quinta-feira, agosto 24, 2006

Sobre a inteligência dos papagaios

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Notei a partir de comentários no Chi vó, non pó, aqui e aqui, acerca de uma notícia sobre a falta de inteligência dos golfinhos, para além de uma certa má vontade dos brasileiros em relação aos sul-africanos, que as pessoas têm um certo apego a esses cetáceos, aos quais atribuem capacidades mentais quase humanas. Resolvi por isso, antes de abordar o estudo sobre os golfinhos, fazer uma pequena série de contribuições sobre questões de inteligência animal. Vou começar não com mamíferos como nós, mas com aves, em particular com o simpático passaroco da figura. Os pagaios cinzentos africanos, Psittacus erithacus, possuem capacidades cognitivas que existem apenas nos seres humanos a partir dos dois anos, e nos grandes símios (chimpanzés e gorilas). [... ler mais]

A inteligência é um parâmetro difícil de avaliar mesmo nos humanos, quanto mais nos animais. Há no entanto alguns testes simples das capacidades cognitivas que se podem executar. Um deles tem a ver com a permanência dos objectos escondidos. As crianças humanas compreendem o conceito bastante cedo, por volta dos 12 meses de idade. Muitos animais, incluindo chimpanzés, gorilas, orangotangos, várias espécies de macacos, cães, gatos, golfinhos, papagaios, e gralhas, conseguem algo semelhante: percebem que um objecto escondido continua a existir.

Há, no entanto, um limiar acima no desenvolvimento das capacidades cognitivas em que a maioria desses animais falha. As coisas começam a ficar mais interessantes quando se executam tarefas daquilo que se designa por deslocamento invisível. Nesse tipo de testes, geralmente feitos com crianças de tenra idade, um objecto que uma crianças deseja é colocado dentro de um"dispositivo de deslocamento", em geral um pequeno invólucro opaco, e esse dispositivo de deslocamento é então utilizado para transportar o objecto para uma de várias caixas à vista da criança. O investigador coloca então o objecto dentro da caixa escolhida de forma subreptícia sem a criança se aperceber. Em seguida mostra à criança que o objecto que ela queria já não se encontra dentro do dispositivo de deslocamento. Antes dos 18 meses as crianças parecem não perceber o conceito de deslocamento invisível e insistem em procurar dentro do dispositivo de deslocamento apesar dele se encontrar vazio. A partir dos dois anos as crianças vão directamente para a caixa. Segundo Piaget a tarefa de deslocamento invisível é o teste crítico do conceito de permanência do objecto, que marca a transição da criança para a inteligência representacional.

Poucos animais mostram esta capacidade que surge nas crianças entre os 18 a 24 meses. Nos mamíferos não humanos apenas parece existir nos grandes antropóides africanos como os chimpanzés e gorilas. Curiosamente, um estudo de Irene Pepperberg e M.S. Funk na revista Animal Learning & Behavior (ref1) mostra que deverá existir também em várias espécies psitacídeos, um grupo de aves que inclui os papagaios, araras e periquitos. Num outro artigo, na revista Journal of Comparative Psychology (ref2) Irene Pepperberg e colegas fizeram mesmo um estudo mais aprofundado sobre o desenvolvimento dessa capacidade no papagaio-cinzento durante o seu crescimento (ontogenia). Parece surgir bastante cedo. Numa tradução livre do resumo:
Os autores avaliaram o desempenho ontogenético de um papagaio cinzento (Psittacus erithacus) em tarefas de permanência de objectos concebidas para crianças humanas. Os testes começaram quando a ave tinha 8 semanas, antes da muda e independência alimentar. Devido ao facto de os papagaios cinzentos adultos perceberem o deslocamento invisível, os autores continuaram os testes semanais até o sujeito completar todos as tarefas da Escala de 1 de I. C. Uzgiris e J. Hunt (1975).

Nessa escala o grau 5 corresponde ao deslocamento visível (esconder simples) e o grau 6 ao deslocamento invisível.
Permanência de grau 6 com respeito a essas tarefas surgiu às 22 semanas, após a muda mas antes de começar a alimentar-se sozinho. Embora o papagaio tenha progredido mais rapidamente que outras espécies que foram testadas ontogeneticamente, o sujeito exibiu um patamer de comportamento durante o estudo. Testes adicionais, administrados aos 8 e 12 meses bem como a um papagaio cinzento adulto, mostraram, respectivamente, que estas aves possuem alguma representação de um objecto escondido e que compreendem deslocamentos invisíveis avançados.

Os papagaios cinzentos, apesar de um cérebro relativamente pequeno, parecem estar uns furos acima dos golfinhos e ao nível dos grandes símios. Estes testes terão no entanto que ser repetidos com mais cautela e algum controlo, pois como discutirei aqui proximamente, os cães também pareciam compreender o deslocamento invisível, mas estavam afinal a fazer batota.

Ficha técnica
Imagem do papagaio cinzento no alto da página cortesia de Jason L. Buberal, retirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) Pepperberg IM, Funk MS (1990). Object permanence in four species of psittacine birds: an African grey parrot (Psittacus erithacus), an Illiger mini macaw (Ara maracana), a parakeet (Melopsittacus undulatus), and a cockatiel (Nymphicus hollandicus). Anim Learn Behav 18:97–108
(ref2) Pepperberg IM, Willner MR, Gravitz LB (1997). Development of Piagetian object permanence in a grey parrot (Psittacus erithacus). J Comp Psychol 111:63–75. Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

Salve, Caio!
Sim, notaste uma certa má-vontade (que se estende aos rodesianos e a todos que sempre buscaram "justificativas científicas" para o apartheid).

Mas, o dissete bem: «A inteligência é um parâmetro difícil de avaliar mesmo nos humanos, quanto mais nos animais.»

Isaac Asimov - com sua autoridade de membro da "Mensa" - discutia muito os critérios de avaliação usados.

Mas - veja bem - que os papagaios são dados, nesta capacidade cognitiva específica, como «uns furos acima dos golfinhos e ao nível dos grandes símios».

E o que dizer da chimpanzé Washoe?