Esta história no Times Online é no mínimo curiosa. De acordo com um investigador que estudou cerca de 25000 crianças no Reino Unido a inteligência dos miúdos com 11 anos caiu o equivalente a 3 anos nos últimos três decénios. [... ler mais]
Um dos testes aplicado era relativamente simples. A água contida num recipiente estreito e alto, completamente cheio, era despejada num recipiente largo mais baixo, em frente à criança. Em seguida o recipiente estreito era enchido novamente e perguntava-se à criança se ambos os recipientes continham o mesmo volume água ou não. Outro teste consistia em perguntar às crianças qual de duas esferas com o mesmo volume, uma de latão, outra de plasticina, deslocaria o maior volume de líquido se colocada num recipiente com água. Este tipo de testes são uma medida directa da inteligência, que, ao contrário dos programas escolares, que mudam todos os anos, pode ser comparada ao longo do tempo. Os testes tinham tinha sido feitos a crianças em 1976, e um terço dos rapazes e um quarto das meninas tiveram pontuações elevadas. Em 2004 apenas 6% dos rapazes e 5% das meninas tiveram pontuações equivalentes.
Gostaria de ver testes semelhantes feitos às crianças portuguesas, ou pelo menos aos nossos políticos. Não deixa de ser irónico que, depois de todas as "melhorias" introduzidas no sistema educativo, a escola torne os alunos piores do que eram há 30 anos. De qualquer forma o resultado pode não ser tão preocupante como parece, não se sabe o que isto significa em relação a essas crianças como futuros adultos.
Nota (1 Fev 2006): John Hawks também discute este artigo. No artigo os autores do estudo "ilibam" a escola da responsabilidade do descalabro e atribuem-na sobretudo aos novos hábitos das crianças que largaram os brinquedos tradicionais pelos jogos de computador. John Hawks considera que é mais provável que se deva de facto à falta de acompanhamento escolar. Pessoalmente acho que se a troca dos brinquedos for a razão para a queda de inteligência então o papel da escola na formação das crianças é posto ainda mais em questão.
terça-feira, janeiro 31, 2006
Sobre a inteligência dos miúdos britânicos
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domingo, janeiro 29, 2006
O lado sombrio da energia limpa

As turbinas eólicas têm vindo a instalar-se na paisagem portuguesa e perspectiva-se que num futuro próximo o seu número aumente de forma avassaladora. O objectivo das turbinas é louvável: produzir energia limpa, diminuindo a dependência dos combustíveis fósseis, que a maioria da comunidade científica associa ao aquecimento global. [... ler mais]
O aquecimento global pode vir a ter consequências devastadoras nos ecossistemas e um dos objectivos das energias renováveis é proteger a vida selvagem. Ora é esse aspecto que não tem sido devidamente acautelado na instalação das turbinas eólicas, e mais um exemplo desastroso acaba de ser noticiado. Notícias em inglês podem ser encontradas aqui e aqui.
Quatro águias de cauda branca foram encontradas mortas no parque eólico de Smola, situada nalgumas ilhas remotas da Noruega. A causa da morte foram as turbinas, duas águias estavam mesmo cortadas ao meio. O mais preocupante é que mais 30 águias não voltaram aos seu locais de nidificação.
Muitos dos grupos que defendem a instalação das turbinas têm minimizado o possível impacto negativo sobre as aves. Como se pode ver neste exemplo esse não é o caso. A questão é até que ponto o governo português considerou a questão antes de investir dinheiro público nestas coisas. Não faz sentido apresentar algo como amigo do ambiente quando essa coisa pode ter custos elevados na vida animal.
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Etiquetas: Biologia
sábado, janeiro 28, 2006
Um flagelo da antiguidade.
No segundo ano da Guerra do Peloponeso (430 AC) a cidade de Atenas foi atingida por uma praga devastadora que voltou a atacar em 429 AC e 427 AC. Calcula-se que entre 25 a 30% da população da cidade tenha morrido. Entre as vítimas encontrava-se o famoso estadista Péricles. O historiador Tucídides, que contraiu a doença, descreve-a em detalhe. [... ler mais]
Reproduzem-se abaixo os pormenores arrepiantes numa tradução livre da Guerra do Peloponeso de Tucídides, cuja versão inglesa se encontra no projecto Gutemberg. Faço notar que os números do capítulo não correspondem aos que são dados noutras versões.Livro II Capítulo VII
Para além dos sintomas da doença, Tucídides descreve ainda o colapso total da sociedade, num cenário em tudo semelhante ao de outras pragas da história tais como a peste negra. Os sintomas da doença não indentificam um culpado claro e muitos agentes patogénicos foram implicados nesta praga: beste bubónica, febre amarela, malária, ébola, gripe, varíola, tifo, para citar apenas alguns.
