segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Salmão de aviário? Não, obrigado

Esta é uma fotografia fantástica, tirada por Uwe Kils, e mostra um alevim (larva) do salmão do Atlântico, da espécie Salmo salar. Esta espécie está a sofrer um declínio acentuado na natureza, com o colapso de muitas populações. A causa é muito provavelmente a actividade humana, em particular a aquicultura. É um contrassenso, que tenho dificuldade em perceber, que se promova a criação de peixes alimentados com uma dieta carnívora, numa época em que todas as reservas de peixe estão em colapso. Para cada quilo de salmão produzido nas explorações de aquicultura intensiva são necessários três quilos de outros peixes, peixes esses que são pescados nos oceanos. Mas o efeito nocivo da aquicultura do salmão vai muito para além do fomento da pesca para fazer ração de salmão. Como eu discuti numa contribuição anterior, o piolho de peixe que se escapa das quintas de salmão dizima os juvenis dos salmões selvagens, ou seja, a criação do salmão tem um impacto brutalmente negativo na sobrevivência do salmão na natureza. A verdadeira dimensão de todos os impactos nocivos da aquicultura foi avaliada num estudo recente: em áreas onde há salmões de aviário a taxa de sobrevivência do salmão selvagem cai por mais de 50%. [... ler mais]

O artigo que discute a taxa de sobrevivência dos salmões é da autoria de Jennifer Ford e Ransom Myers e foi publicado na PLoS Biology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

O impacto da aquicultura do salmão nos salmão e truta selvagens é um tema de debate aceso em todos os países onde as quintas de salmão e os salmões selvagens coexistem. Estudos mostraram claramente que salmões escapados das explorações se reproduzem com as populações selvagens, para detrimento das populações selvagens, e que as doenças e parasitas passam dos salmões das explorações para os salmões selvagens. Tem faltado, contudo, uma compreensão da importância desses impactos ao nível da população. Neste estudo, utilizámos dados existentes sobre as populações de salmão para comparar a sobrevivência de salmão e truta que nadam através explorações de aquicultura de salmão, no início do seu ciclo de vida, com a taxa de sobrevivência de populações próximas, que não estão expostas a explorações de aquicultura. Detectámos um declínio significativo na sobrevivência de populações que estão expostas a quintas de salmões, correlacionado com o aumento da produção de salmão de aquicultura em cinco regiões. Combinando as estimativas regionais de forma estatística, encontramos uma redução na sobrevivência ou abundância de populações selvagens de mais de 50% por geração em média, associadas com a aquicultura de salmão. Muitas das populações de salmões que investigámos apresentam uma abundância reduzida de forma dramática, e reduzir as ameaças que enfrentam é necessário para assegurar que sobrevivam. Reduzir os impactos da aquicultura de salmão no salmão selvagem devia ter uma prioridade elevada.

Os salmões são criaturas que na natureza sobem facilmente barreiras nos rios, daí que não seja de estranhar que escapem aos milhões das explorações de aquicultura. Estudo prévios, tal como o dos piolhos de que falei anteriormente, analisavam apenas um dos aspectos em que os aviários de salmão interferiam com as populações selvagens. Este estudo representa um levantamento sistemático e é conclusivo, e preocupante. É que o aumento projectado para a densidade das explorações pode facilmente elevar estes 50% a 73% nos próximos anos. Já agora, convém não confundir a aquicultura intensiva com outras formas de aquicultura que fazem parte da paisagem portuguesa, e que têm uma longa história de exploração sustentada. O que está em causa é esta produção de tipo industrial para benefício de um grupo relativamente pequeno. O salmão de aviário tem um impacto em termos de emprego muito menor que o salmão natural. A aquicultura intensiva de salmão é explorada sobretudo pelas multinacionais, e emprega muito pouca mão de obra. Não vale a pena colocar em risco a sobrevivência das espécies selvagens para satisfazer a ganância das multinacionais.

Eu não aprecio salmão, peixe para mim é a sardinha, o sável, ou a lampreia. Se gostam de salmão, comam-no mas, por favor, apenas aquele que é apanhado na natureza.

Nota: Um dos autores do estudo, o doutor Ransom Myers, morreu em Março do ano passado. Era uma das vozes mais importantes nas questões relativas à conservação dos oceanos.

Ficha técnica
Imagem de alevim de salmão cortesia de Uwe Kils, via Wikimedia Commons

Referências
(ref1) Ford JS, Myers RA (2008). A global assessment of salmon aquaculture impacts on wild salmonids. PLoS Biol 6(2): e33. doi:10.1371/journal.pbio.0060033

domingo, fevereiro 10, 2008

A beleza dos cnidários do Brasil

As alforrecas, também conhecidas por águas-vivas e mães-d'água, referem-se sobretudo a um grupo de animais designado por cifozoários. Há outros animais muito semelhantes mas mais raros, os cubozoários, aquelas cubomedusas com 24 olhos de que falei numa contribuição anterior, e que levam uma vida mais activa, semelhante em muitos aspectos à dos peixes. No mundo existem cerca de 200 espécies de cifozoários, e no Brasil, com 22 espécies, encontra-se cerca de 10% dessa diversidade. Dos cubozoários, o número de espécies descritas ronda as 20, das quais 4, ou seja 20% da diversidade, se pode encontrar no Brasil. Enquanto procurava algo em português que me servisse de referência, quanto à tradução dos termos técnicos referentes a estes animais, tive a grata surpresa de encontrar um artigo, não só com um utilíssimo glossário, mas também profusamente ilustrado com belíssimas fotos de cifomedusas e cubomedusas. Não resisti a mostrar aqui uma dessas fotos da autoria de Álvaro Migotto, que mostra uma Tripedalia cystophora. Esta é a mesma espécie de que tinha falado anteriormente. O ropálio onde se encontram os olhos, pequeníssimos, é visível nesta imagem. [... ler mais].

O artigo em questão é da autoria de André Morandini e colegas e saiu na revista Iheringia (ref1). O resumo inclui uma incrível lista de espécies:

As espécies de Cubozoa e Scyphozoa costeiras que ocorrem no Brasil são descritas, com base em espécimes de coleções de museus e exemplares recém-coletados. Chaves de identificação e um glossário também são apresentados. As espécies descritas são: Aurelia sp.; Cassiopea xamachana Bigelow, 1892; Chiropsalmus quadrumanus (Müller, 1859); Chrysaora lactea Eschscholtz, 1829; Drymonema dalmatinum Haeckel, 1880; Linuche unguiculata (Swartz, 1788); Lychnorhiza lucerna Haeckel, 1880; Nausithoe aurea Silveira & Morandini, 1997; Phyllorhiza punctata von Lendenfeld, 1884; Stomolophus meleagris Agassiz, 1862; Tamoya haplonema Müller, 1859 e Tripedalia cystophora Conant, 1897.

