazer cócegas a umas quantas ratazanas.» Isto foi feito prontamente com algumas ratazanas juvenis que tinham terminado uma experiência de brincadeira. Descobrimos imediatamente que a emissão das vocalizações dos 50-kHz mais que duplicaram os níveis que tinham sido observados durante as actividades de brincadeira que elas próprias tinham iniciado.

Adoro a frase que destaquei a negrito. As ratazanas podem mesmo desatar a rir só de saberem que lhes vão fazer cócegas:
É bem sabido que em crianças humanas se consegue condicionar uma resposta de riso com alguma facilidade. Se se fez cócegas com sucesso a uma criança pequena, consegue provocar-se um ataque de riso com ameaças simples do tipo «Coochi-coochi-coo» ou uma provocação como «foge foge que vou apanhar-te.» Uma resposta condicionada muito semelhante pode ser vista em ratos juvenis, agitando as mão como um estímulo condicionado anterior a cada ataque de cócegas.

As ratazanas aprendem mesmo a reconhecer as mãos brincalhonas: aproximam-se muito mais depressa, e gargalhando muito mais, de uma mão que já lhes fez cócegas, que de uma mão que só lhes fez festas. Os bichos gostam mesmo da coisa, chegando a percorrer labirintos, e a mover alavancas, para que lhes façam cócegas. É óbvio que encaram as cócegas como algo de positivo, uma recompensa.

Esta é uma daquelas coisas que pode ser feita em casa. Os autores referem no artigo que apresentaram um programa televisivo sobre este tema que despertou os instintos investigativos dos espectadores:
Gostaríamos de partilhar uma carta de uma fã na Califórnia que, por causa da sua experiência em fazer cócegas a uma ratazana, decidiu voltar à universidade para prosseguir trabalho em comportamento animal. «Após ver o especial no Discovery, decidi fazer a minha pequena experiência com a ratazana de estimação do meu filho, o Mindinho, um macho jovem. Ao fim de uma semana, o Mindinho estava completamente completamente condicionado a brincar comigo e de vez em quando emitia um guincho agudo que eu conseguia ouvir. Há quatro semanas que eu lhe tenho feito cócegas todos os dias, e agora, assim que entro no quarto, ele começa a morder as barras da gaiola e aos saltos como se fosse um canguru até que eu lhe faça cócegas. Ele nem sequer come, quando o alimento, a menos que eu lhe dê primeiro uma valente sessão de cócegas. Eu não fazia ideia que um rato pudesse brincar dessa maneira com uma pessoa! Ele empurra a minha mão, mordisca, lambe, rola ficando de costas, e expondo a barriguita para que lhe faça cócegas (é o que prefere), e dá patadas de coelho quando brinco com ele. É a coisa mais engraçada que vi até hoje, apesar de a minha família pensar que eu tinha enlouquecido até que lhes mostrei.»

Os leitores que possuam cobaias (que são ratazanas de estimação) poderão tentar algo semelhante em casa. Convém no entanto não abusar: se fizerem demasiadas cócegas as ratazanas emitem vocalizações na banda dos 22 kHz, indicativas de desagrado. Tal como o riso os nossos ouvidos não captam esses sons. Além disso, convém ter cuidado com cheiros, níveis de luz e comportamentos traumáticos para os animais. Eles podem não se mostrar muito receptivos se antes vocês tiverem estado a brincar com o gato da vizinha.

Os autores contrapõem à boa aceitação desta pesquisa junto do grande público um certo cepticismo junto da comunidade científica. Há boas razões para isso. Ao chamar a estas vocalizações riso estamos de certa forma a equipará-las ao riso das crianças humanas muito jovens, contudo, não é claro se estão envolvidos mecanismos neurofisiológicos semelhantes, e se há homologias neuronais entre o riso humano e o riso das ratazanas. Há muito trabalho a fazer nesse campo. Apesar de tudo há parecenças óbvias: trata-se claramente de um sinal de satisfação num contexto social.

Eu já tinha descrito um outro tipo de vocalizações supreendentes das ratazanas: elas cantam canções de amor comparáveis às das aves canoras. Quem quiser ouvir o fabuloso chilrear destes animais só tem que ir até esta contribuição anterior. Mas há muitos outros aspectos interessantes nestas criaturas. Por exemplo, parece que, tal como os humanos, as ratazanas possuem capacidades metacognitivas. O que é isso? Explicarei tudo na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem retirada desta página da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Jaak Panksepp, Jeff Burgdor (2003). Laughing rats and the evolutionary antecedents of human joy? Physiology & Behavior 79, 533-547. Laço DOI.

2 comentários:

Catarina Afonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Catarina Afonso disse...
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