Como regra, contudo, não havia causa aparente; mas pessoas saudáveis eram subitamente atacadas por calores na cabeça, vermelhidão e inflamação nos olhos, as partes interiores, tais como a garganta e a língua tornavam-se sangrentas e emitiam um hálito fétido e não natural.
Este sintomas eram seguidos por espirros e rouquidão, após os quais a dor atingia o peito e produzia uma tosse profunda. Quando se fixava no estômago, perturbava-o; e seguia-se descargas da bilís de toda a espécie conhecida pelos médicos, acompanhada por uma grande inquietação.
Na maioria dos casos seguia-se um vómito sem resultados, produzindo espasmos violentos, que nalguns casos cessavam pouco depois, noutros muito mais tarde
Externamente o corpo não era muito quente ao toque, nem pálido na aparência, mas avermelhado, lívido, e coberto por pequenas pústulas e úlceras. Mas internamente queimava de forma que o paciente não suportava roupa ou coberturas mesmo do tipo mais leve; ou de facto estar de outra forma que não completamente nu. O que eles teriam preferido teria sido atirarem-se para água fria; tal como aconteceu com alguns dos doentes negligenciados, que mergulhaream em tanques com água da chuva na sua agonia de sede insaciável; apesar de não não fazer diferença se bebiam muito ou pouco.
Para além disso, o sentimento miserável de não ser capaz de descansar ou dormir nunca cessava de os atormentar. O corpo contudo não se degradava enquanto a enfermidade estava no apogeu, mas aguentava-se maravilhosamente contra as depredações; pelo que quando sucumbiam, tal como na maioria dos caso, no sétimo ou oitavo dia à inflamação interna, ainda tinham alguma força neles. Mas se ultrapassassem este estádio, e a doença descesse mais nas entranhas, induzindo uma ulceração violenta acompanhada por diarreia severa, isto trazia uma fraqueza que era geralmente fatal.
Pois a desordem instalava-se primeiro na cabeça, seguia o seu curso a partir daí através do corpo todo, e mesmo quando não se asseverava mortal, deixava à mesma a sua marca nas extremidades; pois instalava-se nas partes privadas, nos dedos das mãos e pés, e muitos escapavam com a perda destes, alguns também com a dos olhos. Outros ainda eram afectados por uma completa perda de memória aquando da recuperação e não se reconheciam a si mesmos ou aos seus amigos.
Tal como os espectadores das várias séries do CSI que dão na televisão sabem, um cadáver e ADN são muitas vezes suficientes para um descobrir o culpado. Um conjunto de investigadores liderado por Manolis J. Papagrigorakisa acaba de publicar um artigo no International Journal of Infectious Diseases que faz de facto lembrar os especialistas forenses das séries de televisão. Numa adaptação livre do resumo:Até recentemente, na ausência de evidência microbiológica directa, a causa da Praga de Atenas permaneceu um tópico de debate ente os cientistas que se baseavam apenas na narração de Tucídides para estabelecerem os vários diagnósticos possíveis. Uma vala comum, escavada no antigo cimetério de Atenas, o Kerameikos, e datada da época da praga (cerca de 430 AC), providenciou o material ósseo necessário para investigar o ADN microbial.
As valas comuns não eram usuais na Grécia e o estado dos corpos aponta de facto para morte por doença. Mas apesar de tudo os corpos têm cerca de 2500 anos, o tecido muscular decaiu completamente, o esqueleto foi contaminado por toda a espécie de organismos existentes no solo. Onde é que os cientistas poderão extrair o ADN que necessitam, e sobretudo como é que podem confiar naquilo que vão obter?Método: A polpa dos dentes foi o material escolhido, pois sabe-se ser uma fonte ideal de ADN de microorganismos patogénico antigos devido à sua boa vascularização, durabilidade e esterilidade natural.
