domingo, setembro 23, 2007

Mais sobre o assédio aos cetáceos

Claro que é muito fácil falar mal do ecoturismo, mas por outro lado muitos de nós gostaríamos de ver imagens como esta ao vivo. O problema com os golfinhos é que muitas pessoas não se contentam em ver os animais de longe, ou em tirar uma fotografias à distância. Muitos "ecoturistas" encaram os golfinhos quase como animais domésticos, e querem nadar com eles, tocar-lhes, fazer-lhes festas, subir-lhes para as cavalitas. Todas estas actividades perturbam os animais, em particular em regiões em que o afluxo de turistas é tal que os golfinhos não lhes conseguem escapar. Na contribuição anterior tinha focado o contacto com golfinhos solitários habituados aos humanos, que significava em geral ferimentos e morte para os golfinhos, e ocasionalmente mesmo para os seres humanos. Para os outros tipos de habituação as coisas não são melhores. [... ler mais]

Os excertos que se seguem continuam a ser retirados de um trabalho de Amy Samuels, Lars Bejder, e Sonja Heinrich para a Marine Mammal Commission norte-americana (ref1). Nos Estados Unidos é ilegal alimentar mamíferos marinhos selvagens, mas em muitos países, incluindo o Brasil, não existem quaisquer restrições. Noutros locais é permitido, mas seguindo regras mais ou menos severas. Em geral fornecer comida a golfinhos tem que ver com interesses turísticos. O local onde a coisa está mais bem documentada é Monkey Mia, a tal localidade na Austrália onde ocorreu a morte da cria devido a um ataque de tubarão que referi numa contribuição anterior. Os efeitos da habituação aos humanos são os do costume:

  • Os relatos indicam que o "Old Charlie", o golfinho original de original Monkey Mia foi morto a tiro;
  • sete golfinhos desapareceram e pensa-se que terão morrido em resultado da poluição nas águas rasas onde esperavam para serem alimentados;
  • turistas foram mordidos na zona de aprovisionamento;
  • uma cria foi morta por um tubarão enquanto a mãe estava na área de aprovisionamento;
  • um juvenil desmamado ficou dependente das dádivas de peixe e morreu;
  • quando comparado com o comportamento fora da zona de aprovisionamento, a frequência de comportamento maternal era mais baixa e a frequência de agressões intraspecíficas mais elevada; e
  • verificou-se que as fêmeas aprovisionadas tinham uma taxa de sobrevivência das crias significativamente menor que a das fêmeas que se alimentavam naturalmente na mesma baía

O artigo refere outros locais e em todos a situação é semelhante. Os autores terminam esta secção com:
Conclusão: as dádivas não controladas de alimento são o elemento essencial para encontros na água com golfinhos em vários locais por todo o mundo. Resultados de pesquisa e evidência acidental são inequívocos em determinar que as dádivas não controladas de alimento são prejudiciais para os cetáceos selvagens. Não foi ainda determinado se existem efeitos prejudiciais de aprovisionamento alimentar feito de controlada.

Recomendação: é preciso colocar com urgência em práctica a proibição de alimentar os roazes corvineiros na zonas costeiras da Florida.

Ora o turismo significa empregos e uma vez estabelecida a práctica de alimentar os golfinhos num dado local, erradicá-la é um problema, mesmo que seja prejudicial para os animais. Os australianos nisto foram menos fundamentalistas que os americanos e estabeleceram simplesmente algumas restrições, que parecem para já ter levado a algumas melhorias.

O trabalho aborda ainda a questão de nadar com golfinhos habituados à presença humana, mas as conclusões são mais incertas pois não há estudos suficientes. Há no entanto indicações de que também é prejudicial para os golfinhos e os autores sugerem que se adoptem as regras básicas quando se lida com animais selvagens: observar de longe e com binóculos, evitar interagir directamente com os animais, evitar áreas críticas para alimentação, descanso, cuidados parentais,etc. No caso do nadar com golfinhos não habituados a seres humanos, os autores são taxativos: é assédio e deve ser proibido.

Ficha técnica
Imagem cortesia de Peter Asprey, via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Amy Samuels, Lars Bejder, and Sonja Heinrich (2000). A Review of the Literature Pertaining to Swimming with Wild Dolphins. Marine Mammal Commission.

sábado, setembro 22, 2007

Simo, Simo, não nades com humanos

Há não muitos anos atrás havia um outro golfinho na costa de África, próximo da cidade de Hippo, também chamada Diarrhytus, que de igual modo recebia alimento da mão dos homens, permitia que lhe tocassem gentilmente, brincava com aqueles que nadassem e se banhassem no mar, e carregava no seu dorso quem quer que se colocasse sobre ele.

Este é um excerto do livro nono da «Naturalis Historia» de Gaius Plinius Secundus (23-79), mais conhecido como Plínio o Velho. É uma entre várias descrições, nessa obra, do comportamento de golfinhos solitários que buscavam a presença humana. Segundo Plínio os golfinhos reconheciam o nome Simo e para os chamar bastava gritar Simo, Simo, que eles vinham. Infelizmente a história do Simo de Hippo teve um final infeliz. O golfinho tornou-se uma celebridade, atraindo inúmeros turistas da época, incluindo alguns poderosos e prepotentes. Os abusos desta multidão de visitantes perturbaram de tal forma os habitantes locais que eles acabaram por matar o pobre golfinho para que os deixassem em paz. Tal como há dois mil anos, ainda hoje sucede que consequências nefastas para os golfinhos são o resultado típico da interação entre golfinhos e humanos. Isto é verdade mesmo em relação a essas coisas do "ecoturismo" que prometem a oportunidade de nadar com os golfinhos selvagens.[... ler mais]

A problemática do "nadar com os golfinhos selvagens" foi analisada num trabalho de Amy Samuels, Lars Bejder, e Sonja Heinrich para a Marine Mammal Commission norte-americana (ref1). Os excertos que se seguem foram retirados desse trabalho.

Nos Estados Unidos existe um quadro legal que define aquilo a que se chama assédio dos mamíferos marinhos:
Qualquer acto em que se persiga, atormente, ou incomode, que
  1. tenha o potencial de magoar um mamífero marinho ou uma população de mamíferos marinhos na natureza (Assédio de tipo A), ou
  2. tenha o potencial de perturbar um mamífero marinho ou uma população de mamíferos marinhos na natureza causando o romper de padrões de comportamento, incluindo, mas não limitado a, migração, respiração, aleitamento, procriação, alimentação, ou abrigo (Assédio de tipo B).

Este é um quadro legal particularmente severo, em que alimentar um golfinho selvagem é considerado crime. Por outro lado, algumas actividades tais como entrar na água para fotografar, nadar com, e mesmo tocar em golfinhos, tinham um carácter ambíguo. O trabalho de Amy Samuels e colegas destinou-se a verificar até que ponto essas actividades poderiam ser classificadas como assédio. Para isso os autores fizeram uma revisão detalhada da literatura pertinente, e separaram os tipos de contacto em categorias, de acordo com encontros com:
  1. golfinhos que são tipicamente soltários e que buscam companhia humana, designados neste relatório como "solitários, sociáveis";
  2. golfinhos que estão habituados a interações dentro de água através do aprovisionamento em comida por humanos, designados como "aprovisionados-em-comida";
  3. cetáceos que toleram ou buscam nadadores humanos para interações prolongadas numa base regular (não incluindo os aprovisionados-em-comita e os solitários, sociáveis), designados como "habituados"; e
  4. cetáceos que não estão habituados aos nadadores humanos, designados como não habituados.

As três primeiras categorias distinguem no fundo a forma como se deu a habituação dos animais ao contacto humano. Uma das coisas que a que achei piada no estudo foram outras classes que os autores consideraram. Estamos a falar de coisas como nadar com golfinhos em cativeiro, a interação com barcos, e o... "nadar com tubarões". Pois é, por vezes as pessoas enganam-se e o que parece um golfinho não é.

Comecemos então com o nadar com um golfinho solitário, tal como no exemplo do pobre Simo. Um aspecto curioso que os autores referem a propósito destes golfinhos é que nem sempre o contacto tem a ver com comida. Alguns golfinhos não aceitam comida, outros aceitam mas não a comem, e alguns chegam ao ponto de serem eles a oferecer comida aos seres humanos.

Os golfinhos soltitários,sociáveis estão bem habituados ao seres humanos, demasiado bem aliás. A quebra de contacto pode ocorrer se os humanos não fornecerem "entretenimento" adequado aos golfinhos. É aí que as coisas se podem tornar problemáticas:
Dos 26 golfinhos solitários, sociáveis que estão bem documentados (15 machos, 8 fêmeas, 3 de sexo desconhecido), a maioria é descrita como tendo interações quase diárias com os humanos e interações pouco frequente com os seus congéneres. Onze tiveram períodos de comportamento sexual dirigido a humanos, bóias, e/ou navios; 15 dirigiram comportamento agressivo aos seres humanos. A agressão dos humanos pelos golfinhos resultou por vezes em ferimentos graves nos humanos, tais como ruptura no baço, costelas partidas, ou mesmo morte.

