sábado, setembro 30, 2006

É fácil trepar e manter-se agarrado com adesivos nas patas

Eis-me de regresso de férias. Para voltar às lides nada melhor que algumas das mais fascinantes criaturas à face da Terra: as tarântulas. A imagem mostra uma fêmea de Aphonopelma seemanni, uma aranha que se pode apelidar de belíssima. Possui umas listras creme ao longo das patas e uma pelagem que sob a luz apropriada ganha uma tonalidade azul. A escala na imagem corresponde a 5 milímetros, pelo que esta é uma aranha bem grandinha. As aranhas utilizam um sistema de aderência que se baseia nas forças de van der Waals geradas por uma míriade de pequenos pêlos que possuem nos pés. Esse mecanismo é complementado com pequenas garras que se agarram ao substrato. São essas pequenas garras e pés peludos que permitem às aranhas treparem às paredes e ficarem agarradas nos tectos. Os cientistas descobriram agora que uma aranha grande como a Aphonopelma seemanni recorre a outro truque: usa adesivos. Essa aranha produz secreções fibrosas, a partir de uma espécie de pequenas mangueiras existentes nos seus pés, que lhe permitem aderir às superfícies. [... ler mais]

As propriedades adesivas das aranhas foram descobertas por Stanislav Gorb e colegas que descrevem o achado na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

As aranhas tecem seda com estruturas especializadas conhecidas como fiandeiras abdominais, uma característica que define as criaturas, e esta é utilizada para capturar presas, protecção, reprodução e dispersão.

As fiandeiras situam-se no final do abdómen, antes do ânus. O seu número pode variar entre um a três pares. A seda das aranhas é produzida nas glândulas sericígenas, e sai através de tubos minúsculos, as fúsulas, que se localizam nas extremidades das fiandeiras e nos seus declives laterais. Eis aqui uma imagem de uma aranha da espécie Araneus diadematus, atarefada a construir ou reparar uma teia, onde se podem ver bem a origem dos fios de seda e a posição das fiandeiras.

Ora as tarântulas são capazes de produzir seda noutros locais que não na extremidade do abdómen.
Mostramos aqui que as tarântulas-zebra (Aphonopelma seemanni) da Costa Rica também secretam seda dos seus pés para providenciar adesão durante a locomoção, permitindo a estas aranhas agarrar-se a superfícies verticais lisas. A nossa descoberta de que a seda é produzida pelos pés fornece uma nova perpesctiva acerca da origem e diversificação da seda das aranhas.

A imagem ao lado mostra o rasto de fibras, indicadas pelas setas brancas, deixadas por uma aranha ao deslizar por uma superfície vertical de vidro abaixo. A seta negra indica a direcção do deslizamento. As grandes manchas brancas na parte direita da imagem são as partes distais dos tarsos da aranha (extremidades dos pés). Têm aquele aspecto por estarem cobertas de pêlos e pelos pequenos espigões que produzem seda. A escala é meio milímetro. A seda é excretada como um fluido viscoso que solidifica colando o fio ao substrato, permitindo à aranha agarrar-se mesmo a algo tão liso como vidro.

Embora o artigo seja muito curto os autores tecem algumas considerações sobre se a produção de seda nos pés não seria a condição ancestral nas aranhas, que teria sido perdida nas outras espécies. Alternativamente sugerem que poderia ser algo que surgiu apenas neste grupo de aranhas mais pesadas para evitar quedas que poderiam ter resultados catastróficos (e aqui vem-me ao espírito um onomatopaico splosh!). Esta é uma questão que, ainda segundo os autores, poderá ser resolvida com estudos genéticos para ver se as proteínas das sedas dos tarsos e das fiandeiras são codificadas pela mesma família de genes.

O extraordinário nesta história é que, como indicado nos news@nature.com da autoria de Narelle Towie na Nature (ref2), a descoberta foi em grande parte fruto do acaso. Os cientistas, do instituto Max Planck para a Ciência do Desenvolvimento, estavam a estudar a locomoção das aranhas, e durante uma pausa um técnico esqueceu-se da câmara de filmar ligada. Narelle Towie cita então um dos autores do estudo, Stanislav Gorb:
"Quando voltámos de uma pausa, e vimos o filme, encontrámos o resíduo na área do vidro onde a aranha tinha estado a andar."

A Aphonopelma seemanni é particularmente fotogénica, e uma galeria de imagens pode ser encontrada aqui. É um animal que se pode manter em casa num "aranhário", se bem que seja bastante agressiva e os entusiastas recomendem experência com espécies de tarântulas mais dóceis antes de adquirir uma.

Para quem aprecie um animal de estimação que não necessite de muitos cuidados, apenas um grilo vivo de tempos a tempos, as tarântulas são o ideal. Em especial porque há muito por onde escolher. Afinal quem não gostaria de possuir uma Avicularia minatrix, uma Brachypelma smithi, ou ainda uma Pamphobeteus platyomma. Mas a que realmente me deixa tentado é a Aphonopelma bicoloratum. Completamente irresistível.

Ficha técnica
Imagem de Araneus diadematus retirada desta página da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Stanislav N Gorb, Senta Niederegger, Cheryl Y Hayashi, Adam P Summers, Walter Vötsch and Paul Walther (2006). Biomaterials: Silk-like secretion from tarantula feet. Nature 443, 407. Laço DOI.
(ref2)Narelle Towie (2006). Tarantulas spin silk from their feet. Heavy spiders use a little extra glue to get around. news@nature.com. Laço DOI.

1 comentários:

João Carlos disse...

Fascinantes, pois não!... Pois eu já tive minha dose de convivência com essas "charmosas" criaturinhas nos tempos em que vivi no Pantanal do Mato Grosso...

Não sei bem por que, mas as Araras Azúis me pareceram bem mais simpáticas!...