Os cientistas testaram então o ADN contido na polpa de 3 dentes retirados de alguns esqueletos com o ADN de 6 agentes patogénicos modernos: peste (Yersinia pestis), tifo (Rickettsia prowazekii), antraz (Bacillus anthracis), tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), varíola das vacas (um vírus), doença da arranhadura do gato (Bartonella henselae), e febre tifóide (Salmonella enterica serovar Typhi). Os investigadores apenas detectaram o agente causador da febre tifóide, que se mostra na imagem ao lado. Embora existam ainda algumas arestas por limar (o gene detectado apresentou apenas 93% de semelhanças) não deixa de ser impressionante ter descoberto nos dentes destas infelizes vítimas da praga uma cápsula do tempo que nos permite resolver um mistério do passado.
Referências
(ref1) Christos Yapijakisb, Philippos N. Synodinosa and Effie Baziotopoulou-Valavanic(2006). DNA examination of ancient dental pulp incriminates typhoid fever as a probable cause of the Plague of Athens. Manolis J. Papagrigorakisa, International Journal of Infectious Diseases. Laço DOI
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Etiquetas: Biologia
sexta-feira, janeiro 27, 2006
O crocodilo que imita o dinossauro que imita a avestruz.

Todos aqueles que viram o filme Parque Jurássico se recordarão da cena em que o paleontólogo e as crianças se escondem por trás de um tronco enquanto o Tiranossaurus rex persegue um bando de dinossauros que se assemelham a avestruzes. Os cientistas acabam de descobrir animais semelhantes aos dinossauros avestruzes, só que estes animais viveram cerca de 80 milhões antes, e não são dinossauros mas sim parentes dos crocodilos. [...ler mais]
A criatura chama-se Effigia okeeffeae, e é descrita por Nesbitt e Norell nos Proceedings of the Royal Society B (ref1). Numa tradução livre do resumo do artigo:Os arcossauros existentes englobam as aves (dinossauros) e os crocodilos (suchianos). A diversidade morfológica das aves e dos restantes dinossauros é imensa e bem documentada. Suchia, o grupo de arcossauros que inclui os crocodilos é em geral considerado como mais conservador. Aqui descrevemos um arcossauro suchiano, do fim do Triásico, com características altamente especializadas e pouco usuais, que são convergentes com os dinossauros ornitomimídeos. Algumas características derivadas do crânio e do esqueleto post-craniano são idênticas às condições observadas nos ornitomimídeos. Tais casos de convergência extrema em múltiplas regiões do esqueleto em dois grupos de vertebrados relacionados de forma tão distante são raros. Isto sugere que estes arcossauros mostram padrões iterativos de evolução morfológica. Também sugere que este grupo de suchianos ocupava a zona adaptativa ocupada pelos ornitomimídeos mais tarde no Mesozóico.
As partes a negrito são destaque meu. Os arcossauros englobam as aves e os crocodilos e parentes extintos de ambos (dinossauros por exemplo). Na verdade, em termos evolutivos as aves e crocodilos partilham um antepassado comum que é muito mais recente do que o antepassado comum mais recente que partilham com lagartos por exemplo. Isto pode parecer estranho, pois ainda existe o hábito de separar as aves do répteis mas incluir os crocodilos como répteis. Actualmente a maioria dos autores considera as aves como répteis e que as aves e crocodilos são os parente vivos mais próximos uns dos outros. Por outro lado, as aves são dinossauros, pertencem a um grupo de dinossauros carnívoros que inclui entre outros o Tiranossaurus rex.
O animal que foi descoberto apresenta características na região do tornozelo e calcanhar que o identificam claramente como um parente próximo dos crocodilos e não como um dinossauro. Os crocodilos primitivos, os suchianos, eram na verdade um grupo de animais algo diferente dos crocodilos a que estamos habituados. Alguns deles faziam lembrar um galgo com uma cabeça de crocodilo. A descoberta do Effigia mostra que a variedade de formas que podiam assumir era no entanto muito mais variada do que se pensava até aqui. Na verdade, o esqueleto mostrou que muitos fósseis que se julgava serem dinossauros eram na verdade suchianos. O que torna este esqueleto especial é que é quase completo, em particular nas articulações dos membros inferiores, que permitem distinguir facilmente os suchianos dos dinossauros.