Segue-se uma lista das características de cada uma dessas espécies, acompanhada de imagens. Mesmo a fotografia que mostro no início é já um pouco um abuso dos direitos de autor, pelo que me fico por essa. Para verem as restantes, e para terem acesso ao utilíssimo glossário, usem o apontador fornecido com a referência abaixo.

Referências
(ref1) Morandini André C., Ascher Denise, Stampar Sergio N., Ferreira João Fernando V. (2005). Cubozoa and Scyphozoa (Cnidaria: Medusozoa) from Brazilian coastal waters. Iheringia, Sér. Zool. 95(3): 281-294. doi: 10.1590/S0073-47212005000300008.

sábado, fevereiro 09, 2008

As vantagens de casar com a prima

Aparentemente, entre os humanos, parece que uma das formas de aumentar o sucesso reprodutivo é casar com um primo relativamente próximo. Pelo menos é o que acontecia com os islandeses entre 1800 e 1965. Este é o resultado de um trabalho curioso, com um corolário algo estranho: os citadinos, pelo menos antes dos processos de controlo de natalidade modernos, não teriam menos crianças por morarem na cidade, mas sim porque seria menos provável que casassem entre primos. [... ler mais]

O estudo é descrito num artigo de Anna Helgason e colegas na revista Science (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Estudos prévios relataram que casais humanos aparentados tendem a produzir mais crianças que casais não aparentados mas foram incapazes de determinar se esta difereça é biológica ou resulta de variáveis socioeconómicas. Os nossos resultados, obtidos a partir de todos os casais conhecidos na população islandesa nascidos entre e 1800 e 1965, mostram uma significativa associação positiva entre parentesco e fertilidade, com o maior sucesso reprodutivo observado em casais relacionados ao nível de primos de terceiro e quarto grau. Devido à relativa homogeneidade socioeconómica dos islandeses, e à observação de diferenças altamente significativas na fertilidade de casais separados por intervalos muito pequenos de parentesco, concluímos que esta associação tem muito provavelmente uma base biológica.

Entre 1800 e 1824 as islandeses que casavam com um primo de terceiro grau tinham em média quatro crianças e nove netos. Por outro lado, no mesmo período, islandesas cujo marido era apenas primo em oitavo grau ou ainda mais afastado, tinham em média três filhos e sete netos. Entre 1900 e 1924 os resultados eram em tudo semelhantes. Para primos em terceiro grau a média era de três crianças e sete netos, enquanto para oitavo grau ou mais afastado era de duas crianças e cinco netos. Os autores encontraram num entanto um custo ao nível de primos em primeiro ou segundo grau. Convém ser aparentado, mas não demasiado.

Há muitas variáveis que podem jogar neste tipo de associação, tais como alguém que provém de uma família com mais crianças vai ter mais terceiros primos, ou a possibilidade de que mulheres que casam com os primos comecem a ter filhos mais cedo, mas os autores rebatem-nos com exemplos relativos a sextos e sétimos primos, onde se nota uma diferença significativa. A origem é assim provavelmente genética. Isto tem uma implicação curiosa, que os autores notam no final do artigo:
A formação de regiões urbanas densamente habitadas, que oferece uma vasta oferta de potenciais esposos com parentesco afastado, é uma situação nova para os humanos, em termos evolucionários. Notamos que se a relação entre parentesco e fertilidade tem uma base na biologia reprodutiva humana, então segue-se que o tipo de transição demográfica experimentado pela população islandesa pode contribuir directamente para o abrandar do crescimento populacional noutros locais, através do aumento relativo de casais com parentesco distante.

Ou seja, as pessoas têm menos filhos nas cidades porque é menos provável que casem com os primos.

Já sabem, se gostam de crianças e querem ter uma família numerosa, procurem a vossa cara-metade entre os vossos primos, ou primas, de terceiro ou quarto grau.

Ficha técnica
A imagem do bebé que uso no início da contribuição (uma menina) foi cedida pelo fotógrafo (o pai) à Wikipedia.

Referências
(ref1) Helgason A, Pálsson S, Guðbjartsson DF, Kristjánsson Þ, Stefánsson K. 2008. An association between the kinship and fertility of human couples. Science 319:813-816. doi:10.1126/science.1150232

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Um cubo com 24 olhos

Isto que estamos a ver aqui são olhos, nada mais nada menos do que seis. A marca preta horizontal representa um décimo de milímetro, logo são olhos minúsculos. Os quatro pontinhos mais pequenos são pequenas fossas com pigmentos e células fotorreceptoras no centro, mas os dois maiorzinhos possuem retinas e lentes. O dono destes olhos tem mais 3 conjuntos iguais a este. Ora que criatura é esta que possui 24 olhos? Não se trata de um peixe, nem de um cefalópode. Pertencem a um animal que tendemos a considerar muito mais primitivo: estes são os olhos de uma cubomedusa, da espécie Tripedalia cystophora, um animal com apenas 10 milímetros que vive nos mares das Caraíbas. As cubomedusas possuem o sino em forma de cubo, e não arredondado, mas fora isso são gelatinosas, quase transparentes, com tentáculos de células urticantes, como a maioria das alforrecas. Só que em vez de uma vida de predador à deriva, os olhos das cubomedusas permitem-lhes ter uma vida de nadadores activos. O mais espantoso é que o fazem com um sistema nervoso muito rudimentar, sem um verdadeiro cérebro. [... ler mais]

O artigo que descreve estes olhos surpreendentes é de Dan Nilsson e colegas e foi publicado na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os cubozoários, ou cubomedusas, diferem de todos os outros cnidários por possuirem um comportamento activo, semelhante ao dos peixes, e um aparelho sensorial elaborado. Cada um dos quatro lados do animal carrega um pedúnculo sensorial (o ropálio), no qual evoluiu um agregado bizarro de diferentes olhos. Sabe-se há muito tempo que dois dos olhos em cada ropálio se assemelham aos olhos de animais superiores, mas a função e desempenho desses olhos permeneceram desconhecidos. Mostramos aqui que as lentes das cubomedusas contêm um gradiente finamente ajustado do indíce de refracção produzindo uma imagem livre de aberração. Isto demonstra que mesmo animais simples foram capazes de evoluir a óptica visual sofisticada previamente conhecida apenas em alguns dos filos bilatérios complexos.

Ou seja em cada face as cubomedusas possuem dois olhos com lentes tão "sofisticadas" como as dos cefalópodes e dos peixes. O olho inferior, mas não o superior, possui mesmo uma pupila móvel:

Na imagem da esquerda o olho foi exposto a níveis correspondented a luz solar directa durante 10 minutos, na da direita a escuridão total durante 10 minutos. A pupila demora cerca de 1 minuto a ajustar-se.

Contudo, há algo de supreendente nestes olhos: as cubomedusas poderiam produzir imagens com um detalhe semelhante às dos peixes, mas não o fazem.
Contudo, a posição da retina não coincide com a da imagem nítida, levando a campos de recepção muito amplos e complexos nos fotorreceptores individuais.

