quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma história de corvos interpretada por orangotangos

A ilustração aqui ao lado refere-se a uma conhecida fábula de Esopo, "o corvo e o jarrro." É a história de um corvo morto de sede que encontra um jarro com água, mas com apenas um pouquinho no fundo, de tal maneira que o animal não consegue lá chegar com o bico. O jarro é também demasiado pesado para que o animal o consiga virar. O corvo tem no entanto uma ideia e começa a largar pequenas pedras dentro do jarro. Tantas lança que a água finalmente sobe o suficiente para que o animal possa saciar a sua sede. Esta é mais ou menos a versão que me recordo da minha infância e a moral da história era qualquer coisa como "o engenho vale mais que a força bruta." Ora foi publicado um artigo que é uma espécie de encenação moderna desta história, só que em vez de um corvos temos como protagonistas orangotangos, em vez de sede temos a vontade de comer um amendoim, e em vez da largada de seixos temos cuspidelas de água. [... ler mais]

O trabalho com os orangotangos é da autoria de Natacha Mendes, Daniel Hanus, e Josep Call e foi publicado na revista Royal Society Biology Letters (ref1). Pelo que percebi da referência à FCT nos agradecimentos, Natacha Mendes é uma estudante portuguesa a fazer o seu doutoramento por terras germânicas. Numa tradução livre do resumo:

Investigámos o uso de água como ferramenta confrontando cinco orangotangos (Pongo abelii) com um amendoim a flutuar fora de alcance dentro de um tubo vertical transparente.

Eis aqui, em imagens, o dispositivo, e uma mãe orangotango maila sua cria. A mãe inspeciona o dispositivo, vê que o dedo não chega ao amendoim e depois desaparece da imagem.

A cria repete o comportamento da mãe, que na verdade não tinha desistido. Limitou-se a procurar em volta até encontrar uma ferramenta para tirar o amendoim.
Todos os orangotangos recolheram água de um bebedouro e cuspiram-na para dentro do tubo para ganhar acesso ao amendoim. Os indivíduos necessitaram de uma média de três bocas cheias de água para alcançarem o amendoim. Esta solução ocorreu na primeira tentativa e todos os indivíduos continuaram a usar esta estratégia de sucesso nas tentativas subsequentes.

Eis aqui os mesmo animais da sequência anterior, com a mãe a encher o tubo com a água que traz na boca.

Só que este esguicho não foi suficiente. Ele verifica de novo o alcance dos dedos e confirma que o amendoim está fora de alcance.

Parte então novamente em busca de água, que desta vez enche o tubo até colocar o amendoim ao alcance dos dedos.

Como é costume neste tipo de estudos os autores fizeram uma série de controlos:
A demora em obter a recompensa diminuíu de forma drástica após a primeira tentativa. Para além disso, a demora entre as cuspidelas em relação à primeira boca cheia também diminuíu dramaticamente na primeira tentativa para as seguintes na mesma tentativa ou em tentativas subsequentes. Condições de controlo adicional sugeriram que esta resposta não era devida à simples presença do tubo, à exitência de água no interior, ou à frustração de não conseguir a recompensa.

Adoro que tenham controlado para o "já que não te consigo agarrar cuspo-te em cima." O resumo termina com uma frase que parece a conclusão óbvia do estudo:
A aquisição súbita do comportamento, o tempo das acções e as diferenças com condições de controlo fazem deste comportamento um candidato provável para a resolução ponderada de problemas.

Fascinante. Interrogo-me quantos alunos das nossas universidades seriam capazes de resolver este problema pelo engenho e não pela força bruta. Eis aqui as imagens que mostram a mãe orangotango a recolher a sua recompensa:

O olhar triste da cria não lhe serviu de nada, a mãe comeu o amendoim. Simpatizei com o pequenito, espero que os tratadores lhe tenham dado qualquer coisa.

Ficha técnica
Ilustração da fábula de Esopo por Milo Winter (1886-1956) via etexto no projecto Gutemberg.
Imagens da experiência retiradas do filme que acompanha o artigo indicado como ref1 abaixo.

Referências
(ref1) Natacha Mendes, Daniel Hanus, e Josep Call (2007). Raising the level: orangutans use water as a tool. Royal Society Biology Letters Volume 3, Number 5, 453-455. DOI:10.1098/rsbl.2007.0198.

terça-feira, outubro 09, 2007

A guerra das escamas compridas


Esta é uma reconstrução do aspecto do Longisquama insignis, o tal réptil estranho encontrado por Alexander Sharov na Quirguízia. O animal é de facto bizarro mas assim à primeira vista não parece coisa para despertar grandes paixões, nem capaz de inflamar os ânimos. Na verdade, descrita em 1970, a criatura foi durante muito tempo encarada como um curiosidade, e só recentemente se gerou a controvérsia de que falei nas contribuições anteriores. Esta história do Longisquama é um bom exemplo de como as coisas podem ficar feias entre cientistas, quando há subjectividade na avaliação dos dados. Já referi anteriormente o artigo original de Terry Jones e colegas que falavam nas penas, e num artigo de Robert Reisz e Hans-Dieter Sues, que dizia que não era nada disso. Por incrível que possa parecer, ambos os trabalhos tinham como base o mesmo fóssil. Onde se vê até que ponto as coisas ficaram azedas é em comentários e subsequentes respostas ao artigo de Terry Jones na Science que eu não resisto a mostrar aqui. [... ler mais]

Vamos então às guerras do Longisquama (ref1). No início do primeiro comentário, Richard Prumm é algo lacónico:

O réptil do Triásico Longisquama possui apêndices integumentares em forma de lâminas que Terry D. Jones e colegas no seu relato "Penas não avianas num arcossauro do Triásico Tardio" propõem serem homólogas às penas avianas. Contudo, um exame da sua evidência sugere que esta conclusão tem falhas.