O que é realmente espantoso neste animal são as semelhanças com um grupo de animais que iria surgir 80 milhões de anos depois, sem relações directas de parentesco. Na verdade, se pensarmos bem são as avestruzes que imitam os ornitomimídeos que por sua vez imitam o Effigia. Uma reconstrução da autoria do artista Sean Murtha pode ser encontrada no blog de Carl Zimmer, o Loom.
Referências
(ref1) Extreme convergence in the body plans of an early suchian (Archosauria) and ornithomimid dinosaurs (Theropoda). Sterling J. Nesbitt and Mark A. Norell, 2006. Proc. R. Soc. B, Laço DOI.
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Etiquetas: Paleontologia
quinta-feira, janeiro 26, 2006
O pequeno Paedocypris.

O mais pequeno dos vertebrados foi descoberto no sudoeste asiático. Trata-se de um peixe miniatura: uma fêmea que continha 50 ovos, logo sexualmente madura, media apenas 7.9 mm de comprimento. [... ler mais]
É sempre empolgante descobrir novas espécies de animais, mas não deixa de ser deprimente saber que muitas dessas espécies irão desaparecer em breve. Infelizmente para este pequeno peixe translúcido a destruição do seu habitat pelos seres humanos não augura um futuro risonho.
Referência
Paedocypris, a new genus of Southeast Asian cyprinid fish with a remarkable sexual dimorphism, comprises the world's smallest vertebrate. Maurice Kottelat, Ralf Britz, Tan Heok Hui, Kai-Erik Witte, 2006. Proceedings of the Royal Society B, DOI:10.1098/rspb.2005.3419.
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Etiquetas: Biologia
quarta-feira, janeiro 25, 2006
A culpa não é minha, o parasita obrigou-me!

De volta aos verdadeiros donos deste planeta, os parasitas. A imagem ao lado mostra o Toxoplasma gondii, um dos parasitas mais comuns nos seres humanos, que possivelmente infecta mais de metade da humanidade. [... ler mais]
O toxoplasma tem um ciclo de vida relativamente simples, passando de forma cíclica de ratos para gatos. No entanto, pode infectar um grande número de criaturas de sangue quente, incluindo gado e humanos. Os seres humanos podem contrair o toxoplasma através de contacto com excrementos de gato, água ou solo infectados, mas também através da ingestão de carne mal cozinhada. Tal como muitos outros parasitas o toxoplasma manipula o comportamento dos seus hospedeitos. Nos ratos, por exemplo, fá-los perder o medo natural pelos gatos. Isto faz sentido pois é no melhor interesse do parasita que os ratos infectados sejam consumidos pelos gatos para poderem completar o seu ciclo de vida. De facto, é apenas nas células do intestino delgado dos gatos que o toxoplasma manifesta a sua fase sexuada e produz oocistos expelidos nas fezes, e que por sua vez irão infectar novos ratos.
Fazer com que os ratos adoptem comportamentos de risco não é particularmente digno de nota, o inquietante é o facto de uma grande percentagem de seres humanos alojar o toxoplasma no seu cérebro. Afinal, os seres humanos não são muito diferentes dos ratos e se o parasita manieta os ratos o que fará nos seres humanos? Alguns estudos mostram que os homens infectados com toxoplasma são mais agressivos e desconfiados, enquanto as mulheres pelo contrário são mais sociáveis e promíscuas. Mas as alterações de comportamento podem incluir mesmo doenças do foro psíquico. Recentemente, num artigo publicado nos Procedings of the Royal Society B (ref1), uma equipa de investigação liderada por Joanne Webster encontrou evidência de uma ligação entre o toxoplasma e um risco acrescido de esquizofrenia. Os autores mostram-se no entanto cautelosos, a infecção com Toxoplasma gondii explicara apenas uma parte dos casos de esquizofrenia.
Na verdade a ligação entre a esquizofrenia e o toxoplasma foi mostrada de forma inversa. Quando os investigadores deram a ratos infectados pelo toxoplasma medicamentos utilizados para o tratamento da esquizofrenia verificaram que as drogas reduziram os comportamentos suicidas que levavam os ratos a ignorar os perigos representados pelos gatos. A hipótese avançada pelos investigadores é que as drogas anti-psicóticas inibem de alguma forma a actividade dos parasitas. Na sequência destes resultados os investigadores iniciaram outra linha de pesquisa, que consiste em incluir no tratamento da esquizofrenia medicamentos que combatem o toxoplasma.