O plano focal da lente nestes animais fica muito atrás da retina, ou seja, a imagem obtida pelo animal é fortemente desfocada.
Argumentamos que isto pode ser útil em olhos que sirvam uma única tarefa visual. Estas descobertas indicam que o conseguir campos de recepção complexos pode ter sido uma das forças originais por detrás da evolução das lentes animais.

Esta frase pode parecer algo obscura, mas não é tanto assim. O que se passa é que as cubomedusas são um pouco limitadas ao nível do processamento neuronal. Nos vertebrados, coisas como reconhecimento de estruturas, e movimentos de grande escala, são interpetados por redes neuronais, mas as cubomedusas não possuem essa opção. O que as cubomedusas poderão estar a fazer com a desfocagem é remover as altas frequências espaciais no seu campo de visão (isto é as estruturas pequenas). Esta espécie de filtro permitiria às cubomedusas verem as estruturas estacionárias no seu ambiente, e ao mesmo tempo tornar invisíveis o plâncton e pequenas partículas suspensas na água. Os olhos com lente seriam assim úteis para que as cubomedusas possam evitar obstáculos nos ambientes costeiros onde vivem. Em vez de obter a melhor imagem possível, e delegar as várias tarefas de processamento dessa imagem ao cérebro, as cubomedusas delegam diferentes tarefas visuais aos seus quatro tipos diferentes de olhos.

Este pode ter sido um passo importante na evolução dos olhos na generalidade dos animais. A curiosidade neste tipo de visão é que uma grande acuidade visual não é necessariamente um requisito: para algumas tarefas uma imagem esborratada funciona melhor. As cubomedusas mostram que lentes, em tudo adequadas a fornecerem grande detalhe e sensibilidade, poderão não ter evoluído exactamente para proporcionar esse detalhe e sensibilidade.

Claro que os cientistas planearam experiências para testar as capacidades visuais das cubomedusas, observando como evitam os obstáculos. Falarei nisso numa próxima contribuição. Já agora, um aviso. Se virem uma cubomedusa não pensem em procurar-lhe os olhos sem terem muito cuidado. O veneno destas criaturas é doloroso e pode mesmo ser mortal.

Referências
(ref1) Dan-E. Nilsson, Lars Gislén, Melissa M. Coates, Charlotta Skogh and Anders Garm (2005). Advanced optics in a jellyfish eye. Nature 435, 201-205. doi: 10.1038/nature03484.


(obrigado pela correcção Rodrigo.)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Espécies novas é com os insectos

Na imagem podemos ver uma obreira da espécie Lordomyrma azumai, uma pequena formiga, de 3 a 5 milímetros de comprimento, que é relativamente rara no Japão, onde é conhecida como Mizogashira-ari-zoku. O género Lordomyrma incluía, até recentemente, cerca de 20 outras espécies conhecidas, e todas elas se localizavam na Nova Guiné, Austrália, ou ilhas adjacentes. Esta distribuição algo disjunta levantava algumas questões. Ou havia algo de especial na forma como as Lordodmyrma japonesas aí chegaram, ou então havia espécies de Lordodmyrma por descobrir algures no sudoeste asiático. Aliás, descobrir não é a palavra exacta, é mais descrever, existiam relatos de espécies na Península e no arquipélago da Malásia. Ora duas espécies foram recentemente descritas, uma num dos locais habituais, na Melanésia, mas a outra num dos locais antecipados, no Bornéu. [... ler mais]

As duas novas espécies de formiga são descritas por Andrea Lucky e Eli Sarnat na revista Zootaxa (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descrevem-se duas espécies de Lordomyrma, L. reticulata sp. nov. do Bornéu da Malásia, e L. vanua sp. nov. das Fiji. A ocorrência da primeira no Bornéu expande o alcance deste género, levando-o a incluir o sudoeste asiático, e a descrição de uma nova Lordomyrma nas Fiji indica que a amostragem do género permanece ainda por completar, mesmo em regiões onde se considerava ser bem conhecido. Tomadas em conjunto, estas duas descobertas sugerem que as Lordomyrma ocupam uma distribuição menos disjunta e estão mais amplamente distribuídas do que se suspeitava anteriormente. É necessária uma amostragem mais ampla para revelar quer a diversidade quer a distribuição deste género críptico.

Como é referido no artigo, a descoberta de novas espécies neste género não será muito supreendente. Na maioria, trata-se de formigas pequenas, que vivem na folhagem morta de florestas húmidas, em colónias de tamanho modesto (da ordem das centenas de indivíduos). Além disso não são agressivas, são tímidas e fogem quando perturbadas.

A descoberta de uma nova espécie de insectos não é nada de por aí além, julga-se que haja milhões por classificar. Neste caso, no entanto, o que me atraiu foi a beleza da foto da L. vanua, no Myrmecos Blog.

Ficha técnica
Fotografia da Lordomyrma azumai tirada por Hirotami T. Imai, Masao Kubota, via Japonese Ant Image Database.

Referências
(ref1) Andrea Lucky e Eli M. Sarnat (2008). New species of Lordomyrma (Hymenoptera: Formicidae) from Southeast Asia and Fiji. Zootaxa 1681: 37­46. PDF.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O musaranho-elefante gigante

Esta criatura de focinho comprido é um macroscelídeo das montanhas da Tanzânia, um grupo de animais conhecidos localmente por senguis. São criaturas que se alimentam de insectos, e cujas afinidades filogenéticas permaneceram enigmáticas durante muito tempo. Supôs-se inicialmente que seria parentes próximos dos musaranhos, daí serem conhecidos por musaranhos-elefante. Filogenias modernas colocam-nos, no entanto, num grupo de animais chamados de Afrotheria, que inclui também os elefantes, os hiraxes, os sirénios, e o porco-formigueiro. Até há pouco tempo apenas se conheciam 15 espécies de senguis, cujo peso variava entre 30 e 500 gramas, número que aumentou este mês. O animal da imagem pertence a uma espécie nova, Rhynchocyon udzungwensis, e é um verdadeiro gigante, com um peso por volta dos 700 gramas. Foi pela primeira vez visto em 2005, em imagens tiradas por câmaras-armadilhas, e em Março de 2006 foram capturados os primeiros exemplares. [...ler mais]

O sengui gigante é descrito num artigo de na revista Journal of Zoology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descreve-se uma nova espécie de sengui ou musaranho-elefante. Foi descoberto nas montanhas Udzungwa na Tanzânia em 2005. Os senguis (ordem Macroscelidea, super-coorte Afrotheria) incluem quatros género e 15 espécies de mamífero que são endémicos da África. Esta descoberta é uma contribuição significativa para a sistemática desta pequena ordem. Com base em 49 imagens de uma câmara, 40 avistamentos, e cinco exemplares capturados, o novo sengui é diurno e distingue-se das outras três espécies de Rhynchocyon por possuir uma face pardo-acinzentada, peito e queixo de cor amarelo pálido ou creme, flancos laranja-avermelhados, dorso cor de vinho, e coxas e partes traseiras negras. O peso corporal da nova espécie é de cerca de 700 gramas, que é 25–50% maior que qualquer outro sengui gigante. O novo Rhynchocyon é conhecido apenas de duas populações que cobrem cerca de 300 km² de floresta de montanha. Tem uma densidade estimada em 50-80 indivíduos por km².