Basicamente o autor fornece uma leitura diferente das características morfológicas das estruturas e conclui que as semelhanças são superficiais. Isto baseado numa análise do fóssil que teria feito na mesma altura que a equipa do artigo de Terry Jones e colegas. A resposta de Jones e colegas é igualmente contundente e nem é preciso entrar nos detalhes:
Richard Prum diz que "examinou o Longisquama com os autores em Abril de 1999." Embora cada coautor do nosso relato tenha passado muitas horas durante 3 a 4 dias a estudar todo o material disponível o "exame" de Prum (testemunhado por todos os coautores) consistiu de 5 a 10 minutos de manuseamento apenas da placa principal. Muitas das suas outras afirmações são igualmente enganadoras ou incorrectas.

Acho que nãoé preciso citar mais nada desta parte da resposta.

Há ainda um comentário de Unwin e Benton que para lá de diferenças na interpretação morfológica das "penas", foca os aspectos filogenéticos. Os vários grupos de répteis podem distinguir-se por aberturas entre os ossos do crânio, as fenestras (janelas). Foi com base nessas aberturas, que julgou identificar no Longisquama, que Sharov o identificou como arcossauriano. Unwin e Benton dizem contudo que essas aberturas não são fiáveis no crânio do Longisquama e poderão simplesmente representar danos no fóssil. Vão ainda mais longe:
Nos vestígios conhecidos do esqueleto do Longisquama faltam todas as outras características de diagnóstico arcossauriano [a fúrcula mencionada por Jones et al. consiste em clavículas emparelhadas, tal como Sharov notou originalmente], mas exibem duas características, dentes acrodontes e uma interclavícula, que são típicas dos lepidossauros. Em consequência, suspeitamos que o Longisquama não é um arcossauro.

Ou seja chegam mesmo a propor que o Longisquama poderá estar mais próximo das cobras e lagartos (lepidossauros) que das aves e crocodilos (arcossauros). Ora Terry Jones e colegas responderam à letra:
Embora Unwin and Benton sugiram que o Longisquama não seria um arcossauro, uma fenestra anteorbital, a marca que define os Archosauria, é claramente visível na contra-placa. Contrariamente às afirmações adicionais por Unwin and Benton, a interclavícula é retida num certo número de arcossauros (por exemplo, Euparkeria) e aves, e a fúrcula do Longisquama é virtualmente idêntica à do Archaeopteryx. Devido à pobre preservação, a natureza exacta da inclusão dos dentes não pode, no presente, ser determinada a partir dos exemplares conhecidos. Concordamos com Sharov, e todos os autores anteriores, no provável estatuto arcossauriano do Longisquama.

Como se pode ver por esta amostra de citações, cada um dos lados vê as coisas que lhe dão jeito e atribui os problemas a questões de preservação do fóssil. Os argumentos são do tipo "tu vês isso mas é um disparate, eu vejo isto e eu é que sei." É óbvio que para acalmar os ânimos precisamos de mais fósseis desta criatura, que possam para já confirmar que as estruturas pertencem mesmo ao Longisquama, e que nos permitam ter mais certezas na interpretação do esqueleto.

Ficha técnica
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Richard O. Prum;, D. M. Unwin, M. J. Benton;, Terry D. Jones, John A. Ruben, Paul F. A. Maderson, and Larry D. Martin (2001). Longisquama Fossil and Feather Morphology. Science Vol. 291. no. 5510, pp. 1899 - 1902. DOI: 10.1126/science.291.5510.1899c.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Nem sempre uma escama longa é uma pena

De volta ao enigmático réptil descoberto por Sharov na década de 1960, ou mais exactamente às coisas que o bicho tinha nas costas. O Longisquama era um animal pequeno, que viveria uma vida provavelmente arborícola alimentando-se de insectos nas florestas da Ásia cerca de 220 milhões de anos atrás. O mundo do Triásico em que o Longisquama insignis vivia era povoado por outros répteis fantásticos, como o Sharovipteryx mirabilis de que falei há pouco tempo, e de outros seres igualmente bizarros conhecidos como lagartos-macacos, de que falarei proximamente. Para já vou falar da controvérsia em relação às hastes que lhe saíam das costas. A discussão não demorou muito a passar para a literatura científica. Uns meses depois do artigo que dizia que as estruturas eram penas semelhantes às das aves modernas, saíu um artigo, baseado exactamente nos mesmos vestígios, a dizer que aquelas coisas de penas não tinham nada. [... ler mais]

O artigo que diz que o que se vê nas costas do Longisquama não são penas é da autoria de Robert Reisz e Hans-Dieter Sues e foi publicado na revista Nature (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os apêndices dorsais alongados do réptil Longisquama insignis do Triásico do Quirguistão, foram reinterpretatados recentemente como sendo o primeiro registo de penas num tetrápode não aviano — precedendo por grande margem as penas da mais antiga ave conhecida, o Archaeopteryx. Apresentamos aqui evidência de que as escamas dorsais do Longisquama não são penas, e que elas são de facto marcadamente diferentes de penas avianas. Concluímos que o Archaeopteryx permanece o mais antigo tetrápode conhecido com penas.