A ideia de que parasitas possam estar a manipular o meu cérebro, a levar-me a adoptar certos comportamentos em detrimento de outros é algo em que nunca tinha pensado antes. É realmente algo de assustador e que para já me leva a não querer gatos em casa (embora grande parte das infecções se deva de facto a carne mal cozinhada).
Referências
(ref1) J.P. Webster, P.H.L. Lamberton, C.A. Donnelly, E.F. Torrey (2006). Parasites as causative agents of human affective disorders? The impact of anti-psychotic, mood-stabilizer and anti-parasite medication on Toxoplasma gondii's ability to alter host behaviour. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, Volume 273, Number 1589, 1023 - 1030. Laço DOI.
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domingo, janeiro 01, 2006
Olduvai George e os últimos 65 milhões de anos
A ilustração científica ligada à paleontologia está bem representada na Internet, sobretudo no que se refere aos dinossauros. A explosão dos mamíferos que se seguiu à quase-extinção dos dinossauros (ficaram as aves) era no entanto uma espécie de parente pobre. As coisas mudaram recentemente com o aparecimento de um blogue verdadeiramente extraordinário, o Olduvai George, que, aproximadamente a cada duas semanas, nos brinda com a reconstituição de algum mamífero desaparecido milhões de anos atrás. O entelodonte que aparece no cabeçalho da página só de si merece uma visita, mas a minha favorita é criança com um hienodonte, Karianne's pet. A família Hyaenodontidae era um dos grupos em que se dividia a ordem de mamíferos predadores já extintos chamados creodontes. O animalzinho em Karianne's pet tem um crânio de 65 cm. O blogue é da responsabilidade de Carl Buell, e merece ser visitado regularmente. Na mesma página em que se encontra o "cãozinho" da Karianne pode ver-se um australopiteco a beber cerveja e mais entelodontes. Noutras páginas podem encontrar-se elefantes já extintos com 4 presas, mamutes, preguiças terrícolas, e um parente do tigre dentes de sabre com dentes muito mais afiados, o gato-cimitarra.
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terça-feira, novembro 08, 2005
Isso no teu bolso é uma serpente marinha ou estás feliz por me ver?
Embora não dê grande crédito à maioria dos objectos de estudo da criptozoologia admiro a perseverança de alguns dos entusiastas. A criptozoologia é uma actividade que busca animais cuja existência não foi provada embora apareçam em relatos de um grande número de testemunhas. Estas criaturas são o que, usando uma tradução livre do termo inglês, referirei por críptidos. Os críptidos vão desde animais recentemente desaparecidos, ou que existiram até há pouco tempo no registo fóssil, tais como o tigre da tasmânia, ou o leão marsupial Thylacoleo carnifex, até criaturas mais do domínio do imaginário como o Bigfoot e o Monstro do Loch Ness. [... ler mais]
Um grupo de críptidos que aparece de forma consistente nos relatos de pessoas que afirmam ter visto monstros marinhos são as serpentes marinhas. De vez em quando alguns cientistas aventuram-se a encontrar explicações para este tipo de relatos. Num artigo no Archives of Natural History, alguns investigadores avançam com uma explicação no mínimo surpreendente. Segundo Paxton e colegas (ref 1) aquilo que as pessoas pensam ser uma serpente marinha é na verdade apenas uma certa porção da anatomia do macho da baleia. A imagem ao lado, cortesia de Deep Sea News, é impressionante. Deixo ao vosso critério julgamentos quanto à plausibilidade da coisa.
Adenda (28 Novembro 2006). Dei por acaso com um texto no Ceticismo Aberto sobre este mesmo tema onde aparece uma imagem de baleias durante o processo de corte que parece uma luta entre serpentes e baleias.
Referências
(ref 1) Cetaceans, sex and sea serpents: an analysis of the Egede accounts of a “most dreadful monster” seen off the coast of Greenland in 1734. C. G. M. PAXTON, E. KNATTERUD and S. L. HEDLEY, 2005. Archives of Natural History, vol 32 part 1, 1-9.