O destaque a negrito implica que existirão apenas uns poucos milhares destes animais. O processo que levou ao reconhecimento formal da espécie eliminou uns quantos. Tal como se descreve no interior do artigo:
Os animais capturados foram fotografados, medidos, pesados, eutanizados se vivos, e preparados como peles e crânios de estudo-padrão de museu.

Esperemos que num futuro mais ou menos próximo estas pelas não sejam tudo o que resta destes "gigantes".

Ficha técnica
(ref1) F. Rovero, G. B. Rathbun, A. Perkin, T. Jones, D. O. Ribble, C. Leonard, R. R. Mwakisoma, N. Doggart (2008). A new species of giant sengi or elephant-shrew (genus Rhynchocyon) highlights the exceptional biodiversity of the Udzungwa Mountains of Tanzania. Journal of Zoology 274 (2), 126-133. doi: 10.1111/j.1469-7998.2007.00363.x.

sábado, fevereiro 02, 2008

A indefesa cherovia neozelandesa

Esta imagem mostra uma planta chamada cherovia, de seu nome científico Pastinaca sativa, que antes da introdução da batata cumpria, de certa forma, esse papel em muitas partes da Europa. Hoje em dia ainda é cultivada em Portugal, na Serra da Estrela. A cherovia tem a cor do nabo, o aspecto da cenoura, e um sabor que é uma mistura de ambos. Eu gosto bastante, mas a maioria das pessoas que conheço não a apreciam. As cherovias têm a sua praga, a lagarta da cherovia, de seu nome científico Depressaria pastinacella. As plantas estão, contudo, protegidas por um tipo de compostos chamados furanocumarinas, que são altamente tóxicos para os insectos. As lagartas da cherovia têm uma tolerância limitada a esse veneno, podendo ingerir até 5% do seu peso dessas toxinas, o que reduz sobremaneira os danos que podem causar na planta. As cherovias acompanharam os humanos na sua expansão pelo mundo, e existem formas bravias em vários locais fora da Europa. Na Nova Zelândia, as cherovias, que aí chegaram há mais de um século, tiveram durante muito tempo uma vida fácil, pois a D. pastinacella ficou para trás. As tais furanocumarinas vêm com custos altos de produção, daí que não seja de espantar que as cherovias neozelandesas apresentem defesas químicas menos eficientes, embora seja também possível que essa fosse uma característica das primeiras cherovias que aí chegaram. Até recentemente isso não era um problema. Só que em 2004 as coisas mudaram, a Depressaria pastinacella invadiu as ilhas. As cherovias da Nova Zelândia já não estão a salvo em nenhum local, em toda a parte há insectos vorazes. [... ler mais]

O artigo que trata das deliciosas cherovias e de lagartas é da autoria de Art Zangerl e colegas e foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A interação entre a Depressaria pastinacella (lagarta da cherovia) e a cherovia brava (Pastinaca sativa), na sua Europa natal e no midwest dos Estados Unidos, onde existem há muito tempo como espécies não nativas, caracteriza-se pelo ajuste químico dos fenótipos, mediado de forma ostensiva por respostas selectivas recíprocas.

O termo fenótipo descreve as características físicas que decorrem da expressão dos genes de um indivíduo (o genótipo). A frase destacada a negrito significa apenas que a planta e da lagarta estão envolvidas numa espécie de guerra química, em que a quantidade de veneno produzida pela planta limita os estragos da lagarta.
O aparecimento inical da D. pastinacella na P. sativa na Nova Zelândia em 2004 providenciou uma oportunidade para quantificar o impacto selectivo de um herbívoro que coevoluíu e para calibrar as taxas de resposta fitoquímica na planta hospedeira. Em 2006 as lagartas reduziram em 75% a produção de sementes nas populações da Nova Zelândia, e em 2007 as infestações aumentarem a severidade em todas as populações excepto uma.

O resultado destas infestações dramáticas foi uma alteração nas pressões a que planta está sujeita para se conseguir reproduzir. Embora se tenham passado apenas três a quatro anos, a pressão evolutiva é tremenda: é que entre as partes mais atacadas pela lagarta da cherovia estão as zonas florais. As lagartas comem as flores da planta, e os tais 75% por cento querem dizer simplesmente isso: em três quartos das plantas nem uma flor escapou ao apetite voraz das lagartas. Essas plantas têm uma aptidão reprodutiva igual a zero, não contribuem com genes para as gerações seguintes. É um dos exemplos mais dramáticos de pressão evolutiva observados na natureza. O potencial desta situação para estudos científicos é enorme. Os investigadores vão poder seguir as mudanças na química das plantas à medida que infestação progride. É que todas as outras variáveis, tais como clima, solos, espécies vegetais vizinhas, permanecem mais ou menos constantes. A única mudança é a presença dos insectos como agente de seleção.

A situação não é exactamente nova. As cherovias chegaram à América do Norte no início do século XVII, mas as lagartas demoraram mais dois séculos a chegar. Dois dos autores deste estudo, Berenbaum e Zangerl, tinham estudado a guerra entre cherovias e lagartas nos Estados Unidos, usando exemplares de cherovias com mais de 100 anos guardados em museus, tendo verificado que os índices de furanocumarinas eram muito mais baixos nos exemplares mais antigos. Os autores sugeriram então que a resposta evolutiva das plantas à infestação foi o aumento da produção de furanocumarinas. A Nova Zelândia vai permitir medir a escala temporal em que essa adaptação se desenvolve. É uma oportunidade incrível.

Ficha Técnica
Imagem inicial de cherovias cortesia de Goldlocki via Wikimedia Commons.
Imagem da lagarta dentro da cherovia cortesia de Art Zangerl.

Referências
(ref1) A. R. Zangerl, M. C. Stanley, and M. R. Berenbaum (2008). Selection for chemical trait remixing in an invasive weed after reassociation with a coevolved specialist. Proceeding of the National Academy of Sciences. doi: 0710280105v1-0.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O hipócrita, dissoluto e avarento crocodilo

Isto é chamado um COCODRILO devido à sua cor de açafrão (crocus). Reproduz-se no Rio Nilo: um animal com quatro patas, anfíbio, geralmente com 30 pés de comprimento, armado com dentes e garras horríveis. Tão grande é a dureza da sua pele que nenhum golpe pode magoar um crocodilo, nem mesmo se pesadas pedras forem lançadas sobre o seu dorso. Permanece na água durante noite, em terra durante o dia. Incuba os seus ovos em terra. O macho e a fêmea fazem turnos.

