segunda-feira, janeiro 21, 2008

O perfume dos esquilos cheira a cobra

Nas últimas contribuições falei de estratégias de alguns animais para atrairem as presas e asssim conseguirem uma refeição fácil. Existe no entanto o reverso da medalha, estratégias adoptadas pelos animais para evitarem ser comida de outros. O esquilo da imagem, da espécie Spermophilus variegatus, está muito provavelmente a fazer exactamente isso. Este esquilo está a mastigar nada mais nada menos que a pele de um dos seus predadores habituais. Aquela coisa nas patas e boca do esquilo é um bocado de pele de cascavel. Ora aqueles dentes atarefados a cortar e mastigar não procuram alimento, mas sim perfume: depois de uma boa mastigadela o esquilo lambe o seu pêlo, untando o corpo com um saudável cheirinho a cobra. [... ler mais]

Barbara Clucas e colegas resolveram investigar quais as razões deste comportamento, tendo publicado os resultados na revista Animal Behaviour (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Por vezes encontram-se substâncias químicas, produzidas por uma espécie, no corpo de outra espécie. Muitas vezes os animais ingerem tais substâncias estranhas e armazenam-nas no seu integumento, mas relatamos aqui um caso de aplicação directa de substâncias heterospecíficas no corpo. Os esquilos terrícolas da Califórnia, Spermophilus beecheyi, e os esquilos das rochas, Spermophilus variegatus, aplicam directamente odores obtidos do seu mais importante predador, as cascaveis, Crotalus spp., mastigando as peles das mudas das cascaveis e lambendo o seu pêlo. Verificámos que a sequência de áreas lambidas durante a aplicação era essencialmente a mesma para as duas espécies.

Eis aqui uma imagem de um animal da outra espécie de esquilos estudada pelos autores do artigo a mastigar uma pele de cobra:

e logo a seguir a espalhar o odor pelo seu corpo:

Qual é então a explicação mais provável para o comportamento?
Consideramos três hipóteses respeitantes à função desta "aplicação de cheiro de cobra": defesa antipredador, defesa contra parasitas externos, e afastar congéneres. Para testar estas hipóteses avaliámos padrões nas diferenças na quantidade aplicada entre classes de sexo e idade e comparámo-los com padrões reflectindo diferenças na importância da predação, carga de pulgas e agressão por congéneres, como fontes de selecção.

O evitar dos predadores pode não parecer óbvio, mas as cobras poderão optar por não percorrer terrenos de caça onde já teria andado uma outra cobra. Na verdade parece ser essa a explicação:
Não encontrámos diferenças entre espécies na quantidade aplicada; contudo os juvenis e as fêmeas adultas de ambas as espécies empenhavam-se em períodos de aplicação mais longos do que os machos adultos. Este padrão de diferenças, nas classes de sexo e idade na aplicação do odor a cobra, apoia apenas a hipótese anti-predadores, pois os juvenis são mais vulneráveis à predação, e as fêmeas adultas protegem activamente os seus jovens. Não encontrámos evidência para apoiar as hipóteses, quer da defesa contra os parasitas, quer do afastar dos congéneres. Logo, o comportamento da aplicação do odor a cobra pode ser uma nova forma de defesa química contra predadores.

Deve notar-se que os autores são algo cautelosos. Primeiro é preciso testar se existe de facto o efeito sobre os predadores. Além disso existem contextos sociais onde isto não foi testado: pode tratar-se de uma forma das mães afastarem das suas tocas fêmeas da mesma espécie com impulsos infanticidas (sim, as mães esquilos matam os pequenos umas das outras). Para já defesa contra cobras parece a explicação mais provável, e como comportamento é fascinante.

Referências
(ref1) Barbara Clucas, Matthew P. Rowe, Donald H. Owings, and Patricia C. Arrowood (2008). Snake scent application in ground squirrels, Spermophilus spp.: a novel form of antipredator behaviour. Animal Behaviour, Volume 75, Issue 1, Pages 299-307. doi:10.1016/j.anbehav.2007.05.024

sábado, janeiro 19, 2008

Grandes títulos

O texto sobre as formigas de rabinho vermelho vai ter que esperar. Os comunicados de imprensa abundam mas o artigo científico ainda não está disponível. No volume de Dezembro havia contudo um artigo de pesquisa com um título sugestivo

Quando cuidar de, abandonar, ou comer a vossa descendência: a evolução dos cuidados parentais e do canibalismo filial.


Referências
Hope Klug e Michael B. Bonsall. When to Care for, Abandon, or Eat Your Offspring: The Evolution of Parental Care and Filial Cannibalism. Am Nat 2007. Vol. 170, pp. 886–901. DOI: 10.1086/522936.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Uma cauda para apanhar pássaros

Em 2006 foi descrita uma nova espécie de cobra, a Pseudocerastes urarachnoides, um animal fabuloso, e que estranhamente passou quase despercebido nos comunicados de imprensa. Eu ignorava completamente tão interessante criatura até que o Carel resolveu falar nisso na sua última contribuição no Rigor Vitae. Ora o que há de tão interessante neste animal? Notem que o nome urarachnoides vem do grego: ura quer dizer cauda, arachno é aranha, e ides quer dizer semelhante. Ou seja, esta é uma Pseudocerastes com a cauda semelhante a uma aranha. Para compreender bem a coisa é preciso recuar quarenta anos. A "Segunda Expedição de Rua ao Irão", em 1968, embora se destinasse à colecta de mamíferos, recolheu contudo alguns répteis e anfíbios. Essas criaturas foram depositadas no Field Museum of Natural History, onde um senhor chamado Steven Anderson notou uma excrescência semelhante a solifugídeo, um tipo de aracnídeo, na ponta da cauda de uma cobra atribuída inicialmente à espécie Pseudocerastes persicus. Na altura, existindo apenas um exemplar, não se podia afirmar com certeza se aquela excrescência teria uma base genética, se seria devida a um tumor, ou causada por um parasita. A cobra permaneceu assim, guardada mas não esquecida, até que em 2003 uma cobra em tudo semelhante foi capturada. [... ler mais]

Os animais de 1968 e de 2003 são descritos num artigo de Hamid Bostanchi e colegas, incluindo o tal senhor chamado Steven Anderson, na revista Proceedings of the California Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descreve-se uma nova espécie de víbora, Pseudocerastes urarachnoides, dos Montes Zagros no oeste do Irão. A nova espécie tem uma cauda curta, poucos pares de subcaudais (15 nos exemplares conhecidos), com os pares distais formando uma protuberância oval; as escamas dorsais da cauda projectam.se para formar apêndices alongados ao longo dos lados da protuberância terminal.

