quinta-feira, abril 20, 2006

As pernas da serpente

Esta imagem mostra parte do fóssil da Najash rionegrina, uma cobra que viveu há cerca de 90 milhões de anos na região que hoje em dia é a Patagónia na Argentina. Quando se pensa em cobra, a imagem que vem à mente é um animal rastejante, sem membros. Mas não foi sempre assim, e não é por acaso que o nome genérico desta criatura vem do hebraico, e designa a serpente com pernas que aparece no início da bíblia. Aqueles com algum conhecimento da anatomia dos vertebrados não terão dificuldade em identificar os ossos da pernas entre estes vestígios. [... ler mais]

Conheciam-se já três espécies fósseis de cobras com membros no exterior do corpo, e todos eles eram vestígios de cobras marinhas. Devido a esse facto admitia-se como provável que a anatomia das cobras seria uma adaptação a um estilo de vida aquático. Ora a descoberta da Najash mudou tudo isso. Os restos fósseis da Najash são descritos num artigo na Nature da autoria de Sebastián Apesteguía e Hussam Zaher, este último do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo no Brasil. Numa tradução livre do resumo:

Era habitual pensar que as serpentes perderam os seus membros de forma progressiva devido a uma diminuição gradual da sua utilização. Contudo descobertas de desenvolvimento e paleontológicas sugerem um cenário mais complexo para a redução dos membros, ainda que documentado de forma pobre no registo fóssil. Relatamos aqui uma cobra fóssil com um sacro suportando uma cintura pélvica e pernas robustas e funcionais fora da caixa torácica. O novo fóssil, do Cretácico Superior da Patagónia, preenche um hiato importante na progressão evolutiva no sentido da perda de membros pois outras cobras fósseis conhecidas com membros posteriores desenvolvidos, as cobras marinhas Haasiophis, Pachyrhachis e Eupodophis não possuem a região do sacro.

A região que destaquei a negrito é um pormenor muito importante. Tal como se mostra na imagem ao lado, as pernas da Najash ainda articulam com a coluna vertebral, enquanto nos fósseis das outras cobras com pernas isso não se passa. Isso significa que a Najash representa um estágio evolutivo "mais primitivo" que aquele encontrado nas cobras marinhas. O fóssil é razoavelmente completo, com material craniano que, juntamente com outras características do esqueleto, apoiam essa hipótese.
Uma análise filogenética mostra que o novo fóssil é a cobra mais primitiva (basal) conhecida e que todas as outras cobras com membros conhecidas estão mais próximas das serpentes macróstomas, um grupo que inclui as boas, pitões e colubróides.

Ora a partir do esqueleto os autores conseguem inferir o modo de vida da Najash, e sugerem um cenário alternativo para a origem das cobras.
O novo fóssil mantêm certas características associadas com um modo de vida subterrânea, também presentes em linhagens mais primitivas de serpentes existentes hoje em dia, apoiando a hipótese de uma origem terrestre em vez de marinha para as cobras.

Deve notar-se que as cobras não são os únicos tetrápodes ápodes (sem membros). Existe, por exemplo, um grupo de anfíbios, as cecílias, de que falámos aqui recentemente, e um outro grupo de répteis, os anfisbenídeos, que também perderam os seus membros. Nesses dois casos tratou-se de uma adaptação a um modo de vida fossorial, isto é subterrâneo. Esta nova descoberta, embora não resolva de vez a questão, aponta no mesmo sentido. São no entanto precisos mais fósseis, pois o registo fóssil da cobras, que evoluiram a partir de um animal aparentado aos lagartos monitores, há cerca de 145 milhões de anos, é muito pobre. Não deixa de ser curioso que, depois de se falar acerca da evolução das pernas a partir das barbatanas dos peixes, aquando do tiktaalik, se fale agora numa descoberta sobre a evolução em sentido inverso.

Uma visão artística do aspecto da cobra pode ser encontrada aqui nas páginas da LiveScience. As pernas apesar de robustas e funcionais são minúsculas, e a utilização que a Najash dava aos seus membros não é conhecida.

Referências
(ref1) Sebastián Apesteguía, and Hussam Zaher (2006). A Cretaceous terrestrial snake with robust hindlimbs and a sacrum. Nature 440, 1037-1040. Laço DOI

2 comentários:

carlos marcos disse...

Haveria uma possibilidade remota de ser restos de algum animal que ele tenha predado.

Reinaldo disse...

Muito estranho!
Eu já vi cascavéis, vivas e mortas, com membros dianteiros e traseiros disfuncionais, inclusive com unhas.
Devia tê-las conservado em álcool, mas, achava que isso era coisa mais que sabida, uma regressão genética.