Esta é a descrição do crocodilo no bestiário de que tenho falado nos últimos dias. A figura que a acompanha, é absolutamente deliciosa. As orelhas (ou serão cornos?), e o focinho não são de estranhar, o animal é colocado no grupo das bestas e não no grupo dos répteis. Não nos devemos esquecer da data deste escritos, século XII, e que autor do texto baseia a sua descrição em relatos de outras pessoas. Não é por isso de espantar que a representação não seja lá muito fiel em relação ao aspecto do animal em questão. Na verdade, no que se refere aos crocodilos, as imprecisões vêm de muito atrás. O bestiário refere, por exemplo, que de entre os animais o crocodilo é o único que move a mandíbula superior, mantendo-se a inferior quieta. O próprio Aristótoles incorreu nesse erro. Mas o que mais aprecio é a descrição que o bestiário faz das propriedades dos excrementos do animal. [... ler mais]
O seu excremento providencia um unguento com o qual as prostitutas velhas e cheias de rugas untam as suas faces e as tornam belas, até que o suor dos seus esforços o lava do rosto.

O tradutor do bestiário, Terence White, faz algumas considerações sobre o tema. Aprendi assim que Galeno considerava que o excremento de crocodilo era bom para as sardas, que Aécio recomendava que fosse queimado e o fumo enviado para dentro de buracos de cobra, e que Quiranides defendia que os dentes eram afrodisíacos, desde que fossem retirados do animal vivo.

Como é hábito, o bestiário faz considerações de índole moral, e é muito severo com as pobres criaturas:
As pessoas hipócritas, dissolutas e avarentas possuem a mesma natureza que este bruto...

Mais sobre crocodilos nas próximas contribuições, mas sob uma perspectiva mais moderna.


Ficha técnica
Imagem retirada da referência abaixo.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Ainda mais medos dos elefantes

A imagem mostra um elefante africano, da espécie Loxodonta africana, a alimentar-se dos ramos de uma acácia da espécie Acacia tortilis. Um elefante adulto é uma criatura que come muito, cerca de 110 toneladas de folhagem por ano. Uma parte pequena dessa folhagem vem das incursões, cada vez mais frequentes, que os elefantes fazem aos campos de cultivo dos humanos. Para evitar conflitos onde, apesar do tamanho, a parte mais fraca é o elefante, há que procurar formas não letais para afastar os elefantes dos terrenos agrícolas. É preciso mandar aos animais a mensagem de perigo mas sem que eles estejam de facto em risco de vida. Alguns investigadores pensam que a solução para o problema pode ser encontrada nestas árvores. Os elefantes não se alimentam assim tão à vontade de todas as acácias que encontram no seu caminho. Por vezes evitam as árvores, receosos, pois encontram-se aí criaturas que temem e que evitam. Ora do que é que os elefantes têm tanto medo? Não, não são os ratos de que falei na contribuição anterior, são criaturas muito mais pequenas. Os seres que tanto atemorizam os elefantes são abelhas selvagens africanas, da espécie Apis mellifera africana. Essas abelhas são ferozes, chegando a perseguir os elefantes durante 3 a 5 km. Os pequenos insectos são uma das grandes esperanças para limitar o antagonismo, que existe em África, entre a crescente população humana, e os elefantes. [... ler mais]

Um dos trabalhos que descreve o comportamento dos elefantes face às abelhas é da autoria de Fritz Vollrath e Iain Douglas-Hamilton, e foi publicado na revista Naturwissenschaften (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os números de elefantes têm caído em Afríca e na Ásia nos últimos 30 anos enquanto o número de humanos tem aumentado, em ambos os casos de forma substancial. O atrito entre estas duas espécies atingiu níveis que são altamente preocupantes quer do ponto de vista ecológico, quer político. Devem procurar-se formas e meios para mantê-las afastadas em áreas sensíveis para a sobrevivência de cada espécie. A agressiva abelha africana pode ser um desses métodos. Mostramos aqui que as abelhas africanas impedem os elefantes de danificar a vegetação e as árvores que acolhem as suas colmeias. Argumentamos que as abelhas podem ser utilizadas de forma proveitosa para proteger, dos danos dos elefantes, não apenas as árvores selecionadas, mas também áreas selecionadas.

No auge da estação seca, os autores do artigo suspenderam 30 colmeias vazias, e seis colmeias ocupadas, em árvores da espécie Acacia xanthophloea, num local designado Mpala Ranch, no Planalto de Laikipia, no Quénia. Compararam então o que acontecia às árvores com colmeias em relação a 36 outras árvores da mesma espécie sem colmeias. A época em que os elefantes atacam as árvores é durante a transição da estação seca para a estação chuvosa. Das árvores sem colmeias, apenas 10% escaparam ao apetite voraz dos elefantes durante esse período. Das árvores com colmeias apenas um terço foi tocada pelos elefantes, e nenhuma das árvores com abelhas nas colmeias foi alvo dos elefantes.

Ora os elefantes podem detectar as colmeias através do seu olfacto apurado, mas podem também fazê-lo através do ouvido. Isso pode explicar porque razão as colmeias ocupadas (que emitem um zumbido audível) foram tão eficientes a afastar os elefantes. A importância para um mecanismo de controlo de movimentos é óbvia: uns quantos altifalantes com zumbido podem ser suficientes para manter os elefantes afastados de terrenos de cultivo.

O desempenho de um sistema de afastamento sonoro foi estudado por Lucy King, Iain Douglas-Hamilton, e Fritz Vollrath, tendo os resultados sido publicados na revista Current Biology (ref2). Numa tradução livre do resumo:
A intromissão do desenvolvimento humano em áreas que anteriormente eram de vida selvagem está a comprimir os elefantes africanos em regiões cada vez menores, causando níveis elevados de conflito entre humanos e elefantes. Propôs-se que as abelhas melíferas africanas seriam um possível dissuasor para os elefantes. Fizemos uma experiência passando uma gravação para estudar essa hipótese. Verificámos que uma maioria significativa dos elefantes, numa amostra de 18 famílias bem estudadas e subgrupos de vários tamanhos, reagiram de forma negativa, começando imediatamente a afastar-se ou correr, quando ouviam o zumbido de abelhas perturbadas, enquanto ignoravam o som de controle de ruído branco natural. Se a resposta que se observou era o resultado de condicionamento individual ou aprendizagem de carácter social é algo que ainda não foi estabelecido. O nosso estudo apoia fortemente a hipótese que as abelhas, e talvez mesmo apenas o seu zumbido, podem ser utilizados para manter os elefantes afastados.

Um problema complicado com o que parece ser uma resposta simples: o medo.

Referências
(ref1) Fritz Vollrath e Iain Douglas-Hamilton (2002). African bees to control African elephants. Naturwissenschaften 89:508-­511. DOI 10.1007/s00114-002-0375-2.
(ref2) Lucy E. King, Iain Douglas-Hamilton, and Fritz Vollrath (2007). African elephants run from the sound of disturbed bees. Current Biology, Vol 17, R832-R833.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Os medos dos elefantes


Existe um animal chamado Elefante que não tem nenhum desejo de copular.

