domingo, agosto 27, 2006

Sem lógica para cachorro

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Uma parte importante dos estudos sobre as capacidades mentais dos animais tem a sua origem em estudos não verbais de Piaget sobre as capacidades das crianças para representarem o mundo que as rodeia. Piaget identificou um certo número de estádios no desenvolvimento das crianças, entre eles um que surge entre os 18 e os 24 meses, a partir do qual elas entendem o conceito de deslocamento invisível. Falei numa contribuição anterior sobre as tarefas de deslocamento invisível e de como os cães faziam batota. Para ilustrar esse estudo procurei fotos de cachorros e encontrei tantas que não resisto a mostrar aqui mais uma e usá-la como desculpa para falar de um estudo ligeiramente diferente. [... ler mais]


Trata-se de um trabalho de 2001 de John S. Watson e colegas publicado na revista Journal of Comparative Psychology (ref1). A motivação para o estudo encontra-se nas primeiras frases do resumo. Numa tradução livre:
Pesquisas anteriores sobre a habilidade de resolver a tarefa piagetiana do deslocamento invisível focaram os pré-requisitos para a capacidade representacional. Este estudo examina o pré-requisito da dedução. Tal como noutras tarefas (por exemplo, conservação e transitividade), é difícil distinguir entre comportamento que reflecte inferência lógica do comportamento que reflecte generalização associativa.

Um dos problemas em interpretar resultados de estudos com animais é exactamente esse. Coisas que para nós enquanto seres humanos resultam de pensamento e reflexão, noutros animais podem resultar de mecanismos de associação simples. Para além do exemplo da "batota" dos cães da contribuição anterior, foquei aqui um outro exemplo, aquando da escola das suricatas. Nesse caso os adultos variavam o comportamento em função da idade das crias, dando às mais jovens animais mortos e às mais velhas animais quase intactos. Mas, como os investigadores verificaram, isso não resultava de um julgamento cognitivo avançado por parte dos adultos. Era uma resposta inata ao tipo de vocalização produzida pelas crias, que variava com a idade.

Para testar diferenças a esse nível entre crianças e cães, John Watson e colegas conceberam um teste engenhoso baseado num dispositivo esquematizado na figura abaixo.

Usando o papel da negação na lógica onde uma inferência negativa sobre uma crença aumenta a certeza noutra (por exemplo, um silogismo disjunctivo), cães desconhecedores da tarefa (Canis familiaris; n=19) e crianças de 4 a 6 anos (Homo sapiens; n=24) executaram uma tarefa em que um objecto desejado desaparecia do interior de um dispositivo de transporte depois de passar por detrás de 3 biombos separados.

Os estudiosos da psicologia e do comportamento têm uma certa apetência pelo jargão e pelo encadear de termos complicados, mas o que está aqui descrito é mais simples do que parece. Um objecto que as crianças ou os cães gostavam era colocado dentro de um dispositivo que era em seguida levado ao longo de um trajecto passando por trás de três biombos. Mostrava-se depois o dispositivo (vazio) às crianças ou cães participantes que seguiam o mesmo trajecto em busca do objecto. A parte da "inferência negativa" refere-se ao facto de que, ao verificar que o objecto não se encontra atrás do primeiro e segundo biombos, nós seriamos levados a assumir imediatamente que ele se encontra atrás do terceiro. Ora se as crianças de 4 a 6 anos mostravam evidência de guiarem os seus passos por uma lógica desse tipo, os cães nem por isso:
Tal como previsto, as crianças (pela lógica da disjunção negada) tendem a aumentar a sua velocidade para verificar o terceiro biombo após não conseguirem encontrar o objecto atrás dos dois primeiros biombos, enquanto os cães (por extinção associativa) tendem a diminuir a sua velocidade para verificar o terceiro biombo após não encontrarem o objecto atrás dos dois primeiros biombos.


Apesar do jargão os resultados são fáceis de perceber, e ilustram-se na figura aqui ao lado, onde os tempos nos trajectos do primeiro ao segundo biombo são comparados aos tempos dos trajectos do segundo ao terceiro biombo. Os cães demoravam em geral mais tempo em cada trajecto do que as crianças. mas o importante é que, depois de verem que o objecto não se encontrava nos dois primeiros biombos, as crianças aceleravam o passo do segundo para o terceiro biombo, enquanto os cães faziam o contrário. Este resultado indica que os cães seguem uma estratégia associativa, enquanto as crianças se baseiam, até certo ponto, numa estratégia de inferência lógica quando buscam objectos que desapareceram recentemente. As crianças conseguem antecipar a presença do objecto no terceiro biombo. Os cães não, o que indica entre outras coisas que de facto não compreendem o deslocamento invisível. Este estudo não "prova" que os cães estejam limitados a estas estratégias associativas simples, mas, quando combinado com outros estudos do mesmo tipo, aponta claramente nesse sentido.

Ficha técnica
Imagem dos cachorros da autoria de Luis Miguel Bugallo Sánchez retirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) John S. Watson, Yorgy Gergely, Vilmos Csanyi, Jozsef Topal, Marta Gacsi, and Zsuzsanna Sarkozi (2001). Distinguishing Logic From Association in the Solution of an Invisible Displacement Task by Children (Homo sapiens) and Dogs (Canis familiaris): Using Negation of Disjunction. Journal of Comparative Psychology, Vol. 115, No. 3, 219-226. Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

A reforçar esse estudo, relato experiência minha, com o Coker Spaniel do qual já falei.

Quando alguém fingia jogar a bolinha em uma direção, empalmava a bolinha e a atirava para outra direção, o cão primeiro vinha tentar achar com o lançador a bola, que julgava escondida. Depois de muito farejar e não encontrar, passava a fuçar o cômodo inteiro, seguindo uma espiral de passo crescente.

Tendo sentido o cheiro da bola em, pelo menos, três pontos diferentes, era capaz de estabelecer o provável trajeto da bola. Aí, seguia esta trajetória, lentamente, sempre buscando pelo faro, até localizar sua posição.

Mas há que dizer uma coisa em favor dos cães (eu tinha que contrariar algo, pois não!...): sua visão é muito ruim, principalmente a noção de distância. Seus processos cognitivos estão muito mais associados ao faro do que à visão.

Por minha experiência própria no trato com cães, eu compararia seu "nível de inteligência" ao de uma criança de menos de dois anos. Ja é capaz de reconhecer algumas palavras e criam uma linguagem bem restrita com meia dúzia de latidos diferentes do tipo: "alerta, perigo!", "quero um humano aqui para me ajudar" e "não gostei".