sábado, fevereiro 02, 2008

A indefesa cherovia neozelandesa

Esta imagem mostra uma planta chamada cherovia, de seu nome científico Pastinaca sativa, que antes da introdução da batata cumpria, de certa forma, esse papel em muitas partes da Europa. Hoje em dia ainda é cultivada em Portugal, na Serra da Estrela. A cherovia tem a cor do nabo, o aspecto da cenoura, e um sabor que é uma mistura de ambos. Eu gosto bastante, mas a maioria das pessoas que conheço não a apreciam. As cherovias têm a sua praga, a lagarta da cherovia, de seu nome científico Depressaria pastinacella. As plantas estão, contudo, protegidas por um tipo de compostos chamados furanocumarinas, que são altamente tóxicos para os insectos. As lagartas da cherovia têm uma tolerância limitada a esse veneno, podendo ingerir até 5% do seu peso dessas toxinas, o que reduz sobremaneira os danos que podem causar na planta. As cherovias acompanharam os humanos na sua expansão pelo mundo, e existem formas bravias em vários locais fora da Europa. Na Nova Zelândia, as cherovias, que aí chegaram há mais de um século, tiveram durante muito tempo uma vida fácil, pois a D. pastinacella ficou para trás. As tais furanocumarinas vêm com custos altos de produção, daí que não seja de espantar que as cherovias neozelandesas apresentem defesas químicas menos eficientes, embora seja também possível que essa fosse uma característica das primeiras cherovias que aí chegaram. Até recentemente isso não era um problema. Só que em 2004 as coisas mudaram, a Depressaria pastinacella invadiu as ilhas. As cherovias da Nova Zelândia já não estão a salvo em nenhum local, em toda a parte há insectos vorazes. [... ler mais]

O artigo que trata das deliciosas cherovias e de lagartas é da autoria de Art Zangerl e colegas e foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A interação entre a Depressaria pastinacella (lagarta da cherovia) e a cherovia brava (Pastinaca sativa), na sua Europa natal e no midwest dos Estados Unidos, onde existem há muito tempo como espécies não nativas, caracteriza-se pelo ajuste químico dos fenótipos, mediado de forma ostensiva por respostas selectivas recíprocas.

O termo fenótipo descreve as características físicas que decorrem da expressão dos genes de um indivíduo (o genótipo). A frase destacada a negrito significa apenas que a planta e da lagarta estão envolvidas numa espécie de guerra química, em que a quantidade de veneno produzida pela planta limita os estragos da lagarta.
O aparecimento inical da D. pastinacella na P. sativa na Nova Zelândia em 2004 providenciou uma oportunidade para quantificar o impacto selectivo de um herbívoro que coevoluíu e para calibrar as taxas de resposta fitoquímica na planta hospedeira. Em 2006 as lagartas reduziram em 75% a produção de sementes nas populações da Nova Zelândia, e em 2007 as infestações aumentarem a severidade em todas as populações excepto uma.

O resultado destas infestações dramáticas foi uma alteração nas pressões a que planta está sujeita para se conseguir reproduzir. Embora se tenham passado apenas três a quatro anos, a pressão evolutiva é tremenda: é que entre as partes mais atacadas pela lagarta da cherovia estão as zonas florais. As lagartas comem as flores da planta, e os tais 75% por cento querem dizer simplesmente isso: em três quartos das plantas nem uma flor escapou ao apetite voraz das lagartas. Essas plantas têm uma aptidão reprodutiva igual a zero, não contribuem com genes para as gerações seguintes. É um dos exemplos mais dramáticos de pressão evolutiva observados na natureza. O potencial desta situação para estudos científicos é enorme. Os investigadores vão poder seguir as mudanças na química das plantas à medida que infestação progride. É que todas as outras variáveis, tais como clima, solos, espécies vegetais vizinhas, permanecem mais ou menos constantes. A única mudança é a presença dos insectos como agente de seleção.

A situação não é exactamente nova. As cherovias chegaram à América do Norte no início do século XVII, mas as lagartas demoraram mais dois séculos a chegar. Dois dos autores deste estudo, Berenbaum e Zangerl, tinham estudado a guerra entre cherovias e lagartas nos Estados Unidos, usando exemplares de cherovias com mais de 100 anos guardados em museus, tendo verificado que os índices de furanocumarinas eram muito mais baixos nos exemplares mais antigos. Os autores sugeriram então que a resposta evolutiva das plantas à infestação foi o aumento da produção de furanocumarinas. A Nova Zelândia vai permitir medir a escala temporal em que essa adaptação se desenvolve. É uma oportunidade incrível.

Ficha Técnica
Imagem inicial de cherovias cortesia de Goldlocki via Wikimedia Commons.
Imagem da lagarta dentro da cherovia cortesia de Art Zangerl.

Referências
(ref1) A. R. Zangerl, M. C. Stanley, and M. R. Berenbaum (2008). Selection for chemical trait remixing in an invasive weed after reassociation with a coevolved specialist. Proceeding of the National Academy of Sciences. doi: 0710280105v1-0.

3 comentários:

rosangela disse...

Eu também gosto! Dá uma sopa fantástica, super saborosa. Aqui na Alemanha ela é vendida como "raiz de salsinha"...

bruxinha disse...

mmmh, também gosto muito!

rosangela: atenção, a cherovia NÃO é raiz de salsinha!! Aqui na Alemanha a cherovia chama-se "Pastinake" e a raiz de salsa é "Wurzelpetersilie" (também chamada Petersilienwurzel ou Knollenpetersilie; latim: Petroselinum crispum ssp. tuberosum) ... o aspecto é muito idêntico, o sabor da cherovia é no entanto mais suave que o da raiz de salsa.

Helena disse...

A Pastinaca (cherovia), vende-se em Coimbra no Quental Biológico.
A cherovia ou pastinaca é uma raiz que tem a forma de uma cenoura e a cor do nabo. O seu sabor é óptimo e único. A cherovia ainda é bastante cultivada e o concelho da Covilhã tem tentado fazer dele um ex-líbris da gastronomia local.
A receita mais usada na região na Cova da Beira
Deve-se cozer em água e sal e cortadas em fatias finas, no sentido longitudinal, temperando-se com sal e sumo de limão. Em seguida, passam-se por um polme, feito com ovo e farinha, fritas em azeite ou óleo e servem-se.
Helena