Ora o reverso da medalha é bastante pior no que se refere a mortos e feridos.
Catorze golfinhos solitários sofreram ferimentos em resultado da sua habituação aos humanos e à actividade humana. Por exemplo, o "Freddy" enredava-se frequentemente em redes de pesca e por três vezes teve anzóis ou linha enfiados no seu corpo. "Nudgy" levou com uma lança e foi atingido por remos. "Percy" teve um anzol de pesca enfiado num olho. "Donald" e "Horace" sofreram ferimentos graves em colisões com barcos ou com hélices. O "JoJo" foi descrito como tendo 37 ferimentos relacionados com a interação com seres humanos desde 1992, incluindo oito que acarretavam perigo de vida.

Há mesmo paralelismos modernos com o Simo da antiguidade: cinco golfinhos que desapareceram em circunstâncias misteriosas depois das populações locais se queixarem dos incomódos que causavam. Os autores referem muitos exemplos que golfinhos solitários, sociáveis que morreram às mão de seres humanos. As conclusões dos autores do artigo são claras:
Conclusão: Embora os golfinhos solitários, sociáveis façam tipicamente o primeiro contacto com os humanos, a habituação aos humanos e os encontros dentro de água são geralmente um processo gradual conseguido com um esforço considerável por parte dos humanos. Infelizmente para os golfinhos, a habituação aos humanos coloca os golfinhos em risco de ferimentos ou morte. Programas de gestão rigorosos podem reduzir esse risco.

Recomendação: Os golfinhos solitários, sociáveis de qualquer espécie são particularmente vulneráveis aos impactos das actividades humanas, e todas as interações com humanos deveriam ser rigorosamente proibidas, com a proibição a ser aplicada de forma em cada situação.

Percebe-se o tom forte dos autores. São cerca de 2000 anos de referências na literatura em que estas coisas acabam mal para os golfinhos. Este texto já vai longo. Terminarei na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem do cadáver de roaz-corvineiro a partir das páginas da NOAA.

Referências
(ref1) Amy Samuels, Lars Bejder, and Sonja Heinrich (2000). A Review of the Literature Pertaining to Swimming with Wild Dolphins. Marine Mammal Commission.

sexta-feira, setembro 21, 2007

A dor de uma mãe


Numa ocasião foi visto um cardume de golfinhos, grandes e pequenos, e dois dos golfinhos ligeiramente atrás foram vistos a nadar por baixo de um pequeno golfinho morto quando este se estava a afundar, e a suportarem-no nas suas costas, tentando por compaixão prevenir que fosse devorado por um qualquer peixe predador.

Este é um excerto do livro nono da «História dos Animais» de Aristótoles (384 AC - 322 AC). É a primeira referência escrita que se conhece ao chamado comportamento epimelético nos golfinhos. Este termo complicado significa que prestam ajuda a indivíduos doentes ou feridos. A forma mais comum de assistência é apoiar um animal por forma a que ele chegue à superfície. Tal como no caso descrito por Aristóteles, muitas vezes os golfinhos prestam assistência a golfinhos que estão mortos. Eu referi na minha última contribuição um exemplo, no roaz-corvineiro (Tursiops truncatus), envolvendouma mãe e a sua cria morta por um tubarão. Esta imagem mostra um outro caso descrito na literatura. O animal a flutuar de barriga para cima, um roaz corvineiro com cerca de dois anos, está morto. À direita na imagem vê-se uma coisa escura na região da axila do animal morto. É a barbatana dorsal de um outro roaz-corvineiro, atarefado a empurrar o cadáver contra a corrente. [... ler mais]

Este exemplo é descrito num artigo de Fernando Félix num dos volumes do Investigations on Cetacea (ref1).
No dia 4 de Dezembro de 1991, acompanhado pelo Senhor Jake León, estava a observar um grupo de roazes corvineiros que se alimentavam na baía do canal de Puná Vieja, na Ilha de Puná no estuário do rio Guayas, no Equador. Após permanecer duas horas com o mesmo grupo de golfinhos que observámos de perto, chamou-nos a atenção um golfinho morto a flutuar a cerca de 200 metros de distância. Deixámos o grupo para inspecionar o animal. Quando nos dirigíamos a ele, vimos outro golfinho que o estava a empurrar contra a corrente de maré e na nossa direcção. O golfinho morto era uma fêmea imatura de cerca de 2 metros de comprimento, talvez com 2 a 3 anos de idade.

A imagem no início da contribuição refere-se a esta cena. Os autores descrevem em seguida o estado do cadáver:
O corpo estava completo mas ligeiramente inchado e emanava o cheiro de decomposição. Partes dos intestinos pendiam da fenda anal-genital. A barbatana dorsal, as barbatanas laterais e as barbatanas da cauda estavam presentes. Em vários locais onde a pele tinha desaparecido era visível a camada de gordura. Não eram visíveis ferimentos externos. Julgando a partir da condição externa presumimos que o golfinho teria morridos dois a três dias antes.

Os outros golfinhos nas redondezas não prestavam grande atenção ao esforçado animal nem ao cadáver, e nenhum tentou ajudá-lo. O apego do animal em questão, um adulto que os autores designam por No. 271, ao cadáver eram extraordinário:
Desde o início que tentámos não interferir, pensando que o golfinho morto teria possivelmente vindo a flutuar, e que teria atraído o curioso No. 271 e que seria abandonado em breve. Contudo, o No. 271 continuou a carregar o golfinho morto e decidimos olhar de mais perto para examinar o corpo com mais atenção. Mas, de cada vez que tentávamos aproximar-nos do corpo, o No. 271 interferia, colocando-se entre a lancha e o corpo, frequentemente com a cabeça fora de água, olhando e virando-se rapidamente, batendo com a cauda, possivelmente um comportamento de ameaça; voltava então ao corpo, empurrando-o para baixo com força, para lá do nosso alcance.

Eis aqui uma imagem do golfinho a tentar afastar o corpo do animal morto dos incómodos seres humanos:

O autor e o seu acompanhante tentaram pelo menos dez vezes apossar-se do cadáver mas o defensor reagiu sempre da mesma forma e eles acabaram por desistir. Após 50 minutos em que observaram o animal persistir nos seus esforços, transportando o cadáver contra a corrente, acabaram por partir. Voltaram no dia seguinte mas não havia golfinhos no local.

O autor não conseguiu determinar a partir das suas observações o sexo do animal que estava a empurrar a fêmea morta, nem o grau de parentesco. As crias dos roazes corvineiros permanecem junto às mães de 3 a 6 anos, pelo que dada a idade provável do animal morto seria possível que se tratasse da mãe. A agressividade dirigida aos humanos que tentavam aproximar-se, e as tentativas de afastar o corpo da jovem fêmea, mostram um comportamento protector bem desenvolvido em relação à suposta cria. O impressionante nesta história é que continuou a prestar cuidados ao cadáver mesmo quando a decomposição já ia avançada, mas mesmo isso não é caso único.

Encontrei na internet uma descrição algo semelhante à anterior, se bem que o artigo ainda não tenha sido publicado. Existe no entanto um rascunho da autoria de Giovanni Bearzi do Tethys Research Institute. Neste caso, observado nos dias 3 e 4 de Julho de 2007, observado por Joan Gonzalvo Villegas e Zsuzsanna Pereszlenyi no golfo de Amvrakikos na Grécia, os intervenientes foram uma fêmea e a sua cria nascida morta. Estes autores são bastante mais emotivos na forma como descrevem a experiência. Nas palavras de Giovanni Bearzi:
Embora os investigadores devam evitar ser guiados pelos seus sentimentos e devam evitar fazer interpretações arbitrárias, neste caso era bastante claro que a mãe estava angustiada. Ela parecia incapaz de aceitar a morte,e comportava-se como se houvesse uma esperança de salvar a sua cria.

O autor refere que os gritos da mãe e o desespero aparente na forma como tocava na cria com o rosto e com as barbatanas peitorais foram uma experiência chocante para os tripulantes da embarcação. Mais uma vez os outros golfinhos não prestaram grande atenção à ocorrência. A mãe estava só no seu desgosto, e nos dois dias em que a observaram os investigadores não a viram a alimentar-se. Os autores referem que a cria estava já a entrar num estado avançado de decomposição, mas por respeito pelo sofrimento evidente da mãe não tentaram recolher o corpo para uma eventual autópsia. Algumas imagens destas observações pode ser encontradas aqui.

Referências
(ref1) Félix, Fernando (1994). A case of epimeletic behaviour in a wild bottlenose dolphin Tursiops truncatus in the Gulf of Guayaquil, Ecuador. Investigations on Cetacea. Ed. by G. Pilleri. Vol. 25:227-234.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Quando o tubarão ataca

Este tubarão a ser retirado da água e pesado pelos humanos sorridentes é ironicamente um dos famigerados "comedores de homens". Como podemos ver a designação é enganadora pois estas criaturas têm muito mais a temer dos humanos do que os humanos delas. Trata-se de um tubarão tigre, de seu nome científico Galeocerdo cuvier, espécie em que os adultos podem ultrapassar os 4 metros de comprimento e os 900 kg de peso. O tubarão tigre não é esquisito com o que come, e se não despreza um ser humano de vez em quando, peixes, tartarugas, aves e mamíferos marinhos também fazem parte da sua dieta. Na verdade, chega mesmo a ingerir coisas que de alimento não têm nada, tais como latas e botas, o que leva a que por vezes seja designado como o caixote de lixo do mar. Embora os roazes corvineiros não façam parte da dieta habitual destes tubarões, os golfinhos têm que ter alguma cautela quando eles estão nas redondezas. Aviso desde já que o que se segue é uma história triste, envolvendo um tubarão, um golfinho bebé, e a dor de uma mãe.[...ler mais]

O artigo que descreve o ataque de um tubarão tigre a um golfinho bebé é da autoria deMann e Barnett e foi publicado na revista Marine Mammal Science (ref1). Vamos então aos factos:

Entre as 15:30 e as 15:35 no dia 19 de Março de 1994, Hobbit, um golfinho com 110 dias foi atacado por um tubarão perto da costa de Monkey Mia (uma estância de pesca) em Shark Bay, no oeste da Austrália. Hobbit era a filha de Holeyfin, uma das fêmeas que visitavam diariamente a costa em busca de sobras de peixe e para contacto com os pescadores e turistas.

