sábado, dezembro 09, 2006

Morrer na selva

Esta imagem de uma fêmea de Gorilla gorilla com a sua pequena cria foi tirada num jardim zoológico. Gorilas semelhantes a este continuam a deambular pelas selvas africanas. Infelizmente talvez não o façam durante muito mais tempo. Acossados pelos seres humanos, as populações já algo reduzidas de gorilas talvez não consigam sobreviver a uma outra ameaça: o Ébola. Eu tinha referido há algum tempo o facto de gorilas e chimpanzés serem afectados pelos surtos de ébola, e que se suspeitava que a doença fosse transmitida por morcegos frugívoros. Na altura não avancei números. Pois bem, os valores acabam de sair, e são devastadores. [... ler mais]

O trabalho de Magdalena Bermejo e colegas é descrito num artigo de apenas uma página na revista Science (ref1) . Numa tradução livre do resumo:

Ao longo do último decénio, a estirpe zairense do vírus do ébola (ZEBOV) tem aparecido repetidamente no Gabão e no Congo. Cada surto entre os seres humanos tem sido acompanhado por relatos de cadáveres de gorilas e chimpanzés nas florestas vizinhas, mas quer a extensão da mortalidade entre os antropóides quer o papel causal do ZEBOV têm sido debatidos de forma acalorada. Apresentamos aqui dados que sugerem que em 2002 e 2003 o ZEBOV matou cerca de 5,000 gorilas na nossa área de estudo. O atraso entre o começo da mortalidade entre grupos vizinhos de gorilas era semelhante ao ciclo da doença do ZEBOV, evidência de que a transmissão grupo-a-grupo amplificou a mortandade entre os gorilas.

Se os números totais são um pouco difíceis de interpretar, os números relativos não deixam dúvidas: 90 a 95% dos animais na área. Os cientistas estavam a estudar, desde 1995, um conjunto de dez grupos sociais, que em 2002 incluiam 143 indivíduos. Pois bem, no seguimento de um surto de ébola nos seres humanos no final de 2001 e início de 2002, foi detectado um cadáver de gorila em Junho de 2002 a poucos km do santuário onde os cientistas efectuavam os estudos. Em Outubro do mesmo ano apareceram os primeiros cadáveres dentro do santuário. De Outubro de 2002 a Janeiro de 2003, desapareceram 130 dos 143 gorilas no grupo de estudo, ou seja 91% dos indivíduos. Algo semelhante sucedeu alguns meses depois. Os cientistas estavam a seguir então sete novos grupos. Um cadáver apareceu em Junho de 2003 a sul do santuário, e cadáveres começaram a surgir no santuário em Setembro do mesmo ano. O ébola espalhou-se de forma progressiva de norte para sul, matando, entre Outubro de 2003 a Janeiro de 2004, 91 dos 95 animais nestes novos grupos, ou seja 95% dos indivíduos. A estimativa dos 5,000 gorilas mortos tem a ver com a contagem dos ninhos de gorilas. Os autores notaram uma redução de 96% nas taxas de ocupação antes e depois dos surtos de ébola. Uma contagem semelhante de ninhos de chimpanzés mostrou uma queda de 83%, embora nesse caso haja uma incerteza maior.

Os autores notaram algo que ajuda a estabelecer o mecanismo de transmissão. O tempo que a doença demorava a passar de um grupo de gorilas a outro (11.2 dias) era quase exactamente igual ao período típico de incubação da doença que anda por volta dos 12 dias. Isto sugere claramente que não se trata simplesmente de uma fonte comum da doença que tenha afectados os diferentes grupos. A doença mostra um padrão que sugere que os animais se infectaram uns aos outros, não apenas dentro de um grupo, mas também de um grupo para outro grupo.

Os autores terminam o curto artigo com uma conclusão nada animadora:
Esperamos que este estudo dissipe quaisquer dúvidas quanto ao facto de que o ZEBOV tenha causado uma mortalidade imensa de gorilas. Os surtos de Lossi mataram tantos gorilas como os que sobrevivem na espécie oriental (Gorilla beringei). Contudo, as perdas em Lossi representam apenas uma pequena fracção dos gorilas ocidentais mortos pelo ZEBOV no último decénio, ou mesmo do número em risco para os próximos cinco anos. Se juntarmos a caça comercial a esta mistura, temos a receita para uma rápida extinção ecológica. Espécies de antropóides que eram abundantes e amplamenta distribuídas um decénio atrás estão a ser reduzidas rapidamente a pequenas populações remanescentes.


Ficha técnica
Imagem da gorila e sua cria retirada da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1)Magdalena Bermejo, José Domingo Rodríguez-Teijeiro, Germán Illera, Alex Barroso, Carles Vilà, and Peter D. Walsh (2006). Ebola Outbreak Killed 5000 Gorillas. Science, Vol. 314. no. 5805, p. 1564. Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

Além de profundamente triste, a notícia é particularmente alarmante. Se o raio do hantavírus é capaz de se propagar entre comunidades espaçadas de primatas, é bom não esquecer que o "sapiens" (como eu detesto essa denominação!...) é um primata, também.

Considerando a razia que a SIDA está fazendo na África, só nos falta um Ebola mais ágil. E, de lá para o resto do mundo...

Estou cá a ter visões apocalípticas...