Eis aqui a fabulosa ornamentação da cauda deste animal:

Paracem mesmo patas de artrópode. Radiografias dos exemplares não mostraram evidências de danos nas vértebras dessa zona do corpo:

Tudo indica que estas "patas" na ponta da cauda são normais nestas criaturas. Ora para que servirá tal ornamentação? Os autores sugerem que será utilizada nos hábitos predatórios do animal:
Especulamos que o apêndice caudal pode servir como engodo para captura de presas num predador de emboscada.

Os autores notam que um dos animais possui vestígios de um pássaro no estômago (são visíveis as patas), e é provável que a estrutura se destine a atrair esse tipo de presas. Isto é algo que tem que ser verificado, pois o animal não foi observado na natureza.

Referências
(ref1) Hamid Bostanchi, Steven C. Anderson, Haji Gholi Kami, and Theodore J. Papenfuss (2006). A New Species of Pseudocerastes with Elaborate Tail Ornamentation from Western Iran (Squamata: Viperidae). Proceedings of the California Academy of Sciences, Fourth Series Volume 57, No. 14, pp. 443–450. PDF.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

As fabulosas formigas planadoras

Um cientista, de seu nome Stephen Yanoviak, encontrava-se no ano de 2004 empoleirado a 30 metros de altura nas selvas do Equador, à espera que mosquitos se alimentassem do seu próprio sangue, quando se desembaraçou de algumas formigas que estavam a mordê-lo, empurrando-as das alturas. Uma queda dessas no perigoso chão da floresta, ou dentro de água, levaria em princípio à morte dos infelizes insectos. Só que, para espanto de Yanoviak, as formigas executaram umas fabulosas voltas de 180 graus e conseguiram poisar no tronco, subindo de volta ao local de onde tinham sido empurradas. Estava descoberto o vôo planado das formigas da espécie Cephalotes atratus. [... ler mais]

A descoberta foi descrita por Stephen Yanoviak, Robert Dudley e Michael Kaspari num artigo na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Numerosos vertebrados arborícolas não voadores usam descida controlada (quer paraquedismo quer planar no sentido restrito) para evitar predação ou localizar recursos, e pensa-se que controlar a direcção durante um salto ou queda é um estádio importante na evolução do vôo. Mostramos aqui que as obreiras da formiga neotropical Cephalotes atratus L. (Hymenoptera: Formicidae) usam descida aérea dirigida para voltarem ao seu tronco de origem com mais de 80% de sucesso durante uma queda. Quedas registadas em vídeo revelam que as obreiras da C. atratus descem com o abdómen à frente com trajectórias de declive pronunciado e a velocidades relativamente elevadas; uma experiência no terreno mostra que as formigas em queda usam pistas visuais para localizarem os troncos antes de atingirem o chão da floresta.

A fabulosa técnica destas formigas pode ser apreciada neste filme, cortesia de Stephen Yanoviak. As formigas caem a qualquer coisa como quatro metros por segundo e muitas vezes falham a primeira aterragem, mas tentam de novo e lá conseguem agarrar-se ao tronco.
Obreiras menores da C. atratus, e mais geralmente espécies menores de Cephalotes, ganham de novo contacto com o seu tronco de origem em distâncias menores do que o fazem as obreiras maiores. Levantamentos de formigas arborícolas comuns sugerem que a descida dirigida ocorre na maioria das espécies da tribo Cephalotini e nas Pseudomyrmecinae arborícolas, mas não em ponerimorfos ou Dolichoderinae arborícolas. Este é o primeiro estudo a documentar a mecânica e a importância ecológica desta forma de locomoção na linhagem mais diversificada da Terra, os insectos.

Ou seja, é comum a muitas espécies de formigas arborícolas, embora não a todas. A forma exacta como as formigas conseguem planar não é conhecida. As cabeças achatadas podem ter que ver com a coisa.

Ora algum tempo depois deste artigo Stephen Yanoviak notou formigas, semelhantes em tudo às Cephalotes atratus, excepto no facto de possuirem um abdómen vermelho e não preto, e de o manterem no ar.

Não se trata de uma nova espécie, há algo bastante mais tenebroso por trás desta imagem. A história completa na próxima contribuição.

Ficha técnica
Fotos cortesia de Stephen P. Yanoviak, obtidas a partir do comunicado de imprensa na University of California, Berkeley.

Referências
(ref1) Stephen. P. Yanoviak, Robert Dudley e Michael Kaspari (2005). Directed aerial descent in canopy ants. Nature 433, 624-626. doi:10.1038/nature03254

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Agitar os dedos para um repasto canibal

Esta imagem mostra o agitar muito rápido de um dedo do pé do sapo-cururu, de seu nome científico Chaunus marinus (conhecido anteriormente por Bufo marinus). Trata-se de um sapo relativamente grande, que pode chegar aos 24 centímetros de comprimento e 2800 gramas de peso. Nativo da América Central e do Sul, foi importado para outros lugares do planeta ,onde se tornou uma praga, com impacto nocivo na fauna desses locais. Isso sucede porque o cururu tem duas glândulas no dorso que segregam uma toxina poderosa, e predadores não habituados a este sapo morrem envenenados ao tentarem consumi-lo. Ora porque razão é que este animal está a agitar o dedo? Não se trata de nervosismo, mas sim de vontade de comer. O sapo está a tentar atrair comida, mas não uma comida qualquer. [... ler mais]

Eis aqui a imagem de corpo inteiro do cururu.

