
Apesar de viver num ambiente protegido, no Jardim Zoológico de Leipzig na Alemanha, este Suricata suricatta leva muito a sério os seus deveres de vigia. Isso acontece porque na natureza os suricatas, que vivem em regiões áridas no sudoeste africano, passam boa parte do tempo com a cabeça baixa em busca de insectos e pequenos vertebrados, dependem dos avisos destes vigias para correrem para um local abrigado caso um predador seja avistado. Os suricatas são aparentados com os mangustos e vivem em grupos que podem conter algumas dezenas de indivíduos. Estes bandos possuem um macho e fêmea dominantes que são os progenitores de cerca de 80% das crias no grupo. O bando apresenta no entanto um comportamento de tipo altruísta em relação aos membros mais jovens mesmo quando estes não são seus descendentes directos. [... ler mais]
As crias, embora comecem a seguir os outros elementos do grupo com cerca de um mês de vida, a princípio não conseguem alimentar-se sozinhas, e são alimentadas por todos os membros do grupo em resposta a vocalizações de pedido que emitem. Só após cerca de 90 dias de vida os suricatas são proficientes na manipulação das presas e se tornam nutricionalmente independentes. Ora os suricatas não se limitam a alimentar as crias, ensinam-nas também a interagir com as diversas presas. Pelos vistos, no mundo animal, não são apenas as formigas que vão à escola. Os pequenos suricatas, como os que se mostram abaixo, também têm aulas.
Ao analisarem a forma como os suricatas apresentam o alimento às crias Alex Thornton e Katherine McAuliffe, num artigo na Science (ref1), mostram que o processo se enquadra numa forma que se pode interpretar como professor-aluno. Numa tradução livre do resumo:
Apesar dos benefícios óbvios de mecanismos direccionados que facilitem a transferência eficiente de habilidades, existe pouca evidência crítica para o ensino em animais não humanos. Utilizando dados observacionais e experimentais, mostramos que suricatas selvagens (Suricata suricatta) ensinam às crias técnicas de manipulação de presas ao fornecerem-lhes oportunidades de interagirem com presas vivas.
O ambiente árido onde os suricatas vivem é muito exigente, e os tipos de presas consumidos pelos suricatas é algo vasto, incluindo inclusive criaturas perigosas, como escorpiões, que têm dimensões apreciáveis do ponto de vista de um suricata, que mede pouco mais de 30 centímetros, sem contar com a cauda. Em muitas espécies de mamíferos as crias aprendem ao observarem os adultos, em geral a mãe. Este é um tipo de aprendizagem em que não existe propriamente ensino, o adulto executa os seus comportamentos normais. Os pequenos suricatas não aprendem apenas ao observarem o exemplo dos seus congéneres mais crescidos, os adultos apresentam-lhes animais por eles "modificados" com dentadas na cabeça ou abdómen por forma a serem mais facilmente manobráveis ou menos perigosos. Nos escorpiões, por exemplo, costumam retirar o ferrão. Eis em abaixo uma imagem de um suricata, com 70 dias de vida, atarefado a mastigar um escorpião de bom tamanho que lhe foi dado vivo.

Este aspecto é mais importante do que parece: seria mais fácil para os ajudantes levarem a presa morta até às crias. Levar presas vivas ou apenas ligeiramente incapacitadas
acarreta custos para os professores. O ajudante tem que vigiar a cria a que deu o alimento, a cria pode deixar fugir a presa, e nesse caso o professor tem que voltar a apanhá-la e eventualmente modificá-la. Tudo isto significa um maior dispêndio de recursos por parte do ajudante do que se ele se limitasse a alimentar a cria com animais mortos. Mas serem colocadas face a animais vivos leva os pequenos suricatas a aprenderem mais rapidamente e de forma menos dolorosa. Os autores do artigo investigaram isso colocando escorpiões vivos e com ferrão face a crias de vários grupos, entre eles um que tinha sido alimentado com escorpiões mortos durante três dias, outro alimentado com escorpiões vivos mas sem ferrão durante os mesmos três dias. Ora enquanto todos os membros do primeiro grupo foram mordidos pelas pinças ou levaram ferroadas dos escorpiões, no segundo grupo isso aconteceu a apenas uma cria (em seis). Os suricatas são em grande parte imunes ao veneno destas ferroadas, mas a experiência não deixa de ser dolorosa.