É assim que, no mesmo bestiário do século XII, de que falei na contribuição anterior, se inicia a parte relativa aos hábitos dos elefantes. Os bestiários eram mais do que a simples descrição do comportamento dos animais, faziam paralelos entre o comportamento animal e a concepção do mundo que se possuía na época, ligada às Escrituras. Não surpreende assim que se estabeleça um paralelismo, entre os hábitos sexuais dos elefantes, e a história de Adão e Eva no Génesis. Os elefantes, macho e fêmea, quando queriam uma cria, deslocar-se-iam para oriente, para o Paraíso, onde comeriam da árvore Mandrágora, cedendo então aos prazeres da carne, e concebendo de imediato. Estranhamente, na época, julgava-se que os elefantes não tinham joelhos, e que copulavam costas com costas, uma suposição que vinha do tempo dos autores gregos da época clássica. No bestiário ficamos também a saber que, se o Elefante não tem problemas em enfrentar um touro, por outro lado tem medo dos ratos. Pois é, aquela imagem do elefante em pânico ao ver um rato, típica dos desenhos animados, afinal tem mais de 800 anos. Curiosamente, pode existir um fundo de verdade na história. [... ler mais]

O suposto medo dos ratos é tratado num episódio dos Caçadores de Mitos (Mythbusters), que fizeram uma experiência envolvendo um ratinho branco, um esconderijo feito de excremento de elefante, e dois elefantes num cenário natural:



Notem que o Adam e o Jamie fizeram mesmo uma experiência de controlo sem o rato, mostrando que não foram nem os fios, nem o monte de excremento a saltar, que assustaram os elefantes. Foi mesmo o ratinho. Deve notar-se que, embora isto signifique que seja possível que o mito tenha a sua base num comportamento real, os elefantes não têm realmente medo de ratos. Aquilo é sobretudo cautela com uma criatura, possivelmente barulhenta, que surge de repente no meio do caminho. Os elefantes nos zoológicos, e nos circos, convivem de perto com ratos e ratazanas, e não lhes prestam grande atenção.

Ficha técnica
Imagem retirada da referência abaixo.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.

domingo, janeiro 27, 2008

As cobras do leite

Esta cobra é uma Lampropeltis triangulum syspila, um animal que, apesar das cores berrantes, é relativamente inofensivo para os humanos. Possui no entanto uma má reputação junto aos agricultores que enveredam pela pecuária, que é extensiva a outras cobras. Essa má reputação provém de uma crendice, que existia já na idade média. Por estranho que pareça, os manuscriptos mais populares na período medieval, a seguir à Bíblia, eram tratados de biologia animal, os bestiários. Os autores dos bestiários deixavam de fora dos seus livros as criaturas fantásticas dos pagãos: os animais descritos eram supostamente criaturas reais, e os hábitos relatados eram considerados como comportamento de facto das criaturas. Algumas das coisas referidas nos bestiários são claramente fantasiosas, e levam-nos muitas vezes a esboçar um sorriso. Mas não nos podemos esquecer que os autores deste livros limitavam-se a aceitar o testemunho de pessoas mais autorizadas do que eles: caçadores e camponeses, que lidavam directamente com os animais, ou relatos de viajantes que os teriam visto em primeira mão. Ora o que é que isso tem a ver com a Lampropeltis triangulum? Bem, é que esta cobra é conhecida nos Estados Unidos da América como red-milk-snake, ou seja, a cobra-do-leite vermelha, e a razão para o nome poderia ser decalcada de um bestiário com mais de 800 anos. [... ler mais]

Eis então uma tradução para português, de um excerto de uma tradução do latim para inglês da autoria de Terence Hanbury White, de um bestiário do século XII:

A BOA é uma cobra italiana que persegue manadas de vacas ou grandes grupos de búfalos, e se agarra aos seus úderes plenos com muito leite. Destrói-os ao mamar. Assim, pela devastação do gado (Boves), a Boa retira o seu nome.

A cobra-do-leite dos Estados tem exactamente a mesma reputação. Quando as vacas aparecem com os úderes vazios a culpa é das cobras. O facto das cobras aparecerem nos estábulos das vacas não tem grandes segredos: procuram roedores, não leite. Mas, mesmo que se desse importância ao facto de aparecerem nos estábulos com as vacas sem leite, a associação causal não faz sentido, é que uma cobra destas não possui capacidade para secar uma vaca. Para lá das cobras não possuirem um aparelho bucal adequado a mamar nas tetas duma vaca, trata-se de animais relativamente pequenos. O volume de leite ingerido pela cobra seria sempre diminuto em relação à capacidade da vaca. Mas esse tipo de considerações não detém os agricultores. De acordo com as crendices locais, uma só cobra-de-leite consegue sugar, de uma assentada, leite capaz de saciar quarenta homens.

O mesmo mito existe, ou pelo menos existia quando eu era miúdo, nas aldeias portuguesas. Quando uma cabra aparecia com as tetas vazias, dando muito menos leite do que era costume, a culpa era invariavelmente de alguma cobra. Pelo menos era o que meu avô me dizia, e eu acreditava na história. Claro que nenhuma das cobras nativas portuguesas se presta a este tipo de actividades, mas as histórias do apetite das cobras por leite abundam em Portugal, e possuem mesmo versões mais tenebrosas. Uma outra história, que me lembro da minha infãncia, é a da cobra que entra em casa atraída pelo cheiro do leite humano, e apanhando a mãe adormecida com o filho ao colo, aproveita para mamar em vez da criança. Com requintes de malvadez, o animal chegaria ao ponto de tapar a boca da criança com a cauda à laia de chupeta, para a manter sossegada. Nalgumas versões, as cobras procuram crianças pequenas que tenham acabado de mamar, e entram-lhes pela garganta abaixo para irem buscar o leite, sufocando-as.

Enfim, contos de terror das aldeias, mas que as pessoas juram a pés juntos terem acontecido ao avô do tio do primo de um vizinho. Não adianta tentar argumentar acerca da impossibilidade do fenómeno. A maioria das pessoas reage de forma irracional às cobras, e mesmo os meus parentes mais próximos continuam a julgar-me louco por agarrar nas cobras, que me entram em casa, e por largá-las no campo, em vez de simplesmente lhes esborrachar a cabeça.

Os bestiários eram levados muito a sério pelas pessoas da época, e o facto de muitas das histórias persistirem são reveladoras. Na próxima contribuição descreverei mais algumas curiosidades destes bestiários. Sabiam, por exemplo, que para assustar um leão basta mostrar-lhe um galo, em especial se for branco?

Ficha técnica
Imagem de Lampropeltis triangulum syspila cortesia de Mike Pingleton via Wikimedia Commons.

