terça-feira, agosto 22, 2006

Os astrónomos são loucos

Eu já referi aqui por diversas vezes que os astrónomos são criaturas estranhas, embora sempre tenha considerado que os astrónomos planetários, pela sua ligação à Geologia e Exobiologia, eram um pouco mais equilibrados. Pelos vistos são ainda mais estranhos que os outros. Agora arranjaram um imbróglio com os os geólogos por causa da definição de planeta. Para perceber o que se passa é preciso considerar a proposta em inglês, já que em português não há problema. Em Geologia, o mecanismo de formação de rochas ígneas intrusivas é designado por plutonismo (no caso das extrusivas é o vulcanismo). Um exemplo de uma rocha plutónica é o granito. Ora o curioso é que uma intrusão plutónica em inglês é designada por pluton, que segundo a proposta da IAU que discuti aqui, é o nome que se quer dar aos planetas da família de Plutão na versão inglesa. A reacção dos geólogos foi de consternação. [...ler mais]

Há um pequeno artigo na Nature News (ref1) sobre esta questão, onde se pode ler uma afirmação fantástica do geólogo Allen Glazner da Universidade do Arizona:

Isto é como se os botânicos tivessem encontrado algo entre as árvores e os arbustos e tivessem inventado a palavra "animal" para a descreverem.

As intrusões plutónicas são essencialmente aquilo de que é feita a crosta continental. Não se trata de nada de raro ou pouco comum, daí que seja surpreendente que indivíduos que falam inglês como primeira língua desconheçam a importância do termo pluton. Aliás a Planetologia e a Geologia são parentes muito próximos e o potencial para confusão é imenso. É um bocadinho diferente de Mercúrio planeta e mercúrio metal que raramente aparecerão num contexto que se preste a confusão. Mas o que me fez rir foi a desculpa dos membros da IAU:
Owen Gingerich, um astrónomo da Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts, e presidente da comissão da IAU que criou a definição, diz que eles estavam cientes do seu uso entre os geólogos, mas que não se tinham apercebida da sua importância para o ramo. Num email para news@nature.com Gingerich escreveu "Como o termo não aparece nos correctores ortográficos do MS Word ou do WordPerfect pensámos que não era assim tão usual".

O MS Word como autoridade científica! Pelos visto é o Bill Gates que decide se um termo é cientificamente relevante ou não.

Adenda: a IAU substituiu, na proposta a votação, pluton por plutonian. Em português também faz um bocado mais sentido, pluton seria traduzido por plutónio. Assim ficamos com plutoniano. Mais adenda: a proposta do plutonian foi recusada.

Fich
a técnica
Fotografia de granito rosa em França (Bretagne Côtes d'Armor) cortesia de Patrick Giraud tirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) Geoff Brumfiel (2006). Plutons, planets and dwarves Geologists and astronomers wrangle over words.Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

E eu que me achava uma besta por usar a WikiPedia como fonte de pesquisa...

Isso nem é mais loucura: é surrealismo!