Não vou entrar em detalhes, os autores dizem que o veio que se vê nas estruturas do Longisquama não se assemelha à haste de uma pena e que as extremidades distais das estruturas não têm nada a ver com as das penas. Este trabalho baseia-se exactamente no mesmo fóssil que o trabalho anterior. Não deixa de ser impressionante como as conclusões podem ser tão antagónicas. Mas as reacções não se ficaram por aqui nem as respostas. Amanhã há mais.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Longisquama a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.

Referências
(ref1) Robert R. Reisz and Hans-Dieter Sues (2000). The 'feathers' of Longisquama. Nature 408, 428. doi:10.1038/35044204.

domingo, outubro 07, 2007

Uma escama longa, insigne mas controversa

De volta ao Triásico e às descobertas de um senhor chamado Alexander Sharov. Se um réptil capaz de vôo planado usando as pernas parece extraordinário, que tal uma criatura do tamanho de um rato, de corpo semelhante a um lagarto, com cabeça com um formato que faz lembrar uma ave, e com estruturas em forma de haste, de 12 centímetros de comprimento, a sairem-lhe do dorso? Pois bem, Sharov encontrou um animal desses, que baptizou de Longisquama insignis. Nos últimos sete anos este animal passou de uma relativa obscuridade para as luzes da ribalta, sendo o pomo de intensa discórdia, com interpretações completamente antagónicas da mesma evidência, e resvalando inclusive para o insulto pessoal mais ou menos velado. É que há quem veja nas estruturas no dorso deste animal os precursores das penas das aves, há quem veja apenas escamas longas, e até há quem diga que seriam hastes de fetos preservadas junto com um réptil. Enfim, quando os cientistas estão em desacordo as coisas podem ficar feias. [... ler mais]

O campo que vê as estruturas como penas publicou o seu ponto de vista num artigo de Terry Jones e colegas na Science em 2000 (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Longisquama insignis era um arcossauro pouco usual do Triásico Tardio da Ásia central. Ao longo do seu eixo dorsal o Longisquama apresentava uma série de apêndices integumentares que se assemelhavam em muitos detalhes às penas das aves, em especial na anatomia da região da base. Esta era de tal forma semelhante ao cálamo das penas modernas que cada uma representa provavelmente o culminar de processos morfogenéticos virtualmente idênticos. A relação exacta do Longisquama às aves é incerta. Apesar disso, interpretamos os longos apêndices integumentares do Longisquama como sendo penas não avianas e sugerimos que eles são provavelmente homólogos com as penas avianas. Se assim for, eles precdem as penas do Archaeopteryx, a primeira ave conhecida a partir do Jurássico Tardio.

Eu já referi aqui por diversas vezes que há um certo consenso em que as aves serão dinossauros. Ora consenso não quer dizer unanimidade, há quem não esteja convencido, e algumas das vozes discordantes mais famosas, Alan Feduccia e John Ruben, são coautores deste artigo. Em declarações em comunicados de imprensa na sequência do artigo, Alan Feduccia, e outros autores, defendem que as aves fazem parte de uma linhagem de arcossauros que incluiria o Longisquama, e as semelhanças com os dinossauros terópodes seriam fruto de convergência.

O artigo de Terry Jones e colegas foi obviamente controverso e foi recebido de forma particularmente hostil pelo campo que defende que as aves são dinossauros terópodes. Num artigo de acompanhamento no mesmo número da Science (ref2) Erik Stokstad escreve este parágrafo que resume bem as reacções dos dois campos:
A minoria de cientistas que rejeitam a origem dinossauriana das aves está radiante com a nova descrição do Longisquama. «É quase demasiado bom para ser verdade,» diz Storrs Olson, curador das aves no Smithsonian, e que não contribuiu para o artigo. «Este é um passo maior para compreender a origem das aves que o Archaeopteryx» -- o fóssil com 145 milhões de anos cujos dentes, escamas, e outras características primitvas estabeleceram um laço inequívoco entre as aves e os répteis. A resposta dos defensores dos dinossauros a este novo antepassado não terópode das aves? «Sem sentido.» «Loucura.» «disparate» -- para não mencionar alguns comentários que não se podem reproduzir.

Parte do problema com a hipótese do Longisquama como parente das aves tem a ver com problemas filogenéticos. As afinidades do animal não são claras. Sharov classificou-o originalmente como arcossauriano (como as aves e crocodilos), mas o diagnóstico não é seguro e alguns aspectos do animal sugerem que poderia ser um lepidossauro (como as cobras e lagartos). O texto de Erik Stokstad refere mais adiante algo a este respeito:
Para Padian, o Longisquama é a última gota. "Se pensam que é daqui que as aves vêm, onde está a vossa análise cladística?" pergunta ele. »Onde está a vossa falsificação das dezenas de cladogramas que colocam as aves no meio dos dinossauros terópodes?»

