sexta-feira, agosto 25, 2006

Os cães fazem batota

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Uma das surpresas das tarefas de deslocamento invisível, que referi aqui a propósito dos papagaios cinzentos, é que os cães apresentavam um desempenho acima do que se esperaria se tudo se devesse ao acaso. Isto poderia indicar duas coisas: (1) os cães possuíam capacidades cognitivas avançadas ou (2) o sucesso devia-se a repetição de uma estratégia que por acaso funcionava e não era devido a qualquer tipo de representação mental. Um caso semelhante tinha sido observado em experiências com macacos japoneses, que parececiam compreender o deslocamento invisível, mas afinal se limitavam a escolher a última caixa tocada pelo condutor da experiência. Na verdade, a maioria dos primatas para os quais se tinha relatado algum sucesso nesta tarefa falhou quando se fizeram testes que tentavam controlar algumas desses mecanismos de escolha simples. A excepção foram os grandes símios. Isso levou Emma Collier-Baker e colegas a testarem os cães tendo em atenção esse aspecto. [... ler mais]

Os resultados foram publicados na revista Journal of Comparative Psychology (ref1), e colocam os cães de fora do clube restrito dos animais que compreendem o deslocamento invisível. Numa tradução livre do resumo:
Os cães domésticos (Canis familiaris) têm desempenhos acima do acaso em tarefas de deslocamento invisível apesar de mostrarem poucos outros sinais de possuirem as habilidades de representação necessárias. Quatro experiências investigaram como os cães encontram um objecto que foi escondido dentro de uma de três caixas opacas. Os cães concluiram a tarefa com sucesso sob uma variedade de condições de controlo, mas apenas se o dispositivo utilizado para deslocar o objecto fosse colocado adjacente à caixa alvo após o deslocamento. Estes resultados sugerem que o comportamento de busca dos cães era guiado por simples regras associativas e não por uma representação mental da trajectória passada do objecto. Em contraste, a experiência 5 mostrou que, na mesma tarefa, crianças de 18 e 24 meses não revelaram diferenças entre as tentativas em que o dispositivo de deslocamento estava adjacente ou não adjacente à caixa-alvo.

Ou seja, os cães não compreendiam verdadeiramente o processo de transporte e transferência, limitavam-se a procurar na vizinhança do local onde sabiam que o brinquedo que queriam (uma bola) tinha estado. O que guiava as suas buscas era a posição do dispositivo de transporte. Colocando o dispositivo mais perto de outra caixa era nessa que procuravam. As crianças não cometiam esse erro. Esta é uma diferença importante, os cães baseiam-se na percepção imediata que têm do mundo para guiar o seu comportamento, enquanto os seres humanos, mesmo as crianças de dois anos, são capazes de representação secundária, uma capacidade que lhes permite considerar múltiplos modelos do mundo. Este resultado dos cachorros levou Emma Collier-Baker a testar os chimpanzés dentro dos mesmos parâmetros de controlo. Falarei desse estudo numa contribuição futura.

Ficha técnica
Imagem dos cachorros cortesia de Bev Sykes, retirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) Collier-Baker, Emma; Davis, Joanne M.; Suddendorf, Thomas (2004). Do Dogs (Canis familiaris) Understand Invisible Displacement? Journal of Comparative Psychology. 118(4), 421-433. Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

Salve, Caio! (ou activastes a "moderação de comentários", ou este sítio está a fazer das suas hoje...)

Mas é certo de que os cães fazem batota! O faro destes animais é a própria batota. Eu tive um Cocker Spaniel que era capaz de encontrar sua bolinha escondida em um cesto de roupas sujas. Para eles, o deslocamento pode ser invisível, mas não é "inodoro", e os cães se fiam muito mais no focinho do que nos olhos.