Em resposta às vocalizações de pedido das crias, os ajudantes modificam os seus métodos de aprovisionamento de presas à medida que as crias envelhecem, assim acelerando a aprendizagem sem o uso de métodos cognitivos complexos.
Aos animais mais novos os suricatas apresentavam mais vezes presas mortas ou bastante incapacitadas (em especial os escorpiões), introduzindo gradualmente presas vivas e em "melhores condições" quando os animais se tornavam um pouco mais velhos. O ênfase a negrito é meu e foca um aspecto que já tinha sido discutido aquando do trabalho sobre as formigas. Há aqui
troca de informação entre professor e aluno. Os suricatas ajustam os seus "métodos de ensino" em relação ao nível de conhecimento dos estudantes. Contudo a forma como o fazem não exige que os "professores" sejam capazes de uma avaliação consciente das crias. O tipo de vocalizações muda com a idade das crias e é essa pista que os ajudantes seguem. Os autores do artigo verificaram isso utilizando gravações de pedidos das crias. Assim, quando passavam registos sonoros de pedidos de crias velhas num grupo em que as crias eram ainda bastante jovens, os membros do grupo davam-lhes muitas das vezes presas intactas. Mais uma vez os cientistas fizeram com que um pobre suricata bebé que ainda mal sabe manobrar um escaravelho morto ficasse face a um escorpião vivo. De igual forma, ao passarem registos de crias muitas jovens em grupos em que as crias eram quase independentes os suricatas adultos davam-lhes sobretudo animais já mortos. O resumo termina com a frase:
A falta de evidência para o ensino noutras espécies além dos humanos pode reflectir problemas em produzir apoio inequívoco para a ocorrência de ensino, em vez da ausência de ensino.
Este é um problema que surge muitas vezes em ciência. É sempre necessário possuir uma definição rigorosa do que se pretende estudar, e ter parâmetros objectivos que se possam medir. No caso das formigas e dos suricatas, isso sucede: há
custo para os professores que não têm benefício pessoal imediato, os
alunos ganham o conhecimento mais depressa, e há
interacção nos dois sentidos entre alunos e professores que permite tornar o processo mais eficiente. Tudo isto sem processos cognitivos particularmente complexos e sem verdadeira intencionalidade no processo.
Para finalizar mais uma imagem de suricatas, desta vez de um ajudante que cuida de crias de 30 dias, ou seja em idade pré-escolar mas prestes a começarem as aulas .

Estas criaturas parecem adoráveis, quer do ponto de vista do aspecto físico, quer do ponto de vista das características sociais que como seres humanos apreciamos, mas possuem um aspecto bastante mais sinistro, do qual falarei aqui em breve.
Ficha técnicaImagem do suricata vigia no Jardim Zoológico de
Leipzig, da autoria de Olaf Leillinger, retirada de
Wikimedia Commons, desta página.
Imagem das crias de suricata, da autoria de Timo Forchheim, retirada de
Wikimedia Commons,
desta página.
Imagem de suricata a comer o escorpião e das crias com 30 dias cortesia de Andrew Radford/Sophie Lanfear/Alex Thornton/Katherine McAuliffe disponíveis em alta resolução em vários locais na internet, por exemplo a acompanhar este artigo na LiveScience,
nesta página.
Referências(
ref1) Alex Thornton e Katherine McAuliffe (2006).
Teaching in Wild Meerkats. Science Vol. 313. no. 5784, pp. 227 - 229.
Laço DOI.