Ao que o outro campo responde:
Não é preciso, diz Martin. «Não temos que fazer nenhum cladograma. Podemos dizer-vos desde já que todas as características que encontrámos no exemplar são consistentes com o parentesco com as aves.» E quanto aos muitos cladogramas que demonstram a origem dinossauriana das aves, Martin defende que eles estão semeados de características baseadas em anatomia errónea, ou noutras palavras, «se entra lixo, sai lixo» numa escala gigantesca.

Como podem ver não há entendimento possível entre estes senhores. Mesmo a identificação das estruturas como penas permanece controversa. Voltarei a este tema na próxima contribuição. Para já deixo-vos com o último parágrafo do artigo de Erik Stokstad, que corresponde ao que eu penso sobre toda esta questão:
Mas mesmo os paleontólogos que recusam qualquer ligação entre o Longisquama e a origem das aves continuam a considerá-lo um fóssil intrigante. «Onde quer que o Longisquama caiba na árvore da vida, é um réptil notável de um período extremamente interessante na história dos vertebrados», diz Holtz. Prum salienta que nenhum animal moderno possui semelhante escamas membranosas e longas. Mesmo que não tenham nada que a ver com penas, diz ele, «estas estruturas são bastante bizarras e fascinantes. Quero saber o que são.»

Podem ver uma reconstituição da cabeça deste animal da autoria de Matt Celeskey nestas páginas do Hairy Museum of Natural History.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Longisquama a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.

Referências
(ref1) Terry D. Jones, John A. Ruben, Larry D. Martin, Evgeny N. Kurochkin, Alan Feduccia, Paul F. A. Maderson, Willem J. Hillenius, Nicholas R. Geist, and Vladimir Alifanov (2000). Nonavian Feathers in a Late Triassic Archosaur. Science Vol. 288. no. 5474, pp. 2202 - 2205. DOI: 10.1126/science.288.5474.2202.
(ref2) Erik Stokstad (2000). Feathers, or Flight of Fancy? Science Vol. 288. no. 5474, pp. 2124 - 2125. DOI: 10.1126/science.288.5474.2124

sábado, outubro 06, 2007

Velocirraptor, o pequenote

Como referi numa das contribuições dedicadas aos ovirraptores, o artigo que descreve o "ladrão de ovos com apetência pelos de cerátopo" foca dois outros dinossauros famosos. O mais famosos dos três animais descritos no artigo de 1924 não é o ovirraptor mas sim o Velociraptor mongoliensis, que ganhou projecção mediática em todo o mundo devido à sua infame participação nos vários filmes do Parque Jurássico. O infame na frase anterior não se refere ao facto de o velocirraptor ser o vilão da história, mas sim aos erros tremendos na caracterização dessa criatura. Os velocirraptores do cinema têm muito pouco que ver com o que se sabe sobre este animal. [... ler mais]

Nestas coisas nada melhor do que começar pela referência original. Vejamos então como Henry Fairfield Osborn descreveu o animal em 1924 na revista American Museum Novitates (ref1). Há uma frase que é reveladora:

Este crânio foi encontrado na matriz de arenito macio jazendo ao lado de um crânio de Protoceratops andrewsi. Embora esguio e diminuto é apesar de tudo do tipo do terópode tipicamente megalosauriano,

O ênfase é meu, e ilustra um dos pontos em que os velocirraptores do Parque Jurássico mais se afastam da realidade: os velocirraptores eram muito mais pequenos que as criaturas que têm esse nome no filme. O crânio descrito por Osborn tinha apenas 176 milímetros de comprimento total. Eis aqui uma comparação com um ser humano adulto:

O animal teria uma corpulência muito próxima da de um peru, com o dorso a apenas meio metro de altura e cerca de 15 kg de peso. A ferocidade não se mede aos palmos mas, vendo o tamanho relativamente a um ser humano, temos que convir que seria uma criatura muito menos assustadora do que aquela que surge no filme.

Mas há uma coisa na descrição de Osborne que os aproxima dos animais do filme:
Os dez ou doze dentes extremamente recurvados são fortemente serrilhados na margem posterior, menos serrilhados na anterior; treze a catorze em número em cada mandíbula, algo homodontes ou similar em forma, embora diferindo em tamanho, curvatura e serração; irregulares ou alternando na substituição, de forma a que os grandes intervalos entre as coroas curvas estão perfeitamente adaptados para a captura súbita de presas ligeiras de movimentos rápidos; o rosto comprido e a grande abertura das mandíbulas indicam que a presa não só estaria viva mas seria de tamanho considerável.

Isto é, seria um predador activo e ágil. O filme afasta-se também bastante da realidade na cena idiota em que os velocirraptores aparecem a abrir portas. As mãos do velocirraptor não funcionariam como as dos primatas, na verdade os membros anteriores deste animal assemelhar-se-iam a asas providas de grandes garras. Aliás descobriu-se recentemente que a parecença a asas ia mesmo ao ponto de possuirem penas de vôo. Falarei disso numa próxima contribuição.