A presa que o cururu procura é revelada num artigo de Mattias Hagmana e Richard Shine na revista Animal Behaviour (ref1). O estudo foi feito numa população de animais que infestam o Território Norte da Austrália. Numa tradução livre do resumo:

Muitos predadores de emboscada possuem estruturas e comportamentos cuja função plausível é atrair presas, mas essa hipótese só raramente foi sujeita a testes empíricos directos. Se o engodo evoluíu para atrair tipos de presas específicos então prevemos que só se manifestará se a presa estiver presente, e apenas por predadores com tamanho adequado a esse tipo de presa. O engodo deve também induzir uma maior aproximação da presa; e aspectos do comportamento (por exemplo a frequência do movimento do engodo) devem ter sido afinados pela selecção para induzir uma resposta máxima da presa. Descrevemos aqui um sistema de engodo de um novo tipo: cururus de tamanho médio e pequeno (mas não metamórficos nem grandes), Chaunus marinus, agitam o longo dedo médio do pé dos membros traseiros para cima e para baixo numa exibição óbvia.

Os animais metamórificos são sapos que já passaram a fase de girino mas ainda não atingiram a forma adulta.
Admitindo a hipótese funcional, o agitar do dedo é despoletado pelo movimento de objectos comestíveis, como grilos ou sapos metamórficos. Os sapos metamórficos são atraídos para este estímulo, e ensaios com um modelo mecânico mostram que quer a cor quer a frequência vibracional do dedo correspondem de muito perto à frequência mais eficiente para atrair congéneres menores na direcção do engodo.

Pois é, estes sapos são canibais e tentam atrair sapos menores da mesma espécie para poderem comê-los. Os autores dissecaram 28 sapos juvenis (com comprimentos entre 21 e 55 milímetros) e verificaram que cerca de 64% das presas consumidas por esses animais eram membros menores da mesma espécie.

Ficha técnica
(ref1) Mattias Hagmana e Richard Shine (2008). Deceptive digits: the functional significance of toe waving by cannibalistic cane toads, Chaunus marinus. ANIMAL BEHAVIOUR, 75, 123e131. doi:10.1016/j.anbehav.2007.04.020.

sábado, janeiro 12, 2008

A moral dos macacos

A meia-dúzia de leitores habituais deste blogue sabe que passei o mês de Dezembro no Sul da Índia, em busca de chá e de macacos, os fabulosos langures negros das Nilgiris. Num outro mês de Dezembro, no remoto ano de 1964, Jules Masserman, Stanley Wechkin, e William Terris publicaram um artigo também sobre macacos. Não sobre os langures da Nilgiris, mas sobre os macacos resus, da espécie Macaca mulatta, como os que se mostra na imagem ao lado. O artigo desses senhores, apenas duas páginas, deixa uma impressão profunda em quem o lê. Pelo menos esse foi o meu caso. Os autores colocaram os macacos face a um dilema: passar fome ou magoar outro macaco. [... ler mais]

O artigo sobre as difíceis escolhas dos macacos resus, da autoria de Jules Masserman, Stanley Wechkin, e William Terris foi publicado na revista American Journal of Psychiatry (ref1). Em que é que consistiu a tal experiência?

Sete fêmeas e oito macacos resus machos, capturados no estado selvagem, foram colocados numa jaula, com dois fios que caíam do tecto, ligados a interruptores. Os macacos foram então treinados a obter comida, puxando um dos fios quando acendia uma luz vermelha, e o outro quando acendia uma luz azul. O período de treino durou até os macacos conseguirem uma eficácia de 90% na tarefa. Um outro macaco, um "animal de estímulo", como lhe chamam os autores, foi então colocado num compartimento ao lado, separado por um semi-espelho: o macaco no compartimento com os fios e as luzes via o outro, mas o "animal de estímulo" não conseguia ver o compartimento ao lado. Ao fim de quatro dias, os investigadores fizeram então uma maldade: programaram um dos interruptores para dar um choque eléctrico ao animal de estímulo. Deve notar-se que os animais que escolhessem comer apenas quando a luz de uma dada cor fosse activada não sucumbiriam à falta de alimento, mas passariam fome. Para ficarem saciados os animais teriam que dar choques ao desgraçado na outra jaula.

Os resultados foram claros, apenas 5 dos 15 animais não mostraram uma preferência estatisticamente significativa pela alavanca que dava apenas comida e não electrocutava o animal do lado. Mas desses cinco dois fizeram-no porque depois de verem o animal no outro compartimento levar um choque se recusaram a puxar qualquer um dos fios. Um deles passou fome durante cinco dias, o outro durante doze! Os animais mantiveram um padrão de resposta consistente mesmo quando os investigadores mudaram os parceiros, tendo notado que os animais que tinham sofrido eles próprios choques eléctricos optavam com maior probabilidade por respostas extremas de privação de alimento.

A experiência mostrou que a maioria dos macacos resus prefere, de forma consistente, passar fome do que conseguir comida à custa de um choque eléctrico num congénere. A resposta dos animais não está relacionada de forma significativa com a idade, tamanho, sexo ou posição hierárquica do outro macaco.

É um resultado que nos toca de tão "humano": fazer sacrifícios pelo bem dos outros, algo que entra no domínio do que definimos como moralmente correcto. Nestes pequenos macacos, capturados na natureza e colocados em jaulas, não deixa de ser algo de sublime.