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quinta-feira, novembro 03, 2005
O parasita manipulador

A criatura escolhida para hoje, o protozoário Plasmodium falciparum, é responsável por um dos maiores flagelos da humanidade, a malária. Estima-se que a malária seja responsável pela morte prematura de mais seres humanos que todas as outras pragas e todas as guerras combinadas. Actualmente é ainda um flagelo que afecta milhões de pessoas em todo o mundo, particularmente em África, onde se encontram cerca de 80% dos casos da doença. Em zonas onde é endémica, cerca de 50% das crianças em idade escolar estão infectadas. É uma doença de difícil erradicação, e algumas das áreas de onde tinha desaparecido estão de novo expostas. Um dos factores que torna difícil a erradicação da doença é o complexo ciclo de vida do plasmódio. [... ler mais]
A transmissão da doença faz-se pela picada de mosquitos, em particular o Anopheles gambiae, que também é parasitado pelo plasmódio. Sabia-se que o plasmódio afectava certos aspectos do comportamento dos mosquitos infectados, levando-os a só procurarem presas quando se encontrava num estádio do seu ciclo de vida capaz de infectar humanos. O que se ignorava até agora é que também manipulava os seres humanos. Num artigo na revista com arbitragem científica PLoS Biology, Renaud Lacroix e colegas mostraram que a infecção com malária torna os seres humanos mais apetecíveis para os mosquitos.
Os mosquitos não picam aletoriamente as suas vítimas mas usam um certo número de critérios. Numa tradução livre do texto do artigo:Uma das razões para a falta de estudos conclusivos é que a apetência intrínseca que os humanos despertam nos mosquitos varia consideravelmente. A apetência depende de, por exemplo, temperatura corporal e sudação, odor corporal e hálito.
No seu estudo os autores escolheram crianças, que separaram em três grupos de acordo com o seu grau de infecção pelo parasita da malária, para testarem as escolhas do mosquito.Depois de obter consentimento dos pais, crianças com aparência saudável de escolas primárias locais foram examinadas para detecção de malária durante a manhã. Em cada dia escolhemos três crianças para participar no estudo: uma não infectada, uma infectada com o estádio não transmissível da doença, outra acolhendo o parasita no estado em que infecta os mosquitos.
Não há motivo para preocupações, as crianças não foram expostas a nenhum tipo de perigo. Aliás no artigo os autores preocupam-se em salientar esse tipo de aspectos:Deve notar-se que as crianças com sintomas da doença como febres foram imediatamente levadas ao centro de saúde para tratamento e não foram incluídas neste estudo.
A apetência dos mosquitos pelas crianças foi medida colocando os mosquitos numa câmara que tinha três vias que permitiam aos mosquitos sentir a atmosfera dos locais onde as crianças dormiam ou descansavam. Os autores verificaram então qual era o odor que os mosquitos seguiam preferencialmente. Mais uma vez noto que os mosquitos não se encontravam infectados e que não tiveram qualquer tipo de acesso às crianças. O resultado da experiência foi simples: os mosquitos deslocaram-se preferencialmente na direcção das crianças com o parasita no estádio em que pode infectar os mosquitos, designado por gametócito.
Há outro tipo de factores a considerar num estudo deste tipo: pode ser a criança em si que tenha algo que atraia o mosquito e não o facto de estar infectada. Por isso os autores fizeram outro tipo de controlo:Para contabilizar a variação intrínseca da apetência dos mosquitos, tratámos todas as crianças infectadas com Fansidar e testamos as mesmas crianças duas semanas após o primeiro ensaio.
Assim, o primeiro teste mostrou os efeitos combinados da apetência intrínseca e da presença do parasita, enquanto o segundo teste só mostrou os efeitos da variação da apetência entre as crianças; a diferença entre os testes pode assim ser usada para aferir o efeito da infecção.
O resultado da experiência, depois de considerar todos os aspectos é claro: os mosquitos mostraram-se mais atraídos pelas crianças infectadas com o parasita no estádio de gametócito. As crianças com o parasita num estádio que não infectava os mosquitos, ou as crianças não doentes mostraram níveis de escolha bastante inferior.Os nossos resultados mostram que o aumento na atracção não era devido a características intrínsecas dos portadores da doença mas sim ao estádio da infecção associado com a presença de gametócitos. O mecanismo por trás desta manipulação não é cohecido, mas é provável que os parasitas modifiquem o hálito ou odor corporal do indivíduo.