Ficha técnica
Ilustração do esqueleto cortesia Frederik Spindler via Wikimedia Commons.
Comparação entre velocirraptor e humano baseada numa ilustração de Matt Martyniuk retirada da Wikimedia commons.

Referências
(ref1) Henry Fairfield Osborn, Peter C. Kaisen e George Olsen (1924). Three new Theropoda, Protoceratops zone, central Mongolia. American Museum novitates no. 144. PDF.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Um almoço com o elo entre dois mundos

Em 1983 um paleontólogo de seu nome John Horner sentou-se para almoçar em cima de uma rocha de aspecto avermelhado. Essa rocha continha os restos muito difíceis de ver de um pequeno dinossauro, o Cerasinops hodgskissi, que teria que esperar 24 anos até ser descrito numa revista da especialidade. Trata-se de um membro do grupo conhecido como "faces com cornos", os ceratopianos, embora o animal descrito recentemente na verdade não tivesse cornos na face. Este é um fóssil importante para a compreensão da evolução dos ceratopianos, que se espalhavam da Ásia à América do Norte. É que os ceratopianos asiáticos e norte-americanos apresentavam características distintas, por exemplo a nível da dentição. Ora, sendo uma forma norte-americana, o Cerasinops apresenta contudo traços que se conheciam apenas nas formas asiáticas, ao mesmo tempo que partilha alguns aspectos característicos dos grupos norte-americanos. Não admira que a descoberta tenha feito surgir nos comunicados de imprensa os famigerados termos "fóssil de transição" e "elo perdido". [... ler mais]

O tal elo entre animais de dois continentes é descrito num artigo de Brenda Chinnery and John Horner na revista Journal of Vertebrate Paleontology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os neoceratopianos basais (do ponto de vista cladístico) são membros gráceis e relativamente pequenos dos Ceratopsia (os dinossauros "com cornos"), os quais também incluem formas maiores como o Triceratops e o Centrosaurus. Os neoceratopianos basais asiáticos partilham alguns traços muito importantes que até agora não tinham sido encontrados em nenhum grupo norte-americano, incluindo um capuz cefálico fenestrado e dentes pré-maxilares. Do mesmo modo, os grupos taxonómicos basais norte-americanos possuem alguns traços não encontrados nas formas asiáticas, o mais importante dos quais é um padrão de desgaste dos dentes muito especializado. Cerasinops hodgskissi, um novo neoceratopiano basal da Formação Inicial de Two Medicine River no Montana, exibe todas as características mencionadas acima juntamente com outras previamente encontradas em apenas um dos dois continentes. A nova espécie é o grupo irmão dos Leptoceratopsidae numa análise cladística, e é um elo entre grupos taxonómicos nos dois continentes. O Cerasinops exibe também características anatómicas e histológicas extremamente interessante que indicam a possibilidade de bipedalismo neste táxon, um padrão locomotar não encontrado anteriormente em neoceratopianos basais (tinha sido sugerido em alguns, mas com evidência escassa).

Nada mau para um animal do tamanho de um peru e que terá vivido há cerca de 80 milhões de anos. A ilustração no início da contribuição mostra alguns "espinhos" na cauda. Trata-se de uma liberdade artística que se baseia no integumento encontrado num animal muito próximo dos ceratopianos. Falarei desse dinossauro espinhudo em breve.

Ficha técnica
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.
A referência ao almoço de John Horner foi retirada do artigo sobre a descoberta na National Geographic.

Referências
(ref1) Brenda J. Chinnery and John R. Horner (2007). A new neoceratopsian dinosaur linking North American and Asian taxa. Journal of Vertebrate Paleontology. Volume 27, Issue 3, pp. 625-641. Laço DOI.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Perder um nome em Portugal

Esta é uma ilustração do dinossauro Baryonyx walkeri, um tipo de dinossauro terópode algo bizarro, cujos restos podem ser encontrados em várias regiões do que é agora a Europa. Descobriu-se recentemente que o género Baryonyx existiria também em Portugal. O problema é que os fósseis que se sabem ser agora de Baryonyx, dentes e fragmentos de mandíbulas, já tinham nome, tinham sido atribuídos a uma criatura baptizada como Suchosaurus girardi, que se julgava ser um crocodilo. Ora esse nome tem precedência e neste momento pode vir a ocorrer uma pequena revolução na taxonomia de todos os espinossaurídeos. O Baryonyx pode ter perdido o nome em Portugal. [... ler mais]

A identificação dos restos atribuídos ao género Baryonyx é feita num artigo de Eric Buffetaut na revista Geological Magazine (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Redescrevem-se fragmentos de mandíbulas com dentes do Barremiano de Boca do Chapim (Lisboa e Setúbal, Portugal), originalmente considerados como crocodilianos e identificados como Suchosaurus girardi por Sauvage, que são referidos ao dinossauro espinossaurídeo Baryonyx, com base na comparação com Baryonyx walkeri, do Barremiano de Inglaterra. Isto estende a distribuição geográfica, deste género de terópode pouco usual, a Portugal. O Baryonyx parece ter sido um componente das jazidas de dinossauros do Cretácico Inicial da região Ibérica, que pode ter formado uma zona de passagem biogeográfica para a dispersão dos baryonychine entre a Europa e a África.

