sábado, julho 22, 2006

Somos como somos por causa das cobras?

A malévola serpente que teria levado um certo primata humano ao conhecimento, é uma imagem familiar às pessoas que cresceram no mundo ocidental de influência judaico-cristã. Uma antropóloga da Universidade Davis da Califórnia pensou em algo semelhante mas para os primatas que teriam surgido muito antes do aparecimento do homem, Trata-se de uma ideia provocadora, mas que se me afigura quase impossível de testar de forma convincente, e foi apresentada por Lynne Isbell, antropóloga da Universidade da Califórnia, Davis, na revista Journal of Human Evolution (ref1). O que esta investigadora propõe é que os antepassados dos primatas desenvolveram o apurado sistema de visão, em particular a forma como veêm tão bem ao perto, para evitar as cobras. [... ler mais]

A autora começa por referir por que razão é necessário reavaliar as explicações anteriores para a acuidade visual dos primatas.

As hipótese correntes que usam os actos de alcançar e agarrar guiados visualmente para explicar a convergência das órbitas, especialização visual, e expansão do cérebro no primatas, são questionáveis agora que a evidência neurológica não revela nenhuma correlação entre convergência das órbitas e a região do cérebro que está associada com o alcançar e agarrar.

Segue-se a parte das cobras.
Uma hipótese alternativa proposta aqui afirma que as cobras foram os agentes responsáveis por essas características que definem os primatas. As cobras têm uma existência evolucionária longa, partilhada com o grupo-base dos mamíferos placentários, e é provável que tenham sido os seus primeiros predadores. Os mamíferos são conservadores em relação às estruturas do cérebro que estão envolvidas na vigilância, medo, aprendizagem, e memória, associados com estímulos assustadores, por exemplo predadores. Algumas destas áreas expandiram-se nos primatas e estão mais fortemente ligadas aos sistemas visuais. Contudo os primatas variam na extensão da sua expansão cerebral.

A autora tenta então ligar as diferenças observadas entre os diversos grupos de primatas às características das cobras com que se defrontam:
Esta variação é coincidente com a variação na co-existência evolucionária com as serpentes venenosas que evoluíram mais recentemente. Os prossímios de Madagáscar nunca coexistiram com cobras venenosas. Os macacos do novo mundo (platirrinos) tiveram uma co-existência com cobras venenosas com interrupções, e os macacos do velho mundo e antropóides (catarrinos) tiveram uma existência continuada com cobras venenosas.

Um pouco adiante:
As aves de rapina que se especializaram em comer cobras possuem olhos maiores e maior binocularidade que as aves de rapina mais generalistas, e fornecem modelos não mamalianos para o papel das cobras como pressão selectiva nos sistemas visuais dos primatas. Estes modelos, juntamente com evidência de paleobiogeografia, neurociência, ecologia, comportamento, e imunologia, sugerem que a corrida evolutiva às armas se iniciou com constritoras, no início da evolução dos mamíferos, e continuou com as serpentes venenosas. Enquanto outros mamíferos responderam desenvolvendo resistência fisiológica aos venenos das serpentes, os antropóides responderam aumentando a sua habilidade de detectar serpentes visualmente antes do bote.

Porquê as cobras? Os primatas têm outros predadores, mas quanto a esses é preferível detectá-los à distância, enquanto estão longe. As cobras são animais que detectados mesmo quando estão perto podem ser evitados. Aliás, muitas cobras esperam pacientemente emboscadas, e só se detectam já bastante perto. A visão de proximidade é aqui importante, e os antepassados dos primatas terão seguido essa via, enquanto outros grupos de mamíferos seguiram outras.

Confesso que não estou convencido. Esta coisa de querer ligar o sistema visual e a expansão do cérebro com apenas uma causa, e ainda por cima uma que, milhões de anos depois, só pode ser testada de forma muito indirecta, é demasiada especulação para o meu gosto.

Ficha técnica
Imagem do társio zangado, cortesia de Serafin Ramos Jr, retirada da Wikimedia Commons, desta página.
Imagem da cobra, cortesia de Tristan Loper, retirada da Wikimedia Commons, desta página.

Referências
(ref1) Lynne A. Isbell (2006). Snakes as agents of evolutionary change in primate brains. Journal of Human Evolution, Volume 51, Issue 1, Pages 1-35. Laço DOI.

2 comentários:

Maria Guimarães disse...

caio, também não me convenci.
diante de especulação, especulo de volta.
se fosse assim, a meu ver os társios não "precisariam" de visão binocular. isso de desenvolvimento do cérebro é daqueles recursos para tentar remendar uma teoria esfarrapada. como os prosímios estão (se não me engano) na base da árvore genealógica dos primatas, a tal visão binocular teria evoluído depois.
e as aves de rapina vêem bem de longe, sobrevoam suas presas - visão de perto não lhes serve muito. e posso estar errada, mas a visão delas não tem nada a ver com comer cobras - é essencial porque elas precisam encontrar presas ao longe, e mergulhar com muita precisão para agarrá-las.

Caio de Gaia disse...

A autora refere que as aves de rapina que caçam cobras são "mais binoculares". Quanto a isso não sei, talvez tenha razão, mas isso pode dever-se ao tipo de caça. Algumas aves, como o secretário, caçam-nas no chão e matam-nas à "patada". O ponto dela é que os lémures não precisaram porque não há cobras venenosas por esses lados. Os társios nas Filipinas enfrentam cobras venenosas e logo precisaram da coisa.