Cerca de hora e meia após o ataque os autores recolheram o cadáver de Hobbit para uma autópsia e dedicaram-se a reconstituir o ataque recolhendo informações das pessoas presentes:
Pelo menos uma dúzia de pessoas testemunharam o ataque inicial, que ocorreu a aproximadamente 70 metros da costa em 5 metros de água. Cinco testemunhas, escolhidas por causa da sua capacidade em identificar todos os golfinhos que visitam a praia, (um operador turístico, dois funcionários das estância, e dois turistas) foram entrevistados separadamente durante o período de um dia que se seguiu ao acontecimento.

Estavam presentes na praia mais quatro golfinhos, Nic (filha adulta de Holeyfin), Nak (filho de Nic com 108 dias), Sur (uma fêmea adulta), e Fin (filho de Nic com 47 meses). A partir dos relatos das testemunhas foi possível reconstituir a sequência de acontecimentos.
Por volta das 15:35 Holeyfin saiu a grande velocidade da praia na direcção de Hobbit. Foi seguida poucos segundos depois por Sur, Nic, e Fin. Todas as cinco testemunhas concordaram em que esses golfinhos rapidamente sairam disparados na direcção de Hobbit. Dois observadores estavam seguros que Nak, a cria, ficou perto da costa. Calcula-se que Holeyfin estivesse a pelo menos 70 metros de Hobbit quando o ataque começou. Ninguém viu sangue ou evidência do ataque até Holeyfin e os outros chegarem ao local onde Hobbit foi atacada. Momentos depois, as testemunhas viram os golfinhos a debaterem-se e uma barriga de golfinho ou de tubarão arqueada e a rolar para fora da água. Foi abservado que pelo menos um golfinho adulto e a Hobbit tiveram contacto corporal com o presumível tubarão. Hobbit foi lançada para fora de água a esguichar sangue, do que resultou uma enorme mancha na água. A comoção cessou e Hobbit ficou a flutuar à superfície.

Os autores do artigo observaram então o comportamento da mãe, que permaneceu junto à cria, já morta.
Holeyfin permaneceu a menos de 2 metros de Hobbit até às 15:59. Ela tocou e empurrou, a aproximadamente cada 30 segundos, repetidamente para cima a Hobbit que flutuava na água. Às 15:56 ela empurrou Hobbit para o fundo marinho e manteve-a lá durante alguns segundos. Apesar de termos hidrofones na água, podíamos ouvir o assobiar alto e contínuo pela Holeyfin cada vez que ela aparecia à superfície ou passava perto do barco.

Mas a mãe não se encontrava sozinha. O tubarão pelos vistos não tinha desistido, e uma barbatana surgia de vez em quando nas imediações.
Às 16:21 um tubarão nadou na direcção de Hobbit e Holeyfin rapidamente perseguiu o tubarão, permanecendo menos de um metro atrás do tubarão durante aproximadamente 20 metros.
O tubarão era um pouco mais pequeno que a Holeyfin que tinha cerca de 2 metros de comprimento e os autores identificaram-no como sendo um tubarão-tigre. A Holeyfin manteve-se perto da cria descrevendo círculos a menos de 20 metros do corpo até que os autores do artigos o retiraram da água às 17:07 para determinarem a causa da morte. Não é uma imagem bonita:

Aquela ferida na barriga é arrepiante. As marcas dos dentes indicam que o tubarão tigre que a Holeyfin perseguiu podia muito bem ser o assassino. A partir das dimensões da mordida na barriga foi possível determinar que o autor da dentada seria um tubarão tigre de 170 a 200 centímetros de comprimento. Os autores sugerem que o tubarão começou por arrancar a barbatana caudal da Hobbit, cujos assobios alertaram a mãe e os outros golfinhos. Só quando os outros golfinhos chegaram é que o tubarão teria mordido a barriga, o que explicaria só então ter sido visto o sangue. O ataque pode ter sido facilitado pelo estado de saúde da pequenita. A Hobbit era bastante mais franzina que o seu sobrinho Nak, apesar de ser uns dias mais velha, e apresentava já há algum tempo algumas chagas e padrões de comportamento que indicavam que estaria em condições algo precárias. A autópsia revelou que ela tinha broncopneumonia.
Estas observações fornecem evidência clara de que os golfinhos selvagens tentam defender outros contra os ataques de tubarões. Observações do ataque inicial sugerem que vários golfinhos intervieram, apesa de demasiado tarde. Após o ataque, Holeyfin permaneceu com a Hobbit e perseguiu e expulsou do local o mesmo ou um outro tubarão.

O comportamento da mãe, empurrando a cria para a superfície é comum nos golfinhos como resposta a ferimentos ou morte de crias e voltarei a falar nisso em contribuições futuras. A perda da cria teve repercussões no comportamento posterior Holeyfin. Depois disso, passou grande parte do tempo com o seu neto Fin (50% quando comparado com 3% antes da morte da Hobbit). Além disso, ela que quase não assobiava antes da morte da Hobbit, assobiou de forma quase contínua no dia do ataque e no que se seguiu.

Apesar de no caso da Hobbit o estado debilitado ter possivelmente propiciado a morte da cria, os autores do artigo referem estudos que mostram que as mães, que têm por hábito procurar sobras de peixe junto de humanos, apresentam taxas de mortalidade mais elevadas das crias com menos de um anos. A companhia dos seres humanos em geral só traz problemas às criaturas selvagens.

Ficha técnica
Fotografias do tubarão tigre tiradas por James P. McVey do NOAA Sea Grant Program, obtidas aqui e aqui.

Referências
(ref1) Mann J., Barnett H. (1999). Lethal tiger shark (Galeocerdo cuvieri) attack on bottlenose dolphin (Tursiops sp.) calf: defense and reactions by the mother. Marine Mammal Science 15(2):568-575.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Mau como os... golfinhos

Esta pequena criatura tímida, que tem que ultrapassar tantas dificuldades simplesmente para conseguir sobreviver num ambiente tão hostil, passou por uma provação de tal forma atroz que me faz estremecer só de a contemplar.

Esta é uma frase de Barbi White e refere-se ao pequeno cetáceo marinho, conhecido em Portugal por boto, da espécie Phocoena phocoena, que se mostra na imagem ao lado. Trata-se do cadáver de uma fêmea, que foi incrivelmente maltratada. Lacerações e feridas perfurantes por todo o corpo, lesões internas e ossos fracturados. A criatura foi espancada até à morte. Não é comportamento predatório, o agressor não estava minimamente interessado em comer o animal que matou. Não se trata de uma ocorrência isolada, este tipo de mortes são muito comuns no litoral de Moray Firth, na Escócia. Mas que animal é responsável por esta morte, aparentemente sem propósito, esta verdadeira "malvadez"? A resposta é algo de inesperado, trata-se do último animal que ocorreria a muitos de nós. [... ler mais]

A identidade dos agressores é dada num artigo de Harry Ross e Ben Wilson na revista Proceedings of the Royal Society of London (ref1). Numa tradução livre do resumo:
A maioria (63%) dos botos encalhados ao longo da Moray Firth, na Escócia, morreram de traumatismo caracterizado por fracturas múltiplas do esqueleto e orgãos internos danificados. Os ferimentos de superfície consistiam de cortes na pele assemelhando-se às marcas de dentes infligidas por um cetáceo noutro. Os espaços entre eles correspondiam aos dos dentes dos golfinhos roazes-corvineiros, dos quais existem populações em Moray Firth. Foram testemunhadas quatro interações violentas entre roazes e botos. As razões para essas interações são desconhecidas e exemplos semelhantes documentados noutros mamíferos são extremamente raros. Estes achados desafiam a imagem benigna dos roazes corvineiros e providenciam uma causa de mortalidade de botos que até agora não tinha sido registada.

Os roazes-corvineiros, da espécie Tursiops truncatus, são os animais que a maioria de nós associa à palavra golfinho. São as criaturas que fazem aquelas habilidades nos parques marinhos e que aparecem nos filmes. São o paradigma do animal simpático ao qual as pessoas reagem de forma emotiva. De certa forma são vistos mais como um ícone cultural do que como um animal selvagem. Só que a natureza é por vezes brutal e não se compadece com as nossas ideias pré-concebidas sobre os outros seres. Os golfinhos não são criaturas místicas com a missão de nos mostrarem o que deveríamos ser. Apesar disso, quando li este estudo, anos atrás, fiquei com uma sensação de perda. Claro que os nossos preconceitos se reflectem também no "horror" que a história nos causa. Se em vez de um cetáceo marinho
a vítima fosse uma alforreca ou um peixe a história não nos afectaria por aí além. Só que a história não acaba aqui, as coisas ficam ainda piores.

A grande questão é o porquê destas pulsões assassinas? Não se trata de um hábito predatório, e outras explicações como competição por alimento, ou uma possível ameaça para as crias, são pouco prováveis. Os botos marinhos são muito pequenos quando comparados aos roazes-corvineiros, na verdade são do tamanho de crias jovens de roazes-corvineiros. A diferença de tamanho entre agressor e vítima é bem patente nesta imagem de um ataque, tirada por Peter Asprey em Maio de 2005, em Chanonry Point na Escócia. O agressor é um roaz corvineiro macho.


A resposta ao porquê seria descoberta pouco depois deste artigo. É algo de tenebroso. Na verdade trata-se de um jogo, algo que os golfinhos fazem para ganharem práctica para actos de violência sobre outras criaturas. Criaturas com o tamanho aproximado dos botos. Tudo leva a crer que os golfinhos matam os botos como treino para serem mais eficientes a matarem as suas próprias crias. Falarei disso na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem e excerto inicial da contribuição obtidos a partir desta página do Cetacean Research & Rescue Unit.
Foto de ataque cortesia de Peter Asprey, via Wikimedia Commons.
Referências
(ref1) Ross, H. M. & Wilson, B. (1996) Violent interactions between bottlenose dolphins and harbour porpoises. Proc. R. Soc. Lond. B 263, 283-286. doi:10.1098/rspb.1996.0043.

terça-feira, setembro 18, 2007

De canibal a caçador de crocodilos

Embora os museus e as revistas e livros de divulgação tenham respondido com entusiasmo à ideia de um Coelophysis bauri canibal, no meio científico reinou algum cepticismo desde o início. A dúvida começou a manifestar-se de forma mais visível já neste século, quando os dois exemplares foram reexaminados e alguns autores, em publicações para o grande público, e em apresentações em encontros científicos, colocaram em causa a interpretação dada por Colbert aos achados. Para que se possa falar em canibalismo, há um certo número de factores que têm que ser observados. Em primeiro lugar, os restos das presas têm que estar dentro da cavidade abdominal do animal que se assume ser o predador, ou pelo menos numa posição aproximada, e não podem exceder o volume provável do estômago. De preferência, esses restos deverão mostrar evidência da acção de sucos digestivos. Pará além disso, os vestígios das presas têm que possuir características que permitam um diagnóstico inequívoco. Os achados de Coelophysis bauri não cumprem estes requisitos, embora tenha sido necessário esperar até 2006 para que isso fosse mostrado de forma conclusiva num artigo científico. [... ler mais]

O artigo que desmistifica o canibalismo do Coelophysis bauri é da autoria de Nesbitt e colegas e foi publicado na revista Biology Letters (ref1). Numa tradução livre do resumo:

É rara no registo fóssil a evidência directa da escolha de presas em dinossauros carnívoros. O exemplo mais celebrado pertence ao suposto conteúdo do estômago do dinossauro carnívoro Coelophysis bauri, que para lá de revelar a escolha da presa também aponta para que o comportamento canibalístico seja uma ocorrência comum. Testamos aqui essa hipótese conduzindo exames anatómicos e histológicos detalhados dos famosos Coelophysis "canibais".

Os autores começaram por notar que num dos supostos canibais encontraram de facto restos de uma refeição dentro de cavidade abdominal do Coelophysis, que tudo leva a crer não se rompeu e assim permaneceu intacta antes e após o animal ter sido enterrado pelos sedimentos. Este exemplar cumpre assim um dos requisitos para que se possa eventualmente tratar de canibalismo. Para ver se os outros requisitos são cumpridos, é preciso então considerar o conteúdo dessa zona, indicada pelo tracejado na imagem abaixo:

A amarelo destacam-se alguns dos fragmentos ósseos que representarão uma provável refeição e que possuem carácter diagnóstico, isto é, que possuem detalhes que permitem distinguir os Coelophysis de outros vertebrados.
Os resultados mostram inequivocamente que o conteúdo do aparelho digestivo provém de crocodilomorfos primitivos e não de juvenis do Coelophysis. Estas descobertas sugerem que este táxon não é canibalístico e colocam em causa que este fosse um comportamento comum entre os dinossauros não avianos.

Como vimos na contribuição anterior o termo inequívoco pode causar equívocos, mas este trabalho é bastante convincente. Os autores compararam os fragmentos de ossos encontrados nas entranhas do Coelophysis com os do próprio e com os deste bicho, um crocodiliano, o Hesperosuchus gracilis.

Este animal viveu no mesmo local ao mesmo tempo que os Coelophysis. Ora eis aqui a comparação.

À esquerda temos vistas de três ângulos diferentes da mesma extremidade proximal de um fémur direito de um Hesperosuchus. À direita temos as correspondentes vistas para um Coelophysis. No meio mostra-se a estrutura equivalente encontrada no estômago do Coelophysis. Notem que não existe grande ambiguidade na escolha. A associação foi ainda confirmada por uma análise da estrutura do osso que não deixou grandes dúvidas. Este fóssil não é evidência de canibalismo mas sim de um caçador de crocodilos juvenis.

Será este o fim da Coelophysis Madonna? Talvez não. Demonstrar o canibalismo em espécies extintas é um pouco como ganhar na lotaria. Os Coelophysis bauri poderiam perfeitamente ser canibais, só que o canibalismo providenciaria seguramente uma parte muito pequena da sua dieta, o que significa que a probabilidade de encontrar um tal exemplo é muito reduzida. Mas se bem se lembram, coisas mais improváveis já aconteceram na paleontologia, afinal quem julgaria possível encontrar um fóssil de um réptil com duas cabeças?

Ficha técnica
Cabeça de Coelophysis bauri cortesia de John Conway via Wikimedia Commons.
Hesperosuchus gracilis cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Nesbitt, S. J., Turner, A. H., Erickson, G. M., and Norell, M. A. (2006). Prey choice and cannibalistic behavior in the theropod Coelophysis. Biology Letters. doi:10.1098/rsbl.2006.0524.

segunda-feira, setembro 17, 2007

O alegado canibal

E aninhado no berço das suas costelas, eis que jaziam os restos dispersos de outro Coelophysis, que era ainda bastante jovem. E todos os que olharam ficaram maravilhados, pois acreditaram que este era o fóssil de uma mãe e da sua cria por nascer. Mas o Dr. Colbert estudou esses ossos, e proclamou que a criança na sua barriga era grande e bem formada; e que não sairia sem dano pelo corpo de uma mãe. E então todos se calaram, pois o que tinham julgado ser um símbolo da maternidade tinha sido revelado como uma antiga relíquia de canibalismo.

Este é o final do The Coelophysis Maddona, um texto escrito em 2004 por Matt Celeskey. Aconselho a ida à página onde se pode ver um detalhe de uma ilustração assaz perturbadora de uma mãe Coelophysis que devora o filho que embala nos braços. Esta reputação de canibal do Coelophysis bauri viria a tornar-se numa presença quase obrigatória nos livros de divulgação sobre dinossauros, e nas exibições em museus. Um exemplo é esta imagem de um modelo animatrónico, do Museu de História Natural de Londres, de cuja boca pende um dos seus congéneres de tenra idade.[... ler mais]

Centenas de Coelophysis foram desenterrados em 1947 no Rancho Fantasma (Ghost Ranch) no Novo México, alguns deles bastante completos e articulados. Ao preparar estes dois indivíduos, o tal doutor Colbert notou algo de curioso, que viria a descrever no final da década de 1980.

Dentro destes animais, que terão vivido no Triásico, cerca de 228 milhões da anos atrás, o doutor Colbert encontrou inúmeros pequenos ossos que pareciam encontrar-se nos locais correspondentes às cavidades corporais. Esses ossos eram de origem arcossauriana e o tal doutor Colbert deduziu, sem grandes justificações, que se trataria de juvenis de Coelophysis consumidos pelos seus congéneres de maior idade. De tal forma ficou convencido, que afirmou, em livros publicados em 1989 e 1995, com grande certeza, que isto era evidência inequívoca de canibalismo nos dinossauros. O rótulo de canibal foi amplamente popularizado em artigos de divulgação e colou-se, não só ao Coelophysis, mas aos terópodes em geral.

Ora, trabalho mais recente, veio mostrar que afinal a tal evidência inequívoca era equívoca, ou seja a história do ovirraptor como que se repetiu novamente. Esse será o tema próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem de modelo animatrónico cortesia de user:Ballista via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Colbert, E. H. (1989). The Triassic dinosaur Coelophysis. Mus. North. Arizona Bull. Ser. 57, 1­160.
(ref2) Colbert, E. H. (1995). The little dinosaurs of Ghost Ranch. New York, NY: Columbia University Press.

domingo, setembro 16, 2007

Como fintar um tiranossauro

Mais uma imagem de um futebolista, desta feita para responder a uma questão colocada pelo João Carlos: será que o Cristiano Ronaldo conseguiria fintar um Tyrannosaurus rex? Consideremos então uma situação muito simples. O Cristiano Ronaldo aproxima-se a toda a velocidade de um tiranossauro que está alinhado com a direcção em que o futebolista se está a deslocar. Subitamente, nas barbas da criatura, o Cristiano muda de direcção passando a deslocar-se num ângulo de 45 graus da direcção inicial. O tiranossauro roda sobre uma das pernas, tentando abocanhá-lo ou fazê-lo cair. Consideremos o instante crítico em que o dinossauro rodou 45 graus. Como o tiranossauro tem cerca de 12 metros de comprimento isso significa que o Cristiano tem que percorrer cerca de 4 metros para o lado para escapar à bocarra do bicho. Ora um bom velocista humano consegue fazer cerca de 10 metros por segundo, o que significa que (a 45 graus) o Cristiano Ronaldo não pode esperar fazer melhor que cerca de 7 metros para o lado num segundo. Dada a viragem brusca fará seguramente uns bons metros a menos. Se o tiranossauro conseguir rodar os tais 45 graus em cerca de um segundo a situação torna-se problemática. Após procurar um pouco na literatura encontrei um trabalho que permite esclarecer o destino do internacional português. [... ler mais]

O trabalho que investiga o momento de inércia dos tiranossauros é da autoria de John Hutchinson e colegas, e foi publicado na revista Journal of Theoretical Biology. O resumo descreve primeiro alguns detalhes do modelo desenvolvido pelos autores, que lhes permite estimar e visualizar parâmetros biomecânicos dos animais. Saltando para a parte que interessa ao problema do Cristiano Ronaldo, eis uma tradução livre do texto:

Finalmente, usámos o mosso modelo para testar um problema por resolver na biomecânica dos dinossauros: quão depressa conseguiria virar um bípede tão gigantesco como o T. rex? Dependendo dos pressupostos, o nosso modelo de corpo completo, integrado com um modelo músculo-esquelético, estima que a rotação de 45 graus numa perna seria conseguida lentamente, em cerca de 1 a 2 segundos.

O animal não era lá muito ágil, mas isso seria compensado pelo alcance enorme que possuía. Infelizmente as capacidades de finta do Cristiano Ronaldo estariam no limite, o tiranossauro levaria um segundo a rodar 45 graus. Se começasse com aquela jiga-joga do costume de dançar à frente do adversário estaria tramado. O futebolista teria dificuldade em evitar a bocarra, mas não se preocupem, os dotes de pugilista do super-Felipão estariam lá para salvar o dia se fosse caso disso. Neste cenário o bicho estava parado, mas os ingredientes para um cenário de perseguição são simples, basta aproximar o tiranossauro por um cilindro de 12 metros e colocá-lo a correr na direcção do Cristiano Ronaldo, que poderá abordar o bicho com um ângulo à escolha.

Ficha técnica
Imagem do Cristiano Ronaldo cortesia de Ray Booysen, via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) John R. Hutchinson, Victor Ng-Thow-Hing and Frank C. Anderson (2007). A 3D interactive method for estimating body segmental parameters in animals: Application to the turning and running performance of Tyrannosaurus rex. Journal of Theoretical Biology Volume 246, Issue 4, 21 June 2007, Pages 660-680. doi:10.1016/j.jtbi.2007.01.023

sábado, setembro 15, 2007

Morrer em agonia

Posição do corpo em que a cabeça, o pescoço e a coluna vertebral formam um arco côncavo para trás, apoiando-se o doente na cabeça e nos calcanhares. Resulta da contracção sustentada dos músculos posteriores do pescoço e do tronco, por ex. em doentes com tétano ou na intoxicação pela estricnina.

Segundo o glossário dos Médicos de Portugal, esta é a definição de opistótono. Ora o opistótono não ocorre apenas nos humanos. É também muito comum em fósseis de aves e outros dinossauros, tal como o famosos fóssil articulado de Archaeopteryx lithographica na imagem. Notem a postura com o pescoço encurvado para trás. Pois é, trata-se de um opistótono. Embora a definição nos faça pensar em agonia, a quase totalidade dos autores atribuíam a curvatura dorsal do pescoço dos achados dinossaurianos, não aos estertores de um animal moribundo, mas sim a algum tipo de efeito após a morte. É até bastante comum livros de divulgação incluirem uma chamada de atenção para as "falsas poses de agonia". [... ler mais]

Esta postura é descrita numa exposição do Museu Americano de História Natural sobre a biomecânica dos saurópodes nestes termos:
Quando encontrados, muitos fósseis de dinossauros mostram uma pose estranha: os seus pescoços estão dobrados para trás de forma dramática. Vendo esta postura, os primeiros peritos em dinossauros concluiram que os animais poderiam manter os seus pescoços dessa forma em vida. Mas parece mais provável que a postura reflicta algo que aconteceu após a morte do animal.

E que coisa após a morte seria essa? Ainda do mesmo local:
Um cordão de tecido elástico ajuda a suportar os pescoços da muitos animais. Esta banda, ou ligamento, pode esticar até quase o dobro do seu comprimento quando o pescoço se estende, e relaxa quando o pescoço está no seu estado neutro. Após a morte do animal, os músculos do pescoço afrouxam, os ligamentos encolhem e o pescoço endireita-se ou dobra-se para trás.

Esta é a explicação com que eu estava familiarizado: o cadáver é exposto, os ligamentos secam e puxam os ossos. Como foi dito, esta postura é muito comum em fósseis de aves e dinossauros. Já que na última contribuição referi o Compsognathus longipes, eis aqui uma reprodução de um dos fósseis. da espécie, encontrado na mesma localidade de produziu o arqueopterix.

Este fóssil é também um opistótono. Ora alguém decidiu fazer uma série de experiências para ver se a tal coisa dos ligamentos secarem eram mesmo explicação para a chamada pose de morte. Alguns comunicados de imprensa classificaram esse trabalho como sendo "ciência de cozinha." As cozinhas desses repórteres serão de evitar já que uma das experiências consistiu em deixar duas aves apodrecerem em cima de uma bancada durante vários meses.

O trabalha sobre opistotonia foi levado a cabo por Cynthia Marshall Faux e por Kevin Padian, e foi publicado na revista Paleobiology (ref1). Numa tradução livre do resumo:
Uma postura extrema, com hiperextensão dorsal da coluna vertebral (opistótono), caracterizada pelo crânio e pescoço curvados para trás, e forte extensão da cauda, é observada em muitos esqueletos articulados e bem preservados de amniotas (aves e outros dinossauros, pterossauros, e pelo menos mamíferos placentários). Transporte após a morte num meio aquático pode explicar alguns casos de curvatura espinal em tetrápodes fósseis, mas nós mostramos como esses casos se podem distinguir das causas da postura opistótona, que é um síndroma biótico.

Uma pose muito comuns em fósseis, por exemplo de peixes e lagartos, é o arquear lateral. Essa outra postura tem também um nome complicado. É chamada de pleurotótono, e é explicada em muitos casos pelo movimento da água que arrasta as extremidades e leva ao arquear do corpo.
Explicações bióticas tradicionais envolvem quase sempre causas após a morte, que incluem o rigor mortis, a dessecação, e a contracção de tendões e ligamentos. Contudo, a examinação do processo de rigidez cadavérica e observações experimentais da salinidade e dessecação em carcaças de animais modernos mostram ques estas explicações da postura do "pássaro morto" (opistótono) explicam poucos ou nenhuns dos casos. A contracção diferencial dos ligamentos cervicais após a morte também não produz a postura opistótona. Não é a contracção após a morte mas sim os espasmos na proximidade da morte, que resultam de vários traumas do sistema nervoso central que causam estas posturas extremas. Isto é, o opistótono é o resultado dos "estertores da morte", não de processos após a morte, e os indivíduos assim afectados assumem a postura antes da morte, não depois.

As experiências consistiram em deixar apodrecer cadáveres de aves e verificar que após a morte os pescoços não se mexiam, e mesmo o uso de alfinetes em bifes deixados a secar. Em nenhum caso se observou contracção assimétrica devido ao secar de tendões e ligamentos. A tal "ciência de cozinha." Este é um corte radical com o saber tradicional.
A literatura clínica reconhece desde há muito tempo que os indivíduos afligidos dessa forma pereceram por asfixia, falta de alimento ou nutrientes essencias, toxinas ambientais, ou infecções virais, entre outras causas. Aceitar que as causas reais do opistótono são anteriores e não posteriores à morte fornece-nos um vislumbre nas causas de morte dos espécimes fossilizados, e permite rever interpretações das condições paleoambientais de muitos depósitos de fósseis. O opistótono diz-nos mais sobre as circunstâncias que cercaram a morte do que sobre o que sucedeu após a morte.

Sabe-se que muitos destes esqueletos articulados resultam de mortes na sequência de erupções vulcânicas e é asim razoável admitir um cenário de morte por asfixia devido a fumo ou cinzas. Os autores fazem um uso desta descoberta para inferir algo sobre a fisiologia dos dinossauros:
Finalmente, o opistótono parece ter um significado filogenético: até agora foi relatado na sua totalidade em arcossauros ornitodiranos (dinossauros e pterossauros) e nos mamíferos placentários, embora a distribuição nos mamíferos se possa expandir com estudos posteriores. Parece relevante que o opistótono só tenha sido observado extensivamente em clados de animais que se sabe ou se pensa possuirem taxas metabólicas elevadas: a hipóxia e doenças relacionadas afectariam mais provavelmente animais com elevado consumo de oxigénio.

O mecanismo que os autores propõem é que o cerebelo dos animais com elevado consumo de oxigénio, ou seja animais de sangue-quente (endotérmicos), é mais sensível à privação de oxigénio que o cerebelo de animais de baixo metabolismo, habituados a baixos valores de oxigénio de forma regular. A postura com o pescoço arqueado dorsalmente seria assim mais uma evidência de que os dinossauros e pterossauros seriam animais endotérmicos.

Devo confessar que se os autores me convenceram quanto a pose do pescoço encurvado dorsalmente ser devido aos estertores anteriores à morte, a relação com a taxa metabólica precisa de mais trabalho. Entre outras coisas há a questão da postura. Se eu matar um cavalo (não que o tenha feito) ele cai de lado, se matar um lagarto ele aterra de barriga. Os espasmos num lagarto terão assim, na maior parte das vezes, que lutar contra a gravidade. Os resultados quanto aos vários grupos de mamíferos são também um pouco ambíguos. Enfim, há ainda alguns aspectos por esclarecer mas o trabalho parece-me sólido.

Ficha técnica
Imagem do arqueopterix obtida a partir da publicação indicada como abaixo como ref2.
Compsognato cortesia de user:Ballista da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Cynthia Marshall Faux and Kevin Padian (2007). The opisthotonic posture of vertebrate skeletons: postmortem contraction or death throes? Paleobiology, 33(2), pp. 201-226. DOI: 10.1666/06015.1
(ref2) Owen, Richard (1863). On the Archeopteryx of von Meyer, with a decription of the Fossil Remains of a Long-tailed species, from the Lithographic Stone of Solenhofen. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, vol. 153 (1863), pp. 33-47.

sexta-feira, setembro 14, 2007

A velocidade dos dinossauros

Não se deixem enganar pelo mamífero na imagem. Para não variar do tema dos últimos dias, hoje vou voltar aos dinossauros. Os leitores adeptos dos temas ludopédicos terão reconhecido facilmente o rosto da imagem. Trata-se do futebolista inglês David Beckam, agora a jogar nos Estados Unidos da América. Ora o que faz o rosto deste senhor numa contribuição sobre os "sáurios terríveis"? Bem, é que aqui há uns tempos a CNN tinha uma notícia com o curioso título de "Tiranossauro corria mais depressa que David Beckam." Claro que eu tinha que investigar o que estava por trás de tão sugestivas parangonas. Tratava-se de um estudo sobre a biomecânica dos dinossauros. [... ler mais]

Já que falei em tiranossauros e futebol, imaginem o jogo de cabeça de uma criatura destas:

Trabalhos com modelos exigem sempre cautela. Lembro-me sempre daquela velha anedota do físico que constrói um modelo, a pedido de um amigo com uma produção leiteira, para melhorar a produção de leite. O resultado é algo do tipo: "imaginemos uma vaca cilíndrica de comprimento infinito, no vácuo, produzindo leite isotropicamente, a uma taxa constante." Neste caso o modelo é obviamente bastante mais sofisticado, mas não deixa de recorrer a aproximações, e alguns resultados parecem-me suspeitos.

O artigo que estima a velocidade dos dinossauros é da autoria de Sellars e Manning e foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society (ref1). Numa tradução livre do resumo.

A velocidade máxima de corrida é um parâmetro locomotor importante para muitos animais -- tanto predadores como presas -- sendo por isso de interesse para os paleobiólogos interessados em reconstruir a ecologia comportamental de espécies extintas. Tentaram-se no passado uma variedade de aproximações, incluindo comparações anatómicas, o escalar do esqueleto e força, factores de segurança, e análises de forças de reação do solo. Contudo, estas abordagens são todas indirectas e uma abordagem alternativa é criar um modelo músculo-esquelético do animal e ver quão depressa ele consegue correr.

Claro que esta abordagem não deixa de ser indirecta, e com toda uma série de limitações. Por exemplo, e os autores referem isso no texto, o modelo apresentado neste artigo é algo simplificado, pois não leva em linha de conta o armazenar da energia elástica e outros aspectos importantes em animais de grandes dimensões. Por isso a frase seguinte é demasiado optimista:
A grande vantagem desta aproximação é que todas as hipóteses sobre a morfologia e fisiologia do animal são avaliadas directamente, enquanto as mesmas hipóteses estão escondidas nas abordagens indirectas.

Não deixa de ser verdade, mas por outro lado os modelos em geral não reproduzem exactamente a realidade, e as incertezas e simplificações vão reflectir-se nos resultados.
Apresentamos neste artigo modelos músculo-esqueléticos simples de espécies bípedes, três existentes e cinco extintas. Os modelos prevêm a velocidade máxima nas espécies existentes com um acordo razoável com os valores aceites, pelo que concluímos que os valores apresentado para as cinco espécies extintas são previsões razoáveis para as hipóteses feitas nos modelos. Modelos músculo-esquelético melhorados e melhores estimativas dos parâmetros dos tecidos moles produzirão valores mais precisos.

Os autores indicam quase 30 quilómetros por hora como velocidade máxima para o Tyrannosaurus rex, e cerca de 40 quilómetros por hora para outro dinossauro famoso, o Velociraptor mongoliensis. Este último valor parece-me algo exagerado, mas há uma estimativa que me parece mesmo muito suspeita. É que, segundo o estudo, os animais mais rápidos seriam os mais pequenos de todos. Em particular esta criatura, um Compsognathus longipes.

Eestamos a falar de um animal do tamanho de uma galinha que correria a cerca de 60 quilómetros por hora! Com as pernas relativamente curtas, para atingir tal velocidade, este animal teria que dar cerca de 60 passadas por segundo. Há animais pequenos e rápidos, como os coelhos, mas essas criaturas funcionam essencialmente como uma mola e não podem ser aproximadas por este tipo modelos (que aliás foram feitos expressamente para bípedes).

O modelo parece-me apenas uma aproximação a um problema complexo, um ponto de partida. Os valores devem ser encarados com cautela. O importante é a indicação de que todos estes animais seriam capazes de correr depressa. Pelo menos a imagem de um tiranossauro a perseguir e apanhar o Beckam tem o seu quê de divertido.

Ficha técnica
Imagem de David Beckam via Wikimedia Commons.
Ilustrações de dinossauros cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons, aqui e aqui.

Referências
(ref1) Sellars, W.I. & P.L. Manning (2007). Estimating dinosaur maximum running speeds using evolutionary robotic. Proceedings of the Royal Society B. DOI: 10.1098/rspb.2007.0846.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Não estiquem as pernas ao bicho!

Toda esta série sobre os alegados ladrões de ovos tem que ver com uma descoberta recente. Quando voltei da minha busca de chá pelas Nilgiris, um amigo meu mostrou-me um artigo e saiu-se com um lamento "vê só o que fizeram aos joelhos do bicho". A imagem que me mostrou era esta, e eu fiquei tão embascacado que nem liguei aos joelhos da criatura. Esta coisa era um ovirraptor gigante. Baptizado como Gigantoraptor erlianensis, teria vivido cerca de 70 milhões de anos atrás. Este animal seria capaz de olhar um tiranossauro directamente olhos nos olhos (se não se desse o caso de viver noutro continente). Só depois de olhar um bom bocado me lembrei do joelho e notei de facto algo estranho na perna esquerda do bicho. A ilustração fica mais sensacionalista com a silhueta do homem debaixo do animal, só que o Gigantoraptor não conseguiria articular naturalmente as pernas por forma a que ficassem tão direitas.[... ler mais]

O ovirraptor gigante é descrito num artigo de Xu e colegas na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Relatamos aqui sobre um dinossauro não-aviano, Gigantoraptor erlianensis, género e espécie novos, do Cretácico Tardio da Formação de Iren Dabasu de Nei Mongol, na China. Apesar de possuir uma massa corporal de cerca de 1,400 kg, uma análise filogenética posiciona este novo táxon nos Oviraptorosauria, um grupo de pequenos terópodes com penas raramente excedendo 40 kg de massa corporal.

O peso em si é surpreendente pois para um animal com a anca a mais de 3 metros e meio de altura, significa que é uma criatura muito grácil.
Uma análise histológica sugere que o Gigantoraptor atingia este peso graças a uma taxa de crescimento consideravelmente mais rápida que os grandes tiranossauros americanos tais como o Albertosaurus e o Gorgosaurus.

Eu falei aqui sobre esse estudo da idade dos tiranossauros. Os autores estimaram a idade que o Gigantoraptor teria quando morreu através da estrutura dos ossos. O animal teria morrido com 11 anos, e tudo indica que fosse um adulto, se bem que jovem, podendo crescer um pouco mais.
O Gigantoraptor possui diversas características salientes ateriormente desconhecidas noutros dinossauros e as proporções e factores de escala dos seus ossos dos membros posteriores são significativamente distintos dos de outros celurossauros, desta forma aumentando a diversidade morfológica entre os dinossauros.

As proporções dos ossos das pernas indicam que seria um animal bastante rápido quando comparado a outros terópodes do seu tamanho. Noutros grupos de terópodes observa-se que os animais maiores possuem proporções que indicam menor ligeireza que os animais menores. Contrariando essa tendência o Gigantoraptor possui proporções semelhantes às dos ovirraptores mais pequenos. Mas não é apenas aqui que os oviraptorossauros parecem ir contra as tendências observadas noutros grupos de terópodes.
Mais significativo ainda, o gigantesco Gigantoraptor mostra muitas características semelhantes às das aves que estão ausente nos seus parentes ovirraptorossaurianos menores, contrariando a tendência evolutiva vista em muitos outros grupos celurossaurianos.

Os aspectos avianos do Gigantoraptor são convergências, pois não são partilhados com membros mais primitivos do grupo. O interessante é que esta tendência é oposta a uma espécie de regra que se observava noutros grupos de terópodes. Aqui aplica-se aquela famosa frase que se contradiz a ela própria: "não há regra sem excepção". O Gigantoraptor é a excepção a várias regras.

Eis aqui uma ilustração do aspecto que o animal teria em vida.