Ora qual é o problema com a taxonomia? É que uma criatura designada por Suchosaurus cultridens, na verdade não uma criatura mas um dente gasto, foi descrita antes de existir a designação Baryonyx. As regras de nomenclatura taxonómica em geral consideram a prioridade histórica, logo o género Suchosaurus tem prioridade sobre o género Baryonyx, o que significa que o género Baryonyx poderá passar a Suchosaurus. Isso acarretaria mudanças ainda mais profundas na classificação do grupo a que pertencem estes animais, os espinossaurídeos pois o Suchosaurus também ultrapassa em antiguidade o Spinosaurus. Este tipo de imbróglios é relativamente comum em descrições que não se basearam em espécimes articulados, mas sim em fragmentos do esqueleto ou dentes. Um outro exemplo famoso é o do Stenonychosaurus, cujos dentes se mostrou depois já terem sido atribuídos anteriormente a uma criatura baptizada Troodon.

Não há ainda certezas quanto ao que vai acontecer, há uma comissão que vai decidir a esse respeito, mas não me admiraria que o Baryonyx fosse afundado como sinónimo de Suchosaurus e desaparecesse da literatura futura.

Ficha técnica
Imagem de Baryonyx (?) cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Eric Buffetaut (2007). The spinosaurid dinosaur Baryonyx (Saurischia, Theropoda) in the Early Cretaceous of Portugal. Geological Magazine, Cambridge University Press.

quarta-feira, outubro 03, 2007

A miraculosa asa voadora de Sharov

Na década de 1960 um senhor chamado Alexander Sharov estudava fósseis do Triásico na então República Soviética da Quirguízia. Sharov estava interessado sobretudo em invertebrados, mas, nos sedimentos finos, capazes de guardar os detalhes dos insectos, encontrava de vez em quando pequenos vertebrados, extraordinariamente bem preservados, com impressões da pele e tudo. Um desses fantásticos achados é a criatura da imagem, inicialmente chamada de Podopteryx, e que seria mais tarde baptizada como Sharovipteryx mirabilis. É de facto um pequeno milagre. Trata-se do mais antigo fóssil que se conhece com evidências de uma membrana entre as patas do animal, algo que nos animais modernos significa que deslizam pelos ares. Só que "a miraculosa asa voadora de Sharov" é única, pois, em vez de asas nos braços, o Sharovipteryx usava uma prega de pele apoiada nas patas traseiras. Esta parece uma forma estranha de voar, e os cientistas têm especulado sobre a forma como o Sharovipteryx o faria. [...ler mais]

O animal vivo seria semelhante a algo do género:

Esta pose parece pouco natural pois o centro de massa do animal estaria à frente do patágio. Mas esta é apenas uma entre várias possibilidades pois há muitas dúvidas quanto à vizinhança dos membros anteriores. É que essa parte do fóssil foi alterada durante a preparação e não há certeza quanto à forma do patágio nessa região, aliás não se sabe mesmo se existia um patágio nessa região. Recentemente, alguns cientistas procuraram reconstruir o aspecto do animal t
endo como base o desempenho aerodinâmico de várias configurações do Sharovipteryx. Os resultados são descritos num artigo de Gareth Dyke e colegas publicado na revista Journal of Evolutionary Biology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Sharovipteryx mirabilis, um réptil de há 225 milhões de anos, foi o primeiro planador de tipo asa-delta no mundo; este animal notável possuía um superfície de vôo composta inteiramente por uma membrana nos membros posteriores. Utilizamos teoria aerodinâmica padrão de asas-delta para reconstruir o vôo do S. mirabilis demonstrando que a forma da asa poderia ter sido controlada simplesmente pela protracção do fémur ao nível dos joelhos, e pela variação na incidência de uma pequena asa-canard nos membros anteriores. O nosso método permitiu-nos abordar a questão de como a identificação realista do desempenho no vôo planado pode ser utilizada para colocar limites na reconstrução aerodinâmica deste pequeno animal. A nossa interpretação inovadora do bizarro modo de vôo do S. mirabilis é a primeira baseada directamente na interpretação do fóssil e a primeira a ter como base a aerodinâmica.

A tal asa-canard é uma pequena asa que se coloca nalguns tipos de avião à frente das asas principais, e que apresenta nesse tipo de aviões vantagens em relação às tradicionais pequenas asas da cauda. O comentário quanto ao animal ser pequeno é adequado, os autores estimam que pesaria cerca de 4 gramas e meio.

Eis aqui algumas das configurações testadas pelos autores:

A configuração da esquerda (a) é a reconstrução original de Alexander Sharov, (b) é a reconstrução devida a um artigo de Gans et al. (1987), (c) a de um artigo de Wellnhofer (1991), e (d) é o modo que os autores do artigo de Dyke e colegas consideram o mais eficiente. O traço visível à direita da cauda de (b) representa dois centímetros. Os autores referem que o animal conseguiria voar mesmo sem a asa-canard, mas que a presença de uma tal estrutura aumentaria e muito a estabilidade.