Ficha técnica
Imagem dos macacos cortesia de Nikita Golovanov, obtida a partir desta página de Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Jules Masserman, Stanley Wechkin, and William Terris (1964). `Altruistic' Behavior in Rhesus Monkeys. American Journal of Psychiatry vol. 121, pp. 584-585.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Os pinguins descoloridos e a falta de higiene de uma princesa espanhola

Esta é uma imagem de um pinguim de Adélia, da espécie Pygoscelis adeliae. Já falei aqui por várias vezes destes pinguins, incluindo uma famosa referência à física dos seus disparos de excrementos. Pois bem hoje vou falar destes pinguins e da relação que ele possuem com roupa interior não lavada. Confusos? Tem tudo que ver com o facto de este pinguim em particular apresentar um casaco beige em vez do tradicional negro. Trata-se de um fenómeno chamado leucismo e que é relativamente raro nos pinguins. Esta foto foi tirada na Antártida numa colónia de cerca de 4,000 adélias, e este era o único pinguim beige. Ser fora do normal não grangeia a este animal grande simpatia por parte dos seus congéneres. Segundo os membros da expedição que observaram o animal, os adélias "normais" implicavam regularmente com o pinguim beige. Alguns autores preferem chamar isabelinismo a estes casos, pois para os ingleses Isabella era o nome que se dava (caíu em desuso no século XIX) a uma cor cinzento-amarelada. Há uma lenda por trás desse nome, que mete princesas e a sua roupa interior, e que eu não resisto a contar aqui. [... ler mais]

Embora raro, o fenómeno do isabelinismo nos pinguins encontra-se descrito na literatura científica, e David Everitt e Colin Miskelly fazem um resumo dos conhecimentos num artigo na revista Notornis (ref1). Foi aí que encontrei a tal história. Numa tradução livre da parte relevante:

Uma origem relatada para o adjectivo 'isabelino' é na verdade algo desagradável e em desacordo com a beleza das aves. Diz-se estar relacionada com um voto feito pela arquiduquesa Isabel da Áustria em 1600 de não mudar a sua roupa interior, nem mesmo para a lavar, até que o seu marido, o Arquiduque Alberto da Áustria, conquistasse a cidade de Ostende, unindo assim as províncias do norte e do sul dos Países Baixos.

De certa forma esta princesa Isabel faz parte da história luso-brasileira. É filha de Filipe II de Espanha, que era também rei de Portugal (Filipe I) e logo governava também o Brasil nessa época. Conseguir que a tal princesa espanhola ganhasse hábitos de higiene mais saudáveis não foi fácil:
Demorou três anos até 1604 para unir as províncias com o custo de mais de 40,000 vidas espanholas. A cor Isabella é supostamente uma descrição da roupa interior suja dessa dama. Contudo, esta origem é refutada no Shorter Oxford dictionary.

Depois de pesquisar um pouco descobri que a história é falsa porque o termo Isabella para designar cor cinzento-amarelada surge num documento relativo à rainha de Inglaterra, um ano antes do voto da princesa espanhola. Embora a origem do termo não esteja ligado a esta Isabel, a falta de higiene dos membros femininos da realeza espanhola pode apesar de tudo estar ligada à designação destes lindos pinguins. Tudo se passaria um século antes, com outra Isabel. O termo existe em Francês e Alemão e está ligado a uma história semelhante, só que envolve Isabel a Católica e o cerco de Granada, pelo seu marido Fernando de Aragão, que terminou em 1492 com a conquista da cidade.

Eis outro exemplo de um adélia isabelino, fotografado por Leon Baradat numa viagem de turismo à Antártida, em 2003:

Os pinguins isabelinos ão animais bonitos, quer a sua designação se deva ou não a roupa interior suja. Mas os pinguins não vêm apenas em branco e preto ou branco e beige. Há também pinguins-azuis, mas esses terão que esperar por uma próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem no início da contribuição de Brett Jarrett (Mawson's Hut Foundation) que pode ser encontrada no blogue Mawson's Huts 2007-8.
Imagem de pinguim isabelino entre os seus congéneres escuros da autoria de Leon Baradat via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) DAVID A. EVERITT, COLIN M. MISKELLY (2003). A review of isabellinism in penguins. Notornis, Vol. 50: 43-51. PDF.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

As iguanas quando arrefecem caem no céu

Quando a temperatura cai abaixo dos 5 a 10 graus Celsius, iguanas, parecidas a esta Iguana iguana, "desligam", não sendo capazes de se agarrar aos ramos e troncos. O resultado é uma chuva de iguanas no chão da floresta. Isso aconteceu esta semana na Florida, nos Estados Unidos da América, onde as temperaturas nocturnas chegaram aos 3 graus negativos. Estas quedas não significam necessariamente a morte dos animais: com o nascer do Sol e o aumento das temperaturas muitos animais recuperam (podem suportar de 4 a 10 horas imóveis no frio). Mas nem todos o fazem, o que até nem é mau de todo. É que as iguanas ("os iguanas" para os leitores brasileiros) da Florida são uma peste, animais não nativos importados do México. [... ler mais]

Imagens de um dos intervenientes nesta verdadeira chuva de iguanas podem ser vistas nestas páginas do Miami Herald. Ora quão sério é o problema com estas criaturas na Florida e como surgiu? Tudo pode ter começado com animais como este, um juvenil, que possui um tamanho adequado para animal de estimação.

Só que os pequenitos crescem até mais de dois metros de comprimento da cabeça até à ponta da cauda, e muitos donos desistem delas, libertando-as na natureza, onde procriam de uma forma capaz de fazer inveja aos coelhos. Com a ausência de predadores o resultado é uma praga de iguanas, que devastam as plantas e incomodam os seres humanos de muitas e variadas maneiras.

O instituto da Ciências Alimentares e Agrícolas da Florida publica mesmo circulares sobre como lidar com o problema. Numa tradução livre de um desses textos, da autoria de W. H. Kern (ref1), na parte relativa aos estragos provocados pelos animais:

Danos causados pelas iguanas incluem consumirem plantas com valor ambiental, arbustos e árvores, comerem orquídeas e muitas outras flores, comerem frutos como bagas, figos, mangas, tomates, bananas, líchias, etc. As iguanas não consomem citrinos. As tocas que elas escavam minam os passeios, diques e fundações. Tocas de iguanas próximas de diques permitem a erosão e eventual colapso desses diques. Os excrementos das iguanas cobrem as áreas onde elas tomam banhos de sol. Isso é desagradável à vista, causa queixas relativamente a odores, e é uma fonte possível de bactérias salmonella, uma causa comum de intoxicação alimentar.

Não se trata de animais inofensivos:
As iguanas adultas são animais grandes e poderosos que podem morder, capazes de arradelas graves com as suas garras extremamente afiadas, e capazes de dolorosas pancadas com as suas poderosas caudas. As iguanas normalmente evitam as pessoas mas defender-se-ão contra animais de estimação e pessoas que tentem apanhá-los ou encurralá-los
.
Acho que é de facto uma boa ideia evitar estes dentes:

O autor discute várias formas de captura destes animais: com armadilhas, laços, e mesmo tiros ou flechas (se bem que a Florida tenha leis anticrueldade que se estendem aos reptéis). Uma vez capturadas as iguanas não podem ser libertadas, têm que ser mantidas em cativeiro, vendidas como animais de estimação, destruídas ou então consumidas! Sim, porque pelos vistos possuem uma carne tenra e suculenta.
A carne de iguanas adultas e os seus ovos são comidos e considerados uma iguaria ao longo dos seus locais de origem, especialmente durante a semana da Páscoa. Em 2004, o preço de carne de iguana era de 31 dólares dos EUA por quilo, na Marilândia. Adultos grandes, demasiado perigosos para serem mantidos como animais de estimação, podem ter valor como carne nos mercados de cariz étnico que se destinam a emigrantes da América do Sul e Central. Contudo, é melhor fazer um acordo com o gerente do mercado antes de aparecer com um saco de iguanas.

Um pitéu algo caro. Já vi iguanas pequenitas à venda por estes lados, nas lojas de animais, e sem dúvida algumas terão fugido ou sido libertadas quando se tornaram demasiado grandes. Com geadas frequentes, mesmo no sul do país, é pouco provável que cheguem a formar colónias. Mesmo assim, pelo sim pelo não, talvez seja boa ideia arranjar algumas receitas.

Ficha técnica
Imagens cortesia da University of Florida, Institute of Food and Agricultural Sciences (UF/IFAS) for the people of the State of Florida. Podem ser obtidas na referência abaixo.

Referências
(ref1) W. H. Kern, Jr (2004). Dealing with Iguanas in the South Florida Landscape. Fact Sheet ENY-714, a series of the Entomology and Nematology Department, Florida Cooperative Extension Service, Institute of Food and Agricultural Sciences, University of Florida. http://edis.ifas.ufl.edu/in528.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Um fóssil vivo avinagrado

Volta e meia surge na imprensa um relato sobre a descoberta de um qualquer famigerado "fóssil-vivo", com a referência obrigatória ao celecanto. O termo é muitas vezes enganador, em geral o "fóssil vivo" e os "fósseis extintos" são apesar de tudo bastante diferentes. Há no entanto casos de espécies que foram descritas na literatura científica a partir de esqueletos encontrados em depósitos fósseis, e que se julgavam extintas, mas que afinal até existiam na natureza. É o caso do dono do crânio que se pode ver nesta figura, o Speothos venaticus, que foi descrito em 1842, por um senhor chamado Lund, a partir de fósseis encontrados nas caves de Lagoa Santa, em Minas Gerais, no Brasil. Verificou-se depois que se tratava de um animal que se podia encontrar em grande parte do território brasileiro. [... ler mais]

Como a dentição deixa antever trata-se do crânio de um carnívoro, mais exactamente de um canídeo, cujas afinidades com os restantes canídeos são ainda um pouco obscuras. Há por exemplo diferenças na dentição em relação ao lobo cinzento, Canis lupus, cujo crânio se mostra na imagem abaixo:

Notem bem o número de molares no maxilar, o Speothos venaticus possui penas um em cada maxila, o lobo possui dois.

Já que estamos a falar de canídeos, de crânios e de dentes não resisto a mostrar mais uma imagem, que parece saída de um pesadelo:

Que horrível criatura possui um tal crânio? Trata-se de um cachorro doméstico, da minúscula variante conhecida como Chihuahua. A origem do cachorro doméstico tem sido tema de muita confusão e mesmo de alguma controvérsia, mas a maioria dos autores modernos favorecem a hipótese de que se trata de uma versão domesticada do lobo cinzento. Os cachorros domésticos são a espécie de mamíferos com maior variabilidade morfológica que se conhece, embora tendam a seguir alguns padrões, em particular relacionados com o tamanho. Quando "encolhem" em tamanho tendem a apresentar crânios progressivamente mais arredondados, tal como se observa facilmente neste
Chihuahua. Os cães domésticos apresentam em geral dentes também menores que as espécies de canídeos silvestres, uma característica que permite distinguir os cães dos restos fósseis de lobos em contextos arqueológicos.

Como referi o Speothos venaticus existe na maior parte do território brasileiro, e noutros países centro- e sul-americanos, tais como o Panamá, a Venezuela, a Bolívia, o Peru, o Equador, o Paraguai e a Argentina. Apesar da vasta distribuição geográfica, esta criatura, conhecida no Brasil como cachorro do mato vinagre, é muito rara, e muito difícil de observar na natureza. Que o diga Beatriz de Mello Beisiegel, que resolveu obter o seu grau de doutor com uma dissertação sobre a história natural desta criatura. Mas isso ficará para a próxima contribuição.

