terça-feira, agosto 29, 2006

A cheirar o caminho de volta

Esta imagem mostra "borrachos", nome vulgar dos jovens (com menos de 4 semanas) de uma criatura cujo nome científico é Columba livia. Neste caso trata-se de recém-nascidos no seu primeiro dia de vida. Creio que toda a gente identificou o ser em questão, o pombo, aquele animal que evoluiu com a missão expressa de emporcalhar as estátuas nos parques das nossas cidades. Embora não tenha grande estima pelos adultos, os pequenos sempre me fascinaram. São tão feios que acabam por ser irresistíveis. Vou hoje falar de um dos aspectos mais notáveis dessas aves, a facilidade que mostram em voltar a casa mesmo quando largados a grandes distâncias. Esta habilidade dos pombos correios nunca foi convenientemente explicada, embora os cientistas tenham avançado com algumas hipóteses. Por exemplo, sabia-se que os pombos são sensíveis aos campos magnéticos, e suspeitava-se que os pombos se guiavam pelo campo magnético terrestre. Ora o facto de se poder fazer algo nem sempre quer dizer que se faça, e pelos vistos os pombos usam um sentido menos misterioso, e mais familiar para nós, para encontrarem o caminho de casa. [... ler mais]

Segundo um artigo de Anna Gagliardo e colegas na revista Journal of Experimental Biology (ref1) os pombos limitam-se a seguir os seus narizes. Numa tradução livre do resumo:

A habilidade dos pombos em encontrarem o caminho de casa a partir de locais não familiares, localizados até centenas de km de distância é bem conhecida, mas os mecanismos por trás desta habilidade permanecem controversos. Um mecanismo proposto é baseado na sugestão de que os pombos estão equipados com receptores magnéticos, que permitem a detecção, quer do campo magnético terrestre, quer de anomalias no campo magnético no terreno sobre o qual os pombos voam. Relatos recentes sugerem que estes receptores magnéticos estão localizados no bico superior, onde são inervados pelo ramo oftálmico do nervo trigémeo. Aliás, mostrou-se que este nervo é o mediador da capacidade do pombo em discriminar entre a presença ou ausência de anomalia no campo magnético numa situação condicionada. No estudo presente, contudo, mostramos que um ramo oftálmico do nervo trigémeo não é necessário nem suficiente para um bom desempenho no regresso a casa a partir de locais não familiares, mas que é necessário um nervo olfactivo intacto.

Este resumo é um bocado lacónico, e para compreender melhor como é que os investigadores chegaram a esta conclusão é preciso "mergulhar" no artigo. O que Anna Gagliardo e colegas fizeram foi agarrar em 72 pombos e dividi-los em três grupos quando tinham 5 a 6 meses de idade. A 24 pombos seccionaram o nervo olfactivo, a outros 24 o ramo oftálmico do nervo trigémio (que transporta a informação dos receptores magnéticos), enquanto aos outros 24 fizeram uma operação mas não seccionaram nenhum dos nervos. Metade dos pombos de cada um dos grupos foi largada, 4 dias após a operação, de dois locais com direcções opostas em relação ao seu local de origem e a 50 km de distância do pombal de origem. A restante metade dos pombos foi largada 8 dias após a operação, e dos mesmos locais.

Os resultados não deixaram dúvidas: apenas 4 dos 24 pombos aos quais foram seccionados os nervos olfactivos conseguiram regressar a casa. Nos pombos aos quais se seccionou o nervo trigémeo, ou se fez a operação de controlo, 23 dos 24 pombos em cada grupo encontraram o caminho de casa. Ou seja, os pombos necessitam do seu nervo olfactivo para conseguirem achar o caminho de casa. Este resultado não quer dizer necessariamente que utilizem pistas olfactivas, mas quando combinado com outros estudos em que se taparam as narinas dos pombos, sugere fortemente que esse é o caso.

Para terminar, eis uma foto de um pombo correio adulto, que, embora tenha o seu quê de belo, não exerce sobre mim o mesmo fascínio que os pequenitos.


Ficha técnica
Imagem dos irrestíveis borrachos retirada da Wikimedia Commons, desta página.
Imagem do pombo correio, cortesia de Andreas Trepte, retirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) Gagliardo, A., Ioalè, P., Savini, M. and Wild, J. M. (2006). Having the nerve to home: trigeminal magnetoreceptor versus olfactory mediation of homing in pigeons. J. Exp. Biol. 209,2888 -2892. Laço DOI.

4 comentários:

João Carlos disse...

Só para não deixar de ser maçante: e os 4 (dos 24) que conseguiram chegar em casa? Foram devidamente analisados para ver se seus sistemas sensoriais arrumaram um "bypass" nos nervos olfativos?

Caio de Gaia disse...

No artigo não vem nada sobre autópsias aos sobreviventes mas descrevem a operação em detalhe. O cirurgião extraiu uns mm do nervo.

Mas que alguns pombos consigam chegar a casa não surpreende. Os pombos usam os outros sentidos, incluindo pistas visuais. Assim um pombo que por acaso vá na direcção certa identifica a casa. A questão é que com o nervo olfactivo seccionado eles adoptam direcções ao acaso e é uma questão de sorte.

João Carlos disse...

Certo! Me ocorreu perguntar, porque os tecidos nervosos - por vezes - apresentam capacidades de (não se trata de regeneração) criar novos "caminhos" para a transmissão de informações.
E - de quebra - não fica especificado a que distância de "casa" os pombos foram soltos. Pelo que foi descrito, alguns conseguiram acertar o caminho, e isto me surpreende, sim, uma vez que não devem ter sido levados aos pontos de soltura pelos ares. Mas o resumo também não relata a "experiência" desses pombos no trajeto de "volta à casa".
Como não percebo coisa alguma de columbofilia, não sei como se faz (sequer se se faz) para adestrar pombos-correio.

Caio de Gaia disse...

Eu indiquei, foram largados a 50 km de distância. Os pombos não tinham treino, estavam apenas habituados a voar em torno do pombal.