Claro que este estudo não prova realmente que o Sharovipteryx voasse assim. É que, como referi, não se sabe se existiriam de facto patágios acima das pernas, e muito menos se existiria algo equivalente a uma asa-canard. É algo a que não se poderá responder sem descobrir mais fósseis deste animal. Quase de certeza que, algures na Quirguízia, existem outros exemplares destes répteis por descobrir. Ou mesmo de outros animais igualmente fascinantes. É que o Sharovipteryx não foi o único vertebrado enigmático descoberto por Alexander Sharov: ele deparou-se com um animal tão ou ainda mais estranho. Mas essa é uma história que terá que ficar para outra contribuição.

Ficha técnica
Imagem de fóssil de Sharovipteryx a partir do trabalho de Alexander Sharov, obtida nas páginas do seu filho Alexei Sharov.
Ilustração cortesia de Arthur Weasley via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Dyke, G. J., Nudds, R. L. & Rayner, J. M. V. (2006) Flight of Sharovipteryx mirabilis: the world’s first delta-winged glider. Journal of Evolutionary Biology 19, 1040-­1043. doi: 10.1111/ j.1420-9101.2006.01105.x.

terça-feira, outubro 02, 2007

Pequenos dragões de pescoço comprido

Descobrir fósseis de animais bizarros sem contrapartidas modernas é interessante, mas descobrir animais extintos que, por convergência evolutiva, se assemelham extraordinariamente a animais modernos é também fascinante. Este pequeno lagarto é um velho conhecido aqui no Cais de Gaia. Trata-se do Draco volans, o dragão-voador das florestas do sudoeste asiático. Os dracos voam estendendo uma prega de pele entre as costelas, o que lhes permite deslizar de árvore para árvore. Eu tinha usado esta mesma imagem em Março deste ano, para falar sobre a descoberta do fóssil de um pequeno lagarto que também utilizaria as costelas para planar, em plena época dos dinossauros. Ora, uns meses depois, foi descrito um outro grupo de animais, de uma espécie baptizada Mecistotrachelos apeoros, que também usavam um patágio estendido entre as costelas para voar. Esses animais eram muito antigos: dois deles tiveram que esperar cerca de 220 milhões de anos para serem submetido a exames médicos, o que até nem é muito mau se comparado com as esperas nos hospitais e centros de saúde portugueses. [... ler mais]

Os cientistas que fizeram a descoberta não conseguiram remover os fósseis da matriz de sedimento que os envolvia, por meios mecânicos ou químicos, daí o uso de um método de diagnóstico usual na medicina moderna, a tomografia axial computorizada. Eis aqui o desultado de um dos varrimentos:

Notem bem o enorme comprimento das costelas, e também o do pescoço. Os dois fósseis são descritos num artigo Nick Fraser e colegas, publicado na revista Journal of Vertebrate Paleontology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descreve-se um novo táxon de tetrápodes do Triásico Superior, da Formação de Cow Branch da Virginia, com base apenas em varrimentos de tomografia axial computorizada de dois indivíduos. A nova forma caracteriza-se pela presença de costelas torácico-lombares que em vida presumivelmente suportariam uma membrana para deslizar pelos ares. Difere de todos os outros terápodes planadores por possuir um pescoço bastante comprido. O pé, capaz de agarrar, é consistente com um habitat arborícola.

Eis o aspecto do outro destes "exames médicos":

Notem os ossos dos pés, encurvados, sugerindo que o animal seria capaz de se agarrar, por exemplo, a ramos finos. Ambos os fósseis foram recuperados de sedimentos que provinham de um lago de margens pantanosas, tudo indicando que se teriam afogado na parte mais profunda desse mesmo lago. Contudo, sendo animais arborícolas, sem especializações de tipo aquático, esperar-se-ia que num salto falhado se afogassem próximo das margens. Os autores do artigo referem no entanto ser possível que ao tentarem deslizar de árvore para árvore tenham sido empurrados e transportados para muito longe por alguma rajada de vento.

Os autores deixam as afinidades filogenéticas do animal um pouco vagas. Sugerem que estaria mais próximo dos arcossauromorfos (e logo das aves e crocodilos) que dos lepidossauromorfos (e logo das cobras e lagartos). Referem algumas características semelhantes às encontradas num animal chamado Sharovipteryx, que segundo alguns autores seria um protorossauro, um grupo de criaturas bizarras que incluía o Tanystropheus, um animal de que falei na contribuição anterior. Tal como o Tanystropheus o Mecistotrachelos era um animal pescoçudo: o pescoço e a cabeça do animal corresponderiam a cerca de 8 centímetros de um comprimento total do corpo de cerca de 25 centímetros. Uma reconstrução do aspecto do animal em vida pode ser vista nas páginas da artista Karen Karr.

Como estas duas últimas contribuições mostram, a paleontologia dos vertebrados terrestres não se esgota nos dinossauros e mamíferos. As faunas do Pérmico e do Triásico também escondem muitas surpresas. Havia, por exemplo, muitos outros animais planadores. Falarei deles em breve.

Ficha técnica
Imagens de Draco volans cortesia de Alfeus Liman retiradas desta página na Wikimedia Commons.