Cerca de 300 vezes mais pesado que o Caudipteryx, não é seguro que este gigante tivesse penas, mas isso seria possível, sobretudo se pensarmos no quão leve o animal era para o tamanho que tinha. Uma criatura bizarra e surpreendente.

Ficha técnica
Ilustração do animal em vida cortesia de Arthur Weasley, retirada da Wikimedia Commons

Referências
(ref1) Xu, X., Tan, Q., Wang, J., Zhao, X., and Tan, L. (2007). A gigantic bird-like dinosaur from the Late Cretaceous of China. Nature 447:844-847. doi: 10.1038/nature05849.

quarta-feira, setembro 12, 2007

As penas dos ladrões de ovos

Esta é uma imagem é de um fóssil de dinossauro terópode, o Caudipteryx zoui, que terá vivido há qualquer coisa como 127 milhões de anos atrás no que é agora a China. Era um animal pequeno, a barra negra representa um centímetro. Se olharem com atenção poderão ver penas neste fóssil. Para lá de uma cobertura plumosa em todo o corpo há penas de maiores dimensões nos membros anteriores e na cauda. Apesar das penas, o animal não é considerado uma ave por razões históricas. A definição mais usual do grupo filogenético conhecido por Aves inclui todos os descendentes do antepassado comum mais recente da passarada que existe hoje em dia mais o arqueopterix. Se em vez do arqueopterix o primeiro fóssil de um dinossauro com penas a ser encontrado tivesse sido o Caudipteryx a definição de aves englobaria, imaginem vocês, os ovirraptores. [... ler mais]

O artigo que descreve esta espécie de dinossauro é da autoria de Ji Qiang e foi publicado na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A controvérsia actual sobre a origem e evolução inicial das aves centra-se em saber se elas derivaram ou não de dinossauros terópodes celurossarianos. Descrevemos aqui dois terópodes da Formação de Chaomidianzi do Jurássico Superior/Cretácico Inferior da Província de Liaoning, na China. Apesar de ambos os terópodes possuirem penas, é provável que nenhum deles fosse capaz de voar. Análises filogenéticas indicam que ambos são mais primitivos que o mais antigo avialano (ave) conhecido, o Archaeopteryx. Estes novos fósseis representam estádios na evolução das aves a partir de dinossauros bípedes com penas que viviam no solo.

Os dois fósseis foram baptizados como Protarchaeopteryx robusta e Caudipteryx zoui. Possuiam plumagem, que no caso do Caudipteryx incluía mesmo um penacho de penas na cauda. Uma reconstrução da autoria do artista Joe Tucciarone mostra o aspecto que a criatura teria em vida. Apesar de possuirem penas estes animais encontravam-se fora da definição usual do grupo filogenético chamado Aves, mas pelo menos um deles faz parte da linhagem evolutiva dos animais que tenho abordado nas últimas contribuições. O Caudipteryx, os ovirraptores e um certo número de animais afins, possuem um certo número de semelhanças no esqueleto que os agrupam num clado filogenético a que se chama Oviraptorosauria. A posição filogenética do Caudipteryx mostra assim que é perfeitamente razoável incluir penas nas reconstruções dos ovirraptores. Não seriam aves de acordo com a definição em senso estrito mas teriam o seu quê de aviano, algo que os seus hábitos de nidificação já deixavam antever.

O Caudipteryx era um animal relativamente pequeno, do tamanho aproximado de um pavão. Mesmo os seus primos ovirraptores em geral não impressionavam por aí além no que se refere à corpulência. Raramente ultrapassariam os 40 kg de peso . Este grupo de animais fez no entanto pelo menos uma incursão pelo gigantismo e é com isso que terminarei esta série de contribuições sobre os alegados ladrões de ovos. Amanhã há mais ovirraptores, os maiores de todos.

Referências
(ref1) Ji Qiang, Philip J. Currie, Mark A. Norell and Ji Shu-An (1998). Two feathered dinosaurs from northeastern China. Nature 393, 753-761. DOI:10.1038/31635.

terça-feira, setembro 11, 2007

O pretenso ladrão que afinal apenas queria cuidar dos seus ovos

Esta é uma mão de ovirraptor. Notem a forma dos dedos, que incluem mesmo vestígios da cobertura de queratina das enormes garras que ornamentavam os membros anteriores destes animais. Junto a esta mão podem ver-se alguns ovos. Esta é uma cena comum, e o nome da primeira espécie deste grupo de animais a ser baptizada esconde uma acusação: Oviraptor philoceratops significa "ladrão de ovos que aprecia os de cerátopo". Essa foi a interpretação dada em 1923 a uma cena deste tipo. Contudo, como referi na última contribuição, descobriu-se em 1993 que afinal os tais ovos de cerátopo eram de ovirraptor. Isso sugeriu aos investigadores que em vez de um predador de ovos, este tipo de associação era indicativo de cuidados parentais. O fóssil a que pertence esta mão mostra isso de forma pungente. Trata-se de uma descoberta fabulosa: como que congelado no tempo, temos um animal que morreu abraçando 20 dos seus ovos. [... ler mais]

Este fóssil é descrito num artigo de James Matthew Clark, Mark Norell e Luis M. Chiappe na revista American Museum novitates (ref1). Numa tradução livre do resumo:

O esqueleto pós-craniano, articulado, de um dinossauro ovirraptorídeo (Theropoda, Coelurosauria) do Cretácico Tardio da Formação de Djadokhta de Ukhaa Tolgod, na Mongólia, encontra-se preservado cobrindo um ninho. Os ovos são semelhantes em tamanho, forma, e ornamentação a um outro ovo desta localidade no qual foi encontrado um embrião de ovirraptorídeo, sugerindo que o ninho é da mesma espécie que o esqueleto adulto que o está a cobrir, e que o adulto é o progenitor. A falta de um crânio impede a identificação da espécie mas em várias características o exemplar assemelha-se mais ao Oviraptor que a outros ovirraptorídeos.

Segue-se a descrição de algumas características anatómicas e finalmente a descrição do exemplar em questão:
O esqueleto encontra-se posicionado no centro do ninho, com os seus membros colocados simetricamente em cada lado e os braços espalham-se em torno do perímetro do ninho. Este é um de quatro esqueletos de ovirraptorídeos preservados em ninhos deste tipo de ovo, corrrespondendo a 23.5% dos 17 esqueletos de ovirraptorídeos recolhidos da Formação de Djadokhta antes de 1996.

Uma imagem vale de facto por mil palavras, e neste caso é qualquer coisa de verdadeiramente sublime:

O resumo termina então com:
A falta de perturbação do ninho, e do esqueleto, indicam que o exemplar se econtra preservado na posição em que o adulto morreu. A sua postura é a mesma que, entre os tetrápodes que cuidam dos seus ninhos, apenas as aves adoptam, e a sua proximidade aos ovos indica que o ninho não estava coberto, indicando que o comportamento de se sentar em ninhos abertos, nesta postura, evoluíu antes do antepassado comum mais recente das aves modernas.

Outros exemplos de ovirraptores em ninhos, discutidos no artigo, mostram algo de semelhante: o animal com os pés no centro do ninho e os braços em redor dos ovos. É assombrosa a semelhança com o que vemos nas aves. Esta é uma daquelas raras descobertas que evidenciam um comportamento animal e o facto desta postura ter sido encontrada em quatro animais é uma forte indicação de que se tratava de um comportamento típico da espécie, e não uma coincidência fortuita.

Esta descoberta é também rara porque os vestígios mostram poucas evidências de terem sido perturbados. É referido no artigo que a sedimentologia deste fóssil e dos outros três encontrados em poses semelhantes, sugere que foram enterrados de forma súbita, muito provavelmente em resultado de chuva intensa.

Luis Rey produziu algumas ilustrações referentes à morte deste animal. Esta reflecte a visão inicial, de um animal sepultado por uma gigantesca tempestade de areia. Esta reflecte a visão mais recente, de que teria sido uma cheia relâmpago. Notem o rebanho de Protoceratops no fundo da ilustração. Na verdade, Luis Rey produziu uma trilogia sobre os ovirraptores. A minha preferida é uma cena familiar, com um mãe ovirraptor a alimentar os seus pequenitos.

As três ilustrações de Luis Rey mostram plumagem de tipo aviano nos ovirraptores. Sendo terópodes, os ovirraptores são parentes próximos das aves e, estando a criatura a cobrir os ovos com os braços, algo semelhante às penas de uma asa daria jeito. Na verdade, não se trata de algo tão especulativo como se poderia pensar. É que se viria a descobrir, na China, um animal classificado no grupo dos velocirraptores com vestígios claros de penas. Falarei disso na próxima contribuição.

Referências
(ref1) James Matthew Clark, Mark Norell e Luis M. Chiappe (1999). An oviraptorid skeleton from the late Cretaceous of Ukhaa Tolgod, Mongolia, preserved in an avianlike brooding position over an oviraptorid nest. American Museum novitates no. 3265. PDF.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Quando dos ovos das faces cornudas saem bebés de ladrões de ovos

Este é um vestígio fóssil de um dos tais "ovos de protocerátopo" encontrados na Mongólia. O que esta casca com milhões de anos, descoberta em 1993, tem de interessante é que cobre o esqueleto de um pequeníssimo embrião de dinossauro. A partir desse embrião foi possível identificar o grupo de animais a que pertenciam os ovos. Verificou-se então que a ressalva que Henry Fairfield Osborn tinha colocado no artigo em que baptizava o Oviraptor philoceratops estava correcta. É que o embrião dentro dos ovos não era de uma das "primeiras faces com cornos". Os progenitores dos "ovos de protocerátopo" eram afinal ovirraptores. [... ler mais]

Eis aqui os pequenos ossos escondidos dentro deste ovo:

O artigo mais detalhado sobre este embrião seria publicado em 2001 por Mark Norell, James Clark e Luis Chiappe na revista American Musuem novitates (ref1), ou seja a mesma revista em que muitos anos antes se tinha baptizado o ovirraptor. Numa tradução livre do resumo.

Descreve-se um esqueleto embriónico ovirraptorídeo dentro de um ovo do Cretácico Tardio da formação Djadokha de Ukhaa Tolgod, na Mongólia. O exemplar compreende a parte ventral do crânio e a maior parte da mandíbula, um esqueleto axial pobremente preservado a que falta a maior parte da cauda, partes dos membros anteriores, cintura escapulare, cintura pélvica, e membros posteriores. O crânio é claramente referenciável ao clado de dinossauros terópodes Oviraptoridae com base em várias especializações do crânio (sem dentes, pré-maxila orientada verticalmente, mandíbula inferior com formato sinusoidal, e uma articulação pouco usual do vómer e pré-maxila.), e o esqueleto pós-craniano é consistente com esta identificação.

Ou seja, não há ambiguidade na identificação, este é um ovo de ovirraptorídeo. A natureza do ovo também é reminiscente dos outros ovos encontrados anteriormente:
O ovo é equivalente na forma global e na microstrutura aos que foram encontrados debaixo de vários esqueletos de ovirraptorídeos recuperados na mesma formação.

Ora um ovirraptor num ninho com ovos de ovirraptor faz-nos pensar no progenitor e não num ladrão de ovos. Falarei disso na contribuição que se segue.

Referências
(ref1) Mark Norell, James Matthew Clark, Luis M. Chiappe (2001). An embryonic oviraptorid (Dinosauria, Theropoda) from the Upper Cretaceous of Mongolia. American Museum novitates no. 3315. PDF.

domingo, setembro 09, 2007

O alegado ladrão de ovos

A expedição de Roy Chapman Andrews à Mongólia encontrou outros dinossauros na vizinhança dos protocerátopos e dos ninhos que lhes foram atribuídos. Entre os outros animais encontrados estava a criatura ilustrada na imagem ao lado, um pequeno dinossauro terópode bípede, com uma estranha cabeça. Ainda hoje, quase um século após a descoberta inicial, a função dos bicos peculiares destes animais é motivo para especulação. Os primeiros fósseis deste dinossauro foram descritos em 1924, tendo sido baptizados de Oviraptor philoceratops, que significa "ladrão de ovos com apreço pelos de cerátopo". Trata-se de um nome que atribui um comportamento bem determinado ao animal, mas que é baseado em evidência puramente circunstancial. [... ler mais]

O artigo que descreve a descoberta do ovirraptor é da autoria de Henry Fairfield Osborn, Peter Kaisen e George Olsen e foi publicado no American Museum novitates (ref1). Começa com uma pequena referência a três fantásticas descobertas:

Em 1923, nos arenitos vermelhos de Djadochta em Shabarakh Usu, descobriram-se três novos tipos notáveis de pequenos dinossauros relacionados aos Theropoda. Todos os três tipos são aproximadamente da mesma idade geológica, nomeadamente a zona que encaramos como próxima do início do Cretácico Superior. Os crânios são inteiramente distintos e extraordinariamente interessantes.

Os outros dois dinossauros são também bastante famosos, mas o que nos interessa para já é este:
Os nomes genérico e específico deste animal, Oviraptor, que significa "ladrão de ovos," philoceratops, que significa "apreço pelos de ceratops," podem enganar-nos completamente quanto aos seus hábitos alimentares e denegrir o seu carácter. Os nomes são atribuídos porque o crânio-tipo (Amer. Mus. 6517) foi encontrado jazendo directamente sobre um ninho de ovos de dinossauro, o exemplar fotografado estava na verdade separado dos ovos por apenas quatro polegadas de matriz. Isto colocou imediatamente o animal sob suspeita de ter sido surpreendido por uma tempestade de areia em pleno acto de roubar o ninho de dinossauro.
É curioso ler a frase que destaquei a negrito, pois, qualquer coisa como 70 anos depois deste artigo, foi o que se verificou ter de facto acontecido. Tem tudo a ver com um embrião descoberto dentro de um tais "ovos de protocerátopo" de que falarei na próxima contribuição.

Ficha técnica
Busto de Oviraptor philoceratops cortesia de Matt Martyniuk, obtido a partir da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Henry Fairfield Osborn, Peter C. Kaisen e George Olsen (1924). Three new Theropoda, Protoceratops zone, central Mongolia. American Museum novitates no. 144. PDF.

A primeira face com cornos

Enquanto estive fora houve imensas novidades no mundo dos dinossauros. Antes de me debruçar sobre uma delas, convém no entanto recuar um pouco na literatura. Nos já longíquos anos de 1920 um senhor chamado Roy Chapman Andrews partiu para a Mongólia, chefiando uma expedição do Museu Americano de História Natural em busca de antepassados do Homem. Não encontrou homens primitivos mas sim muitos animais já extintos. Ao percorrer o deserto do Gobi, a expedição deu de caras com os fósseis de animais cujo crânio se mostra na imagem, com um rosto terminado com um forte bico e um pescoço coberto por um longo capuz cefálico. Estes animais foram descritos pouco tempo depois, e baptizados com o nome Protoceratops andrewsi. O nome genérico, protocerátopo, significa "primeira face com cornos", que é um nome de certa forma curioso pois o animal não possuía cornos. Os cientistas perceberam no entanto que este animal era a chave para compreender os ceratopídeos do final do Cretácico da América do Norte, esses sim dotados de cornos imensos. [... ler mais]

Comparado aos seus primos norte-americanos, gigantes de várias toneladas, o protocerátopo era um animal pequeno, de tamanho semelhante a uma ovelha. Terá vivido há cerca de 80 milhões de anos numa paisagem dominada por dunas e teria mais ou menos este aspecto:

O primeiro protocerátopo foi descrito por Walter Granger, William King Gregory e Charles Peter Berkey, em 1923, num artigo publicado na revista American Museum novitates. O artigo começa com estas frases, que não fazem jus à aventura que deve ter sido ir, nessa época, a uma região tão remota do planeta:

O exemplar tipo de Protoceratops andrewsi, novo género, nova espécie, foi descoberto a 2 de Setembro de 1922 pelo grupo de Granger no trilho de Kwei-wa-ting, a este de Artsa Bogdo, na Mongólia, durante um levantamento geológico e paleontológico preliminar levado a cabo pela Terceira Expedição Asiática do Museu Americano de História Natural. O exemplar consiste num crânio, faltando-lhe o occipital. Foi encontrado pelo senhor Shackelford em xistos expostos numa formação que foi de forma provisória atribuída ao Cretácico pelo Professor Berkey.

O tal senhor Shackelford, que avistou o primeiro exemplar, era fotógrafo na expedição. Não se trata do animal que mostro na imagem do início da contribuição, que é um adulto. O animal que Walter Granger e colegas descreveram era um juvenil. O nome dado à espécie é uma homenagem óbvia:
Por tudo isso temos todo o prazer em dedicar este importante exemplar-tipo ao senhor Roy C. Andrews em reconhecimento das suas esplêndidas qualidades como o organizador e líder da Terceira Expedição Asiática do Museu Americano.

Roy Chapman Andrews é o protótipo do explorador destemido, capaz de enfrentar as vicissitudes da natureza, grupos de bandidos, e qualquer outra coisa qe lhe surja pela frente. É muitíssimo famoso, e a sua expedição deu de caras com uma fabulosa sequência de fósseis. Foram recuperadas dezenas de exemplares, em vários estádios de crescimento, o que permitiu estudos detalhados. Esse acervo de protocerátopos foi descrito pouco tempo depois, em 1925 num segundo artigo, da autoria de William King Gregory e Charles Craig Mook, também na revista American Museum novitates. É desse artigo que retirei a imagem no início da contribuição, e ainda esta aqui, notável, de um exemplar com um esqueleto quase completo e articulado.

Junto a estes protocerátopos foram também descobertos ninhos com ovos alongados. Ora uma abundância de ninhos em ajuntamentos dominados por esqueletos de protocerátopos levou à associação óbvia: tratava-se de ovos de protocerátopo. Não espanta por isso que os museus exibissem montagens como esta, criada em 1935 no Museu Americano de História Natural, que mostra Protoceratops andrewsi na vizinhança dos tais ninhos.

Sabe-se contudo, desde há alguns anos, que esta associação é incorrecta e que levou à designação algo injusta de todo um outro grupo de dinossauros. Mas isso fica para a próxima contribuição que esta já vai longa.

Ficha técnica
Ilustração de protocerátopo cortesia de Arthur Weasley, a partir da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Walter Granger, William King Gregory e Charles Peter Berkey (1923). Protoceratops andrewsi, a pre-ceratopsian dinosaur from Mongolia. American Museum novitates no.72. PDF
(ref2) William King Gregory e Charles Craig Mook (1925). On Protoceratops, a primitive ceratopsian dinosaur from the Lower Cretaceous of Mongolia. American Museum novitates no. 156. PDF