Referências
Dr. Pamela Owen, 2001, "Speothos venaticus" (On-line), Digital Morphology. Acedido a 21 de Novembro de 2007 no endereço http://digimorph.org/specimens/Speothos_venaticus/.
Dr. Pamela Owen, 2001, "Canis lupus" (On-line), Digital Morphology. Acedido a 21 de Novembro de 2007 no endereço http://digimorph.org/specimens/Canis_lupus_lycaon/.
Ms. Jennifer Olori, 2005, "Canis familiaris" (On-line), Digital Morphology.. Acedido em 21 de Novembro de 2007 no endereço http://digimorph.org/specimens/Canis_familiaris.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Sucesso



Para breve, o regresso.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Hiato

Estou mais uma vez lá fora em viagem, e daqui até final do ano só devo passar cerca de uma semana em Portugal. Entre hotéis e pensões, entre a Alemanha e a Índia, vai ser um pouco difícil actualizar o blogue.

domingo, novembro 18, 2007

As libelinhas emissoras de rádio

O estudo sobre as câmaras dos corvos da Nova Caledónia recordou-me outro avanço na monitorização de pequenas criaturas voadoras. Colocar câmaras de 14 gramas numa ave com um peso de umas quantas centenas de gramas pode parecer notável. Mas e quando o objecto de estudo pesa apenas cerca de um grama? Bem, nesse caso precisamos apenas de um cientista, de um tubo de cola e do último grito em miniaturização electrónica. A libélula da imagem, da espécie Anax junius, carrega um emissor com cerca de 300 miligramas com autonomia para cerca de 12 dias. Não fornece imagens mas emite um sinal que permite localizar o animal. O peso do dispositivo electrónico é cerca de um terço do peso do insecto, mas as libelinhas são criaturas fortes. São capazes de carregar presas muito mais pesadas que este emissor e, durante o acasalamento, os machos transportam as fêmeas sem grandes problemas. As libelinhas carregaram estes emissores rádio como parte de um estudo sobre os seus hábitos migratórios. Pois é, tal como muitas aves, algumas libélulas emigram para climas mais soalheiros quando se aproximam os períodos de frio.[... ler mais]

O comportamento migratório das libélulas de Nova Jérsia (EUA) é descrito num artigo de Martin Wikelski e colegas na revista Biology Letters (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Todos os anos milhares de milhões de borboleta, libelinhas, mariposas e outros insectos migram através dos continentes, e tem sido feito um progresso considerável na compreensão de fenómenos migratórios ao nível da população. Contudo, sabe-se pouco quanto aos destinos e às estratégias individuais dos insectos. Colocámos emissores rádio miniaturizados (cerca de 300 miligramas) no tórax de 14 libélulas (Anax junius) e seguimo-las durante a sua migração outonal durante doze dias, usando eviões Cessna equipados como receptores, e equipas de terra. As libélulas mostraram dias de migração e de paragem distintos. Em média, migraram a cada 2.9±0.3 dias, e o seu avanço médio total foi de 58±11km em 6.1±0.9 dias (11.9±2.8 km por dia) numa direcção geralmente de sudoeste (186±52°).

Deve notar-se que este progresso de cerca de 12 km dia não é nada de notável para animais que conseguem voar a 5 metros por segundo. Os autores fornecem no texto alguns valores interessantes: uma libélula possui reservas de gordura em torno de 300 miligramas, que lhe permitiriam voar cerca de 8.3 horas, o que daria cerca de 150 km. As libélulas optam contudo por não gastarem demasiado, voam durante períodos curtos e mantêm sempre alguma gordura no corpo. Mesmo assim, um avanço desta ordem significa que estes animais fazem cerca de 700 km durante os dois meses que dura a estação migratória nestas libélulas.

O mais notável é que o padrão destas migrações é semelhante ao observado em animais muito diferentes:
Migraram exclusivamente durante o dia, quando as velocidades do vento eram inferiores a 25 km por hora, independentemente da direcção do vento, mas apenas após duas noites de temperaturas mais baixas (redução de 2.1±0.6°C na temperatura mínima). Os padrões migratórios e as regras de decisão aparentes das libélulas são notavelmente semelhantes aos propostos para as aves canoras, e podem representar uma estratégia de migração geral, para a migração de longa distância de organismos com velocidades elevadas de vôo auto-propulsionado.

Os insectos ganharam os ares muito provavelmente há mais de 400 milhões de anos, muito antes das aves. Confrontados com um problema semelhante, as aves e os insectos migradores evoluiram de forma independente para uma solução muito parecida. Há, no entanto, uma diferença entre aves e libélulas migradoras. Os insectos que regressam na Primavera seguinte não são os que partiram no Outono, mas sim uma nova geração.

Termino com uma imagem de um dos migradores do estudo, prestes a fazer-se ao caminho, com o seu sistema de monitorização.

Referências
(ref1) Martin Wikelski, David Moskowitz, James S. Adelman, Jim Cochran, David S. Wilcove, & Michael L. May (2006). Simple rules guide dragonfly migration. Biology Letters 2:325-329. doi:10.1098/rsbl.2006.0487.

domingo, novembro 11, 2007

Sopa da Pedra, edição de Fajão

Fajão é uma povoação no Concelho da Pampilhosa da Serra, estrategicamente colocada num vale recôndito rodeado de montanhas. Para quem goste de passeatas aos altos e baixo há muito por onde escolher: é rodeada pelo rochedos de Penalva e pelo cabeço da Mata, pela Serra da Rocha, pela Serra da Amarela e pelo Picoto de Cebola. Mas Fajão tem algo a que os apreciadores dos calhaus não serão capazes de resistir: grande parte das casas são feitas de pedra. Trata-se de uma das "Aldeias do Xisto" de Portugal. É um local muito bonito e aprazível, mas também muito pequeno, moram por volta de 300 pessoas em toda a freguesia, que inclui outras povoações. Existem no entanto vários locais de interesse, incluindo uma notável igreja do século XVIII, com imagens de santos e de Nossa Senhora do Rosário do século XVI, o museu Monsenhor Nunes Pereira, e uma casa de pasto onde aconselho para almoço o excelente javali local, regado com uma boa escolha de vinhos alentejanos. [... ler mais]

Inspirados por este panorama da aldeia vejamos então alguns dos temas com interesse na blogosfera paleo/geológica em português durante o mês de Outubro. Comecemos por it até ao Açores e recuar no tempo, até 50 anos atrás, cortesia do GEOCRUSOE. No remoto mês de Outubro de 1957 Portugal ganhava uma ilhota, no Faial. Mas a ilhota nova desapareceria ainda antes de terminar esse mesmo mês de Outubro. O aniversário dos Capelinhos não foi ignorado no Faial, sendo celebrado com música a condizer.

O interesse Geológico do Faial não se esgota contudo no Vulcão dos Capelinhos, e o GEOCRUSOE mostra detalhes de uma ilha com falhas. Essas falhas geológicas, estão relacionadas com vários tipos de movimentos. Um só sismo pode provocar desníveis de um metro e no Faial, por toda a parte, há traços de antigos tremores de terra na paisagem.

Esta casa típica, logo à entrada da aldeia, traz-nos ao próximo grupo de contribuições, dedicadas a pedras vistas nas profundezas, com muita água e lama. Água suficiente para dar banho aos nalga, sobretudo para os que gostam de se roçar no barro. Foi o que sucedeu com o Núcleo dos Amigos das Lapas, Grutas e Algares. Eles gostaram tanto que não resistiram às saudades da lama de Alvide, e fizeram mesmo um filme com as formas cársicas nas grutas.

Já agora, sabiam que se pode fazer espeleologia sem sair da cidade? O Porto visto das suas entranhas. Mais uma dos NALGA.

A flora de Fajão inclui esta planta, o medronheiro, que atrai os fabricantes algarvios de aguardante de medronho, que compram grande parte da produção local. Esta é uma boa desculpa para introduzir o próximo tema. Para quem gosta de ver cinema de capacete o Algarve é o destino indicado, com um gostinho a sal e a profundezas. Bebam mais informação cortesia Geopedrados.

Se visitarem Fajão, fiquem para jantar, pois o cabrito é excelente, e não se esqueçam de provar a aguardente de mel do sítio. Não se preocupem quanto a terem que se fazer à estrada. Podem dormir na prisão, que por acaso até fica bastante em conta. É o edifício de xisto no cimo das escadas de pedra da imagem abaixo, transformado numa confortável pensão.

Para terminar a visita pela blogosfera nada melhor que dinossauros. Em Cantanhede, os dinossauros extinguem-se a 9 de Dezembro deste ano, estando destinados ao uso como matéria prima nas obras da Câmara Municipal. Até lá são de areia. Tudo explicado no De Rerum Natura.

O paleontólogo Octávio Mateus arrasta os seus ossos na Mongólia, algures no Gobi entre anquilossauros, tarbossauros, e ovirraptores. As revelações vêm no GeoLeiria. Claro que nestas coisas é sempre bom ir beber à fonte, se bem que referente ao mês de Setembro. Visitem por isso os Lusodinos.

Para terminar com paleontologia, fotos da bela e do monstro. A bela é uma jovem africana, o monstro é Luís Azevedo Rodrigues um fémur de plateossaurídeo, via Ciência Ao Natural.

Com esta imagem das montanhas vizinhas de Fajão termina o Sopa da Pedra de Outubro de 2007. A lista de temas foi elaborada a partir dos emails enviados pelo leitores. Aceito sugestões relativas ao mês de Novembro até ao primeiro fim de semana de Dezembro, aqui nos comentários ou no email que podem encontrar na barra lateral. Para detalhes relativos aos temas que me interessam consultem a versão zero. Já sabem, nada de política ou controversas criacionistas: só pedras e fósseis.

Ficha técnica
As imagens são da minha autoria e podem ser usadas livremente.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Viagem e direitos de autor

Eu tenho estado em França e não me tem sido possível colocar as contribuições em atraso, incluindo as da sopa da pedra. Volto amanhã, pelo que no sábado devo actualizar o blogue.

Entretanto, notei uma coisa. Aqui há uns meses, este blogue recebia umas largas centenas de visitas diárias provenientes do google. Essas caíram para umas dezenas e tem tudo a ver com o facto de algumas pessoas estarem a duplicar conteúdo meu na internet. Não é que isso me incomode, tudo o que está aqui pode ser usado desde que respeitem os desejos dos autores das imagens que uso e tenham cautela com as citações que faço a outras pessoas. O problema é que a cópia literal dos textos é encarada pelo google como estando a fazer batota e baixa a posição das minhas (e das vossas) páginas nos algoritmos de busca. Eu não vou incomodar ninguém por causa disso, mas, por favor, coloquem em linha duplicados apenas dos conteúdos que vos sejam realmente necessários.

sexta-feira, novembro 02, 2007

O mundo visto por entre as pernas dos corvos

A semana do corvo surgiu em antecipação de um artigo que saiu agora no princípio de Novembro de 2007. Uma das questões sobre o uso de feramentas pelos corvos da Nova Caledónia, o Corvus moneduloides, é o porquê deste comportamento pouco habitual. Isso é algo que não pode ser estudado com animais em cativeiro, a resposta dessa questão só pode ser encontrada observando animais na natureza. Colocar observadores humanos a seguirem os corvos é algo de pouco práctico. Estes corvídeos são afectados pela presença humana e habitam em zonas de floresta montanhosa, onde a visibilidade é limitada. A solução que os cientistas encontraram está ilustrada na imagem: capturaram animais bravios e colocaram-lhes câmaras minúsculas entre as penas da cauda. Essas câmaras não interferem com o movimento do animal e caem com as penas aquando da muda. O ângulo de visão é o adequado a um animal que se alimenta no solo, entre os detritos, ou que usa ferramentas para pesquisar em buracos. [... ler mais]

O artigo que descreve este avanço nas observações do dia a dia dos corvos selvagens é da autoria de Christian Rutz e colegas e foi publicado na revista Science (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os corvos da Nova Caledónia (Corvus moneduloides) são famosos por usarem ferramentas para a busca de alimento de carácter extractivo, mas o contexto ecológico deste comportamento pouco habitual é em grande parte desconhecido. Desenvolvemos câmaras de vídeo miniaturizadas, transportadas pelo animal, para registar a ecologia alimentar de corvos selvagens movimentando-se livremente na natureza. As nossas gravações em vídeo permitiram estimar a eficiência da busca de alimento e revelaram que o uso de ferramentas, e a escolha de materiais para ferramentas, são mais diversificados do que se julgava anteriormente. O estudo através do vídeo tem um grande potencial para o estudo do comportamento, e ecologia, de muitas outras espécies de aves, que são tímidas ou vivem em locais inacessíveis.

O dispositivo colocado nos animais permitia dois tipos de monitorização. Um emissor VHF de tipo convencional permitia determinar a posição de animal. Esta técnica é usada de forma relativamente comum para determinar o habitat de várias espécies animais, mas não fornece informação sobre o tipo de actividades que o animal desenvolve nesses locais. Os corvos carregavam por isso um emissor a 2.4 GHz que transmitia um sinal vídeo de imagens a cores com som. O sinal de vídeo era transmitido após um perídodo de habituação (que podia chegar a 48 horas). As montagens que incluiam a câmara, baterias, e vários sensores, mediam aproximadamente 4.5×2.0×1.3 centímetros e pesavam 14.54 ± 0.21 g, correspondendo a menos de 5% da massa corporal dos corvos. Os autores escolheram o período da muda da pena nos corvos para assegurarem que as câmaras seriam largadas quando muito ao fim de poucas semanas. Estes e uma série de outros aspectos destinados a minimizarem o efeito sobre os animais são discutidos no artigo.

Os dados eram recolhidos a partir de receptores portáteis operados a partir do solo, com duas equipas independentes a operarem equipamentos redundantes, para maximizar a recepção do sinal vídeo. Eis aqui o exemplo do trajecto de um animal que passou a sua manhã na vizinhança de um pequeno vale em forma de crescente. O azul indica o período antes de iniciar a transmissão do sinal vídeo, o vermelho o período onde o sinal vídeo estava disponível.

O interessante é poder observar o que o animal faz nesses instantes. Por exemplo, observou-se que um dos animais durante a tarde efectuou as seguintes actividades: fabricou e usou ferramentas, capturou três lagartos pequenos, manuseou duas conchas vazias de caracol, e apanhou e comeu um fruto. Estes acontecimentos estavam separados por sequências em que o animal buscava comida no chão ou saltando de ramo para ramo. Para mostrar a importância das câmaras, atentem nesta frase, relativa a esse animal, retirada do artigo:
Vimos o pássaro apenas uma vez apesar de nos encontrarmos a menos de 100 metros da sua localização durante a filmagem, com visão não obstruída de todos os recantos relevantes do habitat.

Ou seja, o comportamento do animal não seria documentado, mesmo com observadores nas imediações. Eis aqui alguma imagens da actividade desenvolvida pelos corvos:

O artigo é acompanhado por uma série de filmes. Podemos ver corvos a capturarem caracóis e lagartos, a comerem frutos, a fabricarem ferramentas, a deslocarem-se pelo chão, e a voarem.

Filme s1, Filme s2, Filme s3, Filme s4

Em 7 horas e meia de filmagens analisadas pelos investigadores, em que foram observados doze corvos, os autores observaram o manuseamento de 6 caracóis (dois comidos, os outros com conchas vazias), três lagartos pequenos (todos comidos), dois pequenos invertebrados (ambos comidos), três objectos não identificados (consumidos), oito frutos (sete comidos pelo menos parcialmente), e uma incursão com consumo de pequenas bagas. A partir das observações os autores estimaram que os corvos consomem oito items da sua dieta por cada hora em que buscam alimentam. O valor parece baixo, embora os autores notem que não existem estudos semelhantes sobre outras espécies de corvos tropicais. Este aspecto talvez explique as capacidades tecnológicas destes corvos. Num ambiente difícil o fabrico e uso de ferramentas podem aumentar e muito o sucesso dos animais na busca de alimento. Isso é algo a verificar com outros estudos, este artigo expõe sobretudo a nova técnica de observação.

Observações deste tipo, com câmaras presas a animais, não são novidade, são efectuadas há já algum tempo em animais marinhos, bastante maiores. Desde que se ajuste a flutuabilidade do dispositivo, por forma a que seja neutra, os impactos sobre os animais são em geral mínimos. Só com os avanços na miniaturização de dispositivos electrónicos se pôde avançar para as aves. O potencial para estudos de ecologia e mesmo fisiologia é imenso. Os autores notam que neste estudo a cloaca e a barriga dos corvos eram visíveis o que significa que se podia determinar a frequência com os animais respiravam e defecavam. Este estudo é apenas o início.

Referências
(ref1) Christian Rutz, Lucas A. Bluff, Alex A. S. Weir, Alex Kacelnik (2007). Video Cameras on Wild Birds. Science Vol. 318. no. 5851, p. 765. doi:10.1126/science.1146788.