Referências
(ref1) N. C. FRASER, P. E. OLSEN, A. C. DOOLEY JR., and T. R. RYAN (2007). A NEW GLIDING TETRAPOD (DIAPSIDA: ?ARCHOSAUROMORPHA) FROM THE UPPER TRIASSIC (CARMAN) OF VIRGINIA. Journal of Vertebrate Paleontology, Volume 27, Issue 2, pp. 261–265. Laço DOI.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Nada como um traseiro volumoso para compensar um grande pescoço

Imaginem uma criatura semelhante a um lagarto ao qual esticassem de tal forma o pescoço que parecesse ter uma cana de pesca enfiada na garganta. Esse animal existiu mesmo, e o seu nome era Tanystropheus longobardicus. Era um bicho grandinho, com cerca de 6 metros de comprimento, mais de metade do qual correspondia a um pescoço pouco flexível, sustentado por costelas cervicais. Vários tipos de evidência sugeriam que o animal viveria em ambientes de tipo aquático, contudo não mostrava grandes adaptações ao nível dos membros e cauda para uma vida dentro de água. Isso levou alguns autores a sugerirem que seriam animais essencialmente terrestes e que utilizariam os enormes pescoços como uma espécie de cana de pesca. Um pescoço deste tamanho, num animal terrestre, colocava no entanto alguns problemas. Segundo algumas reconstruções, se o pescoço estivesse esticado o centro de massa do animal estaria tão à frente que perderia o equilíbrio sempre que movimentasse o pescoço. O que essas reconstruções não levavam em consideração era o grande volume da porção traseira do animal. [...ler mais]

O avantajado traseiro do Tanystropheus foi descoberto por Silvio Renesto, que descreve a descoberta na Rivista Italiana di Paleontologia e Stratigrafia (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Descreve-se um novo exemplar do réptil diápsido Tanystropheus. O exemplar foi recolhido na localidade de Valle Serrata (Suiça) e é da idade do Ladiniano (Triásico Médio). O seu estudo permite esclarecer alguns detalhes referentes à anatomia do Tanystropheus, e permite formular hipóteses quanto ao seu modo de vida. Em particular, o exemplar é o primeiro em que a pele e outros tecidos moles podem ser descritos. Em particular, foram preservadas grandes extensões de material fosfático escuro, preenchidos com pequenas esférulas de carbonato, devido à decomposição de uma quantidade consistente de proteínas. tal como ocorre em corpos que jazem em água estagnada. Isto sugere que uma grande massa de carne se encontrava na parte caudal do corpo, deslocando o centro de massa do animal para trás e ajudando a contrabalançar o peso do pescoço mesmo se levantado acima do plano horizontal e fora de água. Para além disso, não se encontrou presença de autotomia caudal no Tanystropheus e a estrutura da cauda e dos membros são consistentes com um ambiente costeiro em vez de um modo de vida completamente aquático.

Toda aquela massa traseira tem consequências óbvias a nível biomecânico. O Tanystropheus teria músculos poderosos nos membros posteriores, e aquele peso colocaria o centro de massa do animal numa posição que asseguraria a estabilidade quando movimentasse o pescoço para agarrar as suas presas. A última frase contradiz algo que surgiu num programa televisivo. Numa série da BBC, "Sea Monsters", aparece uma cena em que Nigel Marvin surge sorrateiramente a nadar por trás de um Tanystropheus, em pleno oceano, e o agarra pela cauda, que se parte e se fica a agitar como a cauda de uma osga. A última frase do resumo, sobre a autotomia caudal indica que isso não seria possível. Para lá das esférulas que mostram a existência de um traseiro generoso, Sílvio Renesto descreve também vestígios da pele. O Tanystropheus possuía um padrão de escamas subrectangulares não sobrepostas.

O Tanystropheus foi uma criatura relativamente bem sucedida, cujos fósseis são frequentes. Embora pareça um lagarto estava apenas vagamente aparentado com os lagartos modernos. Pertencia a um grupo de criaturas chamadas protorossauros ou prolacertiformes. Trata-se de um grupo que partilha um antepassado comum mais recente com os arcossauros (aves e crocodilos) do que com os lepidossauros (cobras e lagartos). Que estiver interessado em saber mais sobre estes animais pode encontrar mais informação nas páginas de Silvio Renesto.

Os Tanystropheus são criaturas interessantes mas a razão que me leva a falar deles hoje tem que ver com a descoberta recente de um outro animal semelhante a um lagarto com pescoço comprido. Só que este outro lagarto pescoçudo teria um traseiro mais levezinho. É que esse bicho voava. Falarei dele na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem cortesia de Arthur Weasley, a partir desta página da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Renesto, S. (2005) A new specimen of Tanystropheus (Reptilia Protorosauria) from the Middle Triassic of Switzerland and the ecology of the genus. Rivista Italiana di Paleontologia e Stratigrafia vol. 111, no. 3, 377–394.

domingo, setembro 23, 2007

Mais sobre o assédio aos cetáceos

Claro que é muito fácil falar mal do ecoturismo, mas por outro lado muitos de nós gostaríamos de ver imagens como esta ao vivo. O problema com os golfinhos é que muitas pessoas não se contentam em ver os animais de longe, ou em tirar uma fotografias à distância. Muitos "ecoturistas" encaram os golfinhos quase como animais domésticos, e querem nadar com eles, tocar-lhes, fazer-lhes festas, subir-lhes para as cavalitas. Todas estas actividades perturbam os animais, em particular em regiões em que o afluxo de turistas é tal que os golfinhos não lhes conseguem escapar. Na contribuição anterior tinha focado o contacto com golfinhