quarta-feira, dezembro 20, 2006

O Mundo do Hobbit: dragões filhos da mãe

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A ratazana gigante das Flores não foi o único gigante contemporâneo dos hominíneos floresienses a sobreviver até hoje. No mundo do hobbit existiam dragões, lagartos gigantes da espécie Varanus komodoensis, os predadores no topo da cadeia alimentar nas Flores e nalgumas ilhas vizinhas. Com cerca de três metros de comprimento, e pesando por volta de 70 kg, deviam parecer ainda mais aterradores aos diminutos floresienses do que nos parecem a nós. Ora nesta época natalícia foi desvendado um mistério relativo ao nascimento destes animais. Parece que o pequenito da figura não tem pai, ou melhor, que o seu pai é a sua mãe. Descobriu-se agora que nesta espécie fêmeas virgens podem dar luz ninhadas só de meninos. [... ler mais]

Este espécie de milagre reptiliano é descrita num artigo de Phillip C. Watts e colegas na revista Nature (ref1) desta semana. Numa tradução livre do resumo:
Deverão machos e fêmeas serem guardados juntos para evitar o despoletar do nascimento virgem nestes répteis ameaçados?

A partenogénese, a produção de descendência sem fertilização por um macho, é rara nas espécies vertebradas, que usualmente se reproduzem após fusão de gâmetas masculinos e femininos. Usamos aqui impressões genéticas para identificar descendência partenogenética produzida por dois dragões Komodo fêmeas (Varanus komodoensis) mantidos em insituições separadas e isoladas dos machos; subsequentemente uma dessas fêmeas produziu descendência adicional de forma sexuada. Esta plasticidade reprodutiva indica que os dragões fêmeas podem trocar entre reprodução sexuada e assexuada, dependendo da disponibilidade de um parceiro — uma descoberta que tem implicações para a reprodução em cativeiro desta espécie ameaçada. Muitos zoológicos mantêm apenas fêmeas, sendo os machos transferidos entre zoológicos para acasalarem, mas talvez devessem ser mantidos juntos para evitar o despoletar da partenogénese, e a redução da diversidade genética.

Uma das fêmea, a já falecida Sungai, que vivia no Jardim Zoológico de Londres, tinha causado surpresa ao produzir 22 ovos, 4 dos quais viáveis, cerca de dois anos e meio após ter estado com um macho. Na altura pensou-se que os dragões fêmeas talvez fossem capazes de armazenar esperma durante longos períodos de tempo. Só que um acontecimento recente mostrou que não foi isso que sucedeu.

No Jardim Zoológico de Chester, no Reino Unido, vive uma outra fêmea, a Flora. Ora esta fêmea nunca esteve com um macho, mas isso não a impediu de produzir 25 ovos, dos quais 11 pareciam viáveis e foram colocados para incubação. Três desses ovos quebraram-se e a análise genética desses ovos mostrou aquilo que se esperava: eram todos filhos apenas da mãe. A análise dos embriões da Flora, e dos descendentes da Sungai mostrou que os animais produzidos na ausência de um parceiro eram partenogenéticos: o genótipo reconstruído a partir dos descendentes era o das mães.

Reprodução assexuada não que no entanto dizer clones, ou seja cópias exactas da mãe. O óvulo é uma estrutura haplóide, isto é, possui apenas um cromossoma de cada par que existia originalmente na mãe. Na reprodução sexuada o espermatozóide, também haplóide, contribui com um cromossoma de cada par existente no pai para formar um organismo em que os cromossomas vêm aos pares, ou seja diplóide. O que sucede na partenogénese dos dragões é que o óvulo é acompanhado por uma célula, um dos corpos polares, que tem exactamente os mesmos cromossomas. Em geral essa célula degenera, mas no processo partenogenético em vez disso funde-se com o óvulo, dando origem a um ovo fertilizado. Os animais assim produzidos são completamente homozigóticos, ou seja os cromossomas num par são idênticos. Isso acarreta uma consequência curiosa: todos os dragões produzidos neste processo são machos. Nos dragões os cromossomas sexuais são designados por Z e W, e são as fêmeas que têm ambas as formas, são ZW, enquanto os machos são ZZ. Como resultado do processo de partenogénese os cromossomas são duplicados, ou seja produzem-se ZZ ou WW (não viáveis), logo nenhumas fêmeas.

O mecanismo tem algum valor adaptativo. Uma fêmea isolada pode reproduzir-se assexuadamente dando origem a um grupo de machos com os quais pode depois retomar um processo de reprodução sexuada. É um processo apesar de tudo raro nos vertebrados. Ocorre, por exemplo, nalgumas espécies de cobras e lagartos.

Os oito bebés da Flora são esperados nos próximos dias. Trata-se de um verdadeiro conto de Natal.

Referências
(ref1) Phillip C. Watts, Kevin R. Buley, Stephanie Sanderson, Wayne Boardman, Claudio Ciofi and Richard Gibson (2006). Parthenogenesis in Komodo dragons. Nature 444, 1021-1022. Laço DOI.

1 comentários:

victor simoes disse...

Boas Festas, Bom Ano 2007.
Continuação de boas postagens.