sexta-feira, março 17, 2006

Os mais pequenos dinossauros

Por muito estranho que possa parecer, muitos cientistas consideram que o pequeno beija-flor acima é uma espécie de dinossauro. Este exemplar, da espécie Selasphorus rufus, com uns respeitáveis 10 cm das penas da cauda até à ponta do fino e longo bico, até é uma espécie de gigante na família, pelo menos quando comparado com os examplares de beija-flores da espécie Mellisuga helenae, com apenas 5.5 cm de comprimento (e 1.8 gramas de peso). [... ler mais]

Mas não é o parentesco com alguns dos mais terríveis predadores que pisaram a Terra que torna os beija-flores criaturas tão interessantes. Num artigo recente na Current Biology (ref1), Jonathan Henderson e colegas analisaram a memória dos beija-flores, e obtiveram resultados surpreendentes. Numa tradução livre do resumo do artigo:

Os animais organizam as suas vida em torno de ritmos circadianos e circanuais, mas pouco se conhece da utilização que fazem de intervalos muito menores. Em laboratório, alguns animais conseguem aprender a duração específica (segundos ou minutos) entre períodos de acesso ao alimento. Supôs-se que alguns comedores de néctar, tais como os beija-flores, pudessem também aprender a lidar com intervalos de tempo curtos por forma a evitarem voltar a visitar flores esgotadas até que pudessem ser reabastecidas de néctar. Fornecemos oito flores artificiais, contendo uma solução de sucrose, a beija-flores territoriais Selasphorus rufus vivendo em liberdade. Quatro flores eram reabastecidas 10 minutos após o pássaro as ter esvaziado, e as outras quatro 20 minutos após terem sido esvaziadas. Ao longo do dia os pássaros voltavam a visitar as flores dos 10 minutos bastante mais cedo do que visitavam as flores de 20 minutos, e novas visitas às flores acompanhavam os horários de reabastecimento. Os beija-flores recordavam os locais e os tempos das oito recompensas, actualizando essa informação ao longo do dia.
O ênfase nos locais e tempos é meu, e trata-se de algo verdadeiramente surpreendente, como referem os autores no final do resumo:
Não apenas é esta a primeira vez que este grau de habilidade temporal é observada em animais selvagens, mas estes beija-flores exibem também dois dos aspectos fundamentais da memória de tipo episódica, o onde e o quando, o tipo de memória para acontecimentos específicos muitas vezes considerada exclusiva dos seres humanos.
Impressionante, sobretudo dado o tamanho minúsculo do animal. Pelos vistos "cérebro de passarinho" não é um insulto, bem pelo contrário. A linhagem dos dinossauros pode ter reduzido em muito o seu tamanho mas continua a despertar interesse e fascínio.

Ficha técnica
Imagem do beija-flor cortesia do US Fish and Wildlife Service, obtida nesta página.

Referências
(ref1) Jonathan Henderson, T. Andrew Hurly, Melissa Bateson and Susan D. Healy (2006). Timing in Free-Living Rufous Hummingbirds, Selasphorus rufus. Current Biology, Volume 16, Issue 5, Pages 512-515. Laço DOI.

2 comentários:

KD disse...

esse Selasphorus é encontrado aqui em santa catarina, são pequenos e extremamente mansos.

Caio de Gaia disse...

Os únicos beija-flores que vi assim de perto viviam no Chile. Bichinhos fascinantes.