Referências
The book of beasts. Editor Terence Hanbury White. New York: Putnam, 1960. Páginas na Universidade de Wisconsin.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Protegido no dia-a-dia graças ao bom cheirinho a cobra

Este chocalho na ponta da cauda pertence a uma Crotalus atrox, uma espécie de cascavel que não desdenharia um suculento esquilo, caso algum passasse por perto. Falei aqui, recentemente, do que poderia ser a descoberta de uma nova estratégia de defesa dos esquilos terrícolas contra as cascaveis. Essa estratégia consistia em mascar pele de cobra, e em seguida lamber o pêlo, imbuindo-o do bom cheirinho a cascavel. Os autores apoiaram essa hipótese no facto dos animais mais vulneráveis (fêmeas e esquilos juvenis) aplicarem o odor com muito maior frequência que os machos adultos. Isso é evidência indirecta e, para conseguir uma resposta mais conclusiva, era preciso observar o efeito sobre as cascaveis. Ora, a mesma equipa de autores do artigo anterior, fez exactamente isso, testou a reacção das cobras. [... ler mais]

O estudo é da autoria de Barbara Clucas, Donald Owings e Matthew Rowe e foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os esquilos terrícolas (Spermophilus spp.) evoluiram uma bateria de defesas contra as cascaveis (Crotalus spp.), que os têm predado ao longo de milhões de anos. Mostrou-se recentemente que as reacções comportamentais características destas esquilos às cascavéis incluem a aplicação do odor da cascavel — os esquilos aplicam o cheiro lambendo vigorosamente o pêlo após mastigarem mudas de pele de cascavel. Apresentamos aqui evidência de que este comportamento é uma defesa antipredador inovadora fundada na exploração de um odor estranho. Testámos três hipótese funcionais para a aplicação do cheiro a cobra — anti-predação, afastamento de congéneres, e defesa contra parasitas externos — ...

Até aqui tudo parece igual ao artigo anterior, mas desta vez o objecto do estudo incluia as cobras e pulgas:
... examinando as reacções das cascaveis ao odor de cascavel, esquilos terrícolas e parasitas externos (pulgas). As cascaveis eram mais atraídas para o odor a esquilo terrícola que ao odor a esquilo misturado com o cheiro a cascavel ou apenas ao odor a cascavel. Contudo, o comportamento dos esquilos terrícolas, e a escolha de hospedeiros pelas pulgas, não foram afectados pelo cheiro a cascavel. Logo, os esquilos terrícolas podem reduzir o risco de predação pelas cascaveis aplicando o odor nos seus corpos, potencialmente como uma forma de camuflagem olfactiva. A exploração oportunista de odores heterospecíficos pode ser um fenómeno alargado; muitas espécies aplicam odores estranhos, mas apenas nuns poucos casos se demonstrou servirem na defesa contra predadores.

Camuflagem olfactiva, o que os animais fazem para evitar serem comidos. Dois artigos tão próximos, parece-me que os autores já sabiam a resposta à especulação que propunham no outro artigo.


Ficha técnica
Imagem de Crotalus atrox cortesia de Gary Stolz para o U.S. Fish and Wildlife Service, a partir da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Barbara Clucas, Donald H. Owings and Matthew P. Rowe. Donning your enemy's cloak: ground squirrels exploit rattlesnake scent to reduce predation. Proceedings of the Royal Society B. DOI 10.1098/rspb.2007.1421.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Plástico não, obrigado

Uma das presenças mais marcantes da sociedade de consumo moderna, pelo menos dos últimos 50 anos, é um produto criado expressamente para derrotar os processos de reciclagem naturais. O plástico, com a sua capacidade de proteger do ar e da água, é uma presença omnipresente na vida do dia-a-dia, e de certa forma pode dizer-se que as sociedades modernas são viciadas no plástico. Na maioria das vezes que compramos algo numa loja, trazemos um produto que contém, ou está contido em, plástico. Uma vez terminado o seu uso como saco, embrulho, ou embalagem, o plástico tem como destino o lixo, que muitas vezes encontra o caminho do mar. A maior parte do lixo enviado para os oceanos é decomposto pelos microorganismos marinhos, num período de tempo relativamente curto, em dióxido de carbono e água, mas nem mesmo a mais voraz das bactérias é capaz de se alimentar de plástico. A maioria dos plásticos em uso não são biodegradáveis, é a luz do Sol que os quebra em bocados cada vez menores, todos eles polímeros plásticos, até que eventualmente se obtêm moléculas de plástico individuais. Mas mesmo essas moléculas são demasiado resistentes para a maioria dos organismos digerirem, e permanecem nos oceanos do planeta durante muito tempo, provavelmente 500 anos ou mais. Esta fotografia de Cynthia Vanderlip, mostrando um albatroz morto, com plástico a jorrar das suas entranhas, é emblemática do problema, que atinge neste momento uma escala gigantesca. A superfície dos oceanos tornou-se num verdadeiro mar de plástico. [... ler mais]

Os números do problema são dados num artigo de Charles Moore e colegas na revista Marine Pollution Bulletin (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Foi aferido o potencial para a ingestão de partículas plásticas pelas criaturas que se alimentam por filtragem em mar aberto através da medição da massa e da abundância relativa de plástico flutuante e zooplâncton nas águas superficiais sob as células de alta pressão atmosférica do Oceano Pacífico Norte. Foram recolhidas amostras em suspensão em 11 locais escolhidos de forma aleatória, usando uma rede de arrasto com malha 333 u. A abundância e massa do plástico em suspensão foi mais elevada que noutro lugar qualquer do Oceano pacífico com 334 271 peças por km² e 5114 g por km², respectivamente. A abundância de plâncton era aproximadamente cinco vezes mais elevada que a do plástico, mas a massa do plástico era aproximadamente seis vezes superior à do plâncton.

Estes resultados foram obtidos numa região conhecida como o Giro do Pacífico Norte. Os giros são gigantescas extensões de oceano onde as correntes formam espirais, um pouco como um ralo onde a água roda lentamente, e onde materiais que lá vão parar podem permanecer durante muito tempo. Os giros subtropicais, como o que foi estudado neste trabalho, correspondem a cerca de 40% da superfície dos oceanos, ou seja mais de um quarto da superfície do planeta é neste momento dominada pelo plástico.

Estes giros subtropicais são regiões de calmaria e as águas são relativamente pobres em nutrientes, logo têm pouco peixe. Alguns dos animais que dominam esta espécie de desertos oceânicos são as salpas, os vorazes aspiradores de plâncton de que falei aqui. Mas as salpas são criaturas gelatinosas, que não têm importância económica para os seres humanos. Não admira por isso que a dimensão do problema do plástico fosse ignorada durante muito tempo. Tudo mudou há cerca de 10 anos atrás, quando Charles Moore e a equipagem do Alguita, um navio de pesquisa, resolveram passar por um desses locais, depois de uma meritória participação numa regata, em que ficaram em terceiro lugar. O que viram deixou-os estupefactos. Num local que supunham imaculado, em qualquer direcção que olhassem, viam fragmentos de plástico. Durante a semana que levaram a atravessar o giro não encontraram um único local que pudessem considerar limpo.