Esta é mais uma das características que faz do plasmódio uma criatura tão difícil de erradicar.
Referências
Lacroix R, Mukabana WR, Gouagna LC, Koella JC (2005) Malaria Infection Increases Attractiveness of Humans to Mosquitoes. PLoS Biol 3(9): e298
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quarta-feira, novembro 02, 2005
O chilrear da ratazana
A Faculdade de Medicina da Universidade de St. Louis tem uma página com a história das canções de amor dos ratos de que falo abaixo. Encontram-se lá mp3s com as canções do ratos mudadas para frequências audíveis por seres humanos. Quem tiver RealPlayer basta carregar nos laços seguintes: mp3, 52 segundos mp3, 32 segundos. O chilrear pode ainda ser ouvido ainda em DOI: 10.1371/journal.pbio.0030386.sa004. Para quê um canário quando basta apanhar qualquer ratazana na rua?.
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Os ratos também cantam canções de amor
Depois das duas últimas desagradáveis criaturas, hoje temos ratos, o que à partida não parece uma melhoria significativa. Afinal os ratos não são seres que atraiam muita simpatia. O que não se sabia até agora é que os ratos têm dotes musicais que rivalizam com os das aves. [... ler mais]
Os biólogos descobriram algo que tinha sido ignorado durante décadas: os ratos de laboratório cantam. Num artigo que pode ser enontrado na PLoS Biology, uma revista com arbitragem científica, online e de acesso livre, Timothy Holy e Zhongsheng Guo investigam as canções ultrassónicas dos ratos. Numa tradução livre do resumo:"Tinha sido anteriormente mostrado que, quando encontram ratos fêmeas ou as suas feromonas, os ratos machos emitem vocalizações em frequências entre os 30 a 110 kHz. Mostramos aqui que essas vocalizações têm as características de uma canção, consistindo de vários tipos diferentes de sílabas, cuja sequência temporal inclui a articulação de frases repetidas. Os diferentes machos produzem canções com estruturas silábicas e temporais distintas."
Deve ser notado que os ratos também emitem vocalizações audíveis para os seres humanos, e muitos de nós já ouviram os guinchos que os ratos emitem em situações de perigo. As canções no entanto situam-se acima dos 30 kHz, ou seja são ultrassons, para lá da capacidade auditiva dos seres humanos. Todos os estudos anteriores sobre os ultrassons tinham-se concentrado sobre a voz dos ratos, não sobre a existência de um potencial discurso, este é o primeiro trabalho que mostra a existência de frases. Mais citações, agora do interior do artigo, que mostram que apesar de serem ultrassónicas estas canções têm pontos em comum com as canções das aves canoras:"De um ponto de vista subjectivo, as canções dos ratos têm uma diversidade e complexidade que excede a da maioria das canções de insectos e anfíbios, que em geral contêm uma única sílaba"
Os autores notam contudo que os ratos de laboratório foram selecionados pelos seres humanos por factores que não incluem as suas capacidades vocais, enquanto que com os canários se passa exactamente o contrário. Sendo assim, a comparação mais justa seria com ratos selvagens. É sempre fascinante quando se descobre que uma criatura com que se lida todos os dias tem aspectos do seu comportamento que ignorávamos completamente.
"A complexidade e riqueza das canções dos ratos parecem aproximá-las das de muitas aves canoras. Por exemplo, no tentilhão, um organismo muitas vezes utilizado para estudar a produção de canções, os indivíduos têm um número de tipos de sílabas similar ao número de tipos comuns que encontramos nos ratos. Há outras espécies, por exemplo canários, cujo reportório vocal parece exceder o dos ratos."
Adenda: ir para esta contribuição para ouvir as canções dos ratos.
Referências
Holy TE, Guo Z. 2005. Ultrasonic songs of male mice. PLoS Biol 3:e386.