O problema entretanto agravou-se. Uma nova viagem de Charles Moore, em 2007, estimou um aumento, por um factor de 5, na quantidade de plástico no Giro Subtropical do Pacífico Norte, em relação ao que tinha sido encontrado dez anos antes. Isto é particularmente grave, pois estudos recentes mostram que os plásticos funcionam como esponjas das toxinas que se encontram na água, podendo atingir concentrações de químicos tóxicos um milhão de vezes acima das que se encontram na água circundante. Ora um mecanismo de concentração de toxinas deste tipo, num ambiente dominado pelos aspiradores mais eficientes da natureza (as salpas), acarreta riscos enormes e que precisam de ser estudados.

Estou a falar deste tema porque, a 20 de Janeiro de 2008, o Alguita partiu numa nova missão, e tem um blogue. Eis uma foto do barco, retirada das páginas do blogue:

É relativamente pequeno, uma verdadeira casquinha de noz. Trata-se de um projecto de divulgação interessante, existe mesmo uma outra versão do blogue, vocacionada para que professores de liceu possam envolver as suas turmas na viagem do Alguita.

Referências
(ref1) C. J. Moore, S. L. Moore, M. K. Leecaster and S. B. Weisberg (2001). A Comparison of Plastic and Plankton in the North Pacific Central Gyre. Marine Pollution Bulletin, Volume 42, Issue 12, Pages 1297-1300.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Não, não sou o único...

... a não gostar de palhaços. Quando era miúdo e via aqueles adultos vestidos de forma esquisita, e com a cara pintada de forma sinistra, sentia-me sempre pouco à vontade. Não se tratava de uma fobia, nunca me senti assustado. As vozes esquisitas e as supostas piadas davam-me vontade de esconder, mas não de medo. Simplesmente não lhes achava piada, e apossava-se de mim aquela sensação de vergonha, que por vezes sentimos quando alguém faz figura de parvo à nossa frente. Mas sempre pensei que existiria algo de estranho comigo, afinal toda a gente sabe que "as crianças adoram palhaços". Ou será que não? [... ler mais]

Uma revista dedicada a cuidados de enfermagem, a Nursing Standard Magazine, publicou resultados de um estudo efectuado no hospital de Sheffield. Ao planear a decoração da ala das crianças, um conjunto de investigadores resolveu fazer o óbvio: perguntar às crianças antes de preencher o espaço com imagens de palhaços. A resposta dos 250 petizes entrevistados, dos 4 aos 16 anos, não deixa espaço para dúvidas. Eis uma das frases dos autores do estudo, extraída deste comunicado de imprensa:

Descobrimos que os palhaços são universalmente detestados pelas crianças. Algumas consideram-nos assustadores e inescrutáveis.

A extensão do fenómeno não deixou de me surpreender: nem uma das 250 crianças afirmou gostar de palhaços.

Ficha técnica
Imagem do filme Killer Klowns from Outer Space obtida a partir de www.badmovies.org/movies/killerklowns/.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O perfume dos esquilos cheira a cobra

Nas últimas contribuições falei de estratégias de alguns animais para atrairem as presas e asssim conseguirem uma refeição fácil. Existe no entanto o reverso da medalha, estratégias adoptadas pelos animais para evitarem ser comida de outros. O esquilo da imagem, da espécie Spermophilus variegatus, está muito provavelmente a fazer exactamente isso. Este esquilo está a mastigar nada mais nada menos que a pele de um dos seus predadores habituais. Aquela coisa nas patas e boca do esquilo é um bocado de pele de cascavel. Ora aqueles dentes atarefados a cortar e mastigar não procuram alimento, mas sim perfume: depois de uma boa mastigadela o esquilo lambe o seu pêlo, untando o corpo com um saudável cheirinho a cobra. [... ler mais]

Barbara Clucas e colegas resolveram investigar quais as razões deste comportamento, tendo publicado os resultados na revista Animal Behaviour (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Por vezes encontram-se substâncias químicas, produzidas por uma espécie, no corpo de outra espécie. Muitas vezes os animais ingerem tais substâncias estranhas e armazenam-nas no seu integumento, mas relatamos aqui um caso de aplicação directa de substâncias heterospecíficas no corpo. Os esquilos terrícolas da Califórnia, Spermophilus beecheyi, e os esquilos das rochas, Spermophilus variegatus, aplicam directamente odores obtidos do seu mais importante predador, as cascaveis, Crotalus spp., mastigando as peles das mudas das cascaveis e lambendo o seu pêlo. Verificámos que a sequência de áreas lambidas durante a aplicação era essencialmente a mesma para as duas espécies.

Eis aqui uma imagem de um animal da outra espécie de esquilos estudada pelos autores do artigo a mastigar uma pele de cobra:

e logo a seguir a espalhar o odor pelo seu corpo:

Qual é então a explicação mais provável para o comportamento?
Consideramos três hipóteses respeitantes à função desta "aplicação de cheiro de cobra": defesa antipredador, defesa contra parasitas externos, e afastar congéneres. Para testar estas hipóteses avaliámos padrões nas diferenças na quantidade aplicada entre classes de sexo e idade e comparámo-los com padrões reflectindo diferenças na importância da predação, carga de pulgas e agressão por congéneres, como fontes de selecção.

O evitar dos predadores pode não parecer óbvio, mas as cobras poderão optar por não percorrer terrenos de caça onde já teria andado uma outra cobra. Na verdade parece ser essa a explicação:
Não encontrámos diferenças entre espécies na quantidade aplicada; contudo os juvenis e as fêmeas adultas de ambas as espécies empenhavam-se em períodos de aplicação mais longos do que os machos adultos. Este padrão de diferenças, nas classes de sexo e idade na aplicação do odor a cobra, apoia apenas a hipótese anti-predadores, pois os juvenis são mais vulneráveis à predação, e as fêmeas adultas protegem activamente os seus jovens. Não encontrámos evidência para apoiar as hipóteses, quer da defesa contra os parasitas, quer do afastar dos congéneres. Logo, o comportamento da aplicação do odor a cobra pode ser uma nova forma de defesa química contra predadores.

Deve notar-se que os autores são algo cautelosos. Primeiro é preciso testar se existe de facto o efeito sobre os predadores. Além disso existem contextos sociais onde isto não foi testado: pode tratar-se de uma forma das mães afastarem das suas tocas fêmeas da mesma espécie com impulsos infanticidas (sim, as mães esquilos matam os pequenos umas das outras). Para já defesa contra cobras parece a explicação mais provável, e como comportamento é fascinante.

Referências
(ref1) Barbara Clucas, Matthew P. Rowe, Donald H. Owings, and Patricia C. Arrowood (2008). Snake scent application in ground squirrels, Spermophilus spp.: a novel form of antipredator behaviour. Animal Behaviour, Volume 75, Issue 1, Pages 299-307. doi:10.1016/j.anbehav.2007.05.024