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terça-feira, novembro 01, 2005
Arrepiante

O mínimo que se pode dizer desta imagem, que mostra uma multidão de Trypanossoma cruzi, cortesia da Artsy Science , é que é perturbadora. Já tinha ouvido falar de tripanossomas, já tinha visto desenhos e mesmo fotografias, mas nunca assim a nadarem entre os glóbulos vermelhos. É algo completamente diferente e bastante sinistro. [... ler mais]
A Tripanossomíase Americana, também chamada Doença de Chagas, transmite-se principalmente através da picada de um insecto denominado Triatoma infestans, que no Brasil é conhecido por barbeiro e nos países de língua castelhana por "vinchuca". Os medicamentos só funcionam na fase inicial da doença, que se pode tornar crónica e levar à cegueira, ou à morte por problemas cardíacos ou do aparelho digestivo.
O triatoma alimenta-se de sangue e infecta as vítimas através das fezes que liberta enquanto se alimenta, e que estão carregadas de tripanossomas. O nome barbeiro advém do hábito de picar no rosto. A Doença de Chagas é um problema de saúde grave na América do Sul e Central, com milhões de infectados. Realmente estas duas criaturas são muito mais assustadoras que qualquer dos monstros imaginários com que os americanos se entretêm no dias das bruxas.
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segunda-feira, outubro 31, 2005
Aracnofóbicos não tentem isto em casa!
Ainda relacionado com o último artigo, como é possível não gostar desta criatura? Cortesia do Blog científico-político de PZ Myers.
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Vampiro por afinidade
Eu considero-as criaturas adoráveis, mas muitas pessoas têm um medo irracional das aranhas, aquelas criaturas sorrateiras, por vezes peludas, com muitos olhos, grandes patas e um aspecto sinistro. O que essas pessoas não sabiam até agora é que algumas dessas aranhas têm um apetite voraz por sangue. [... ler mais]
Para dizer a verdade as aranhas não andam atrás das pessoas para lhes sugar o sangue, no fundo para elas o nosso sangue é uma espécie de condimento. Num artigo dos Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA, Jackson e Colegas (ref 1) descrevem o comportamento predatório da aranha saltadora africana, Evarcha culicivora. Estas aranhas têm um saudável apetite pelos verdadeiros vampiros, os mosquitos, mas, quando presenteadas com um mosquito macho, que não suga sangue, um mosquito fêmea bem empaturrado com o sangue de uma qualquer vítima, e um mosquito fêmea alimentada com água açucarada, as aranhas preferiram de forma consistente as fêmeas repletas de sangue. Estas aranhas não têm um aparato bucal adequado a sugar sangue directamente dos seres humanos, mas para já o apetite está lá.
Referências:
(ref 1) Jackson RR, Nelson XJ, Sune GO (2005) A spider that feeds indirectly on vertebrate blood by choosing female mosquitoes as prey. Proc Natl Acad Sci U S A. 102(42):15155-60.
Créditos da imagem: R.R. Jackson, numa página de J.Prozynski
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Mentira e Felicidade
Segundo parece o segredo para não cair em depressões é mentir o mais possível. Num artigo na Forbes online, intitulado "Lying is Good For You", Lacey Rose analisa os benefícios da mentira. Pelos vistos as pessoas mentem constantemente. O artigo cita um estudo de Robert Feldman, professor de psicologia na Universidade do Massachusetts em Amherst, que gravou secretamente conversas de alunos com estranhos. Ao visionarem as conversas os estudantes identificaram as vezes em que mentiram. Confessaram terem mentido em média 3 vezes a cada 10 minutos. O artigo tem algumas citações curiosas. Numa tradução livre: "tendemos a considerar as pessoas que dizem sempre a verdade como sendo ríspidas, antissociais e mesmo patológicas". E ainda: "há evidência científica que mostra que as pessoas depressivas são mais honestas que as não-depressivas. Quando as pessoas recuperam das depressões ficam menos honestas". Pelos vistos quando um colega nos pergunta se fez um bom trabalho, esse colega não quer uma resposta sincera, quer apenas reduzir a ansiedade. Alguém me devia ter explicado isso antes. Para finalizar mais uma citação: "O truque é que não chamamos a isso mentir, chamamos-lhe ter tacto ou ser sociável". Embora tudo isto pareça senso comum, é a tomar com um grão de sal. Não vou desatar a mentir por tudo e por nada, pelo menos até alguém me fornecer referências sobre estudos entre depressão e honestidade que mostrem que mentir melhora de facto a qualidade de vida.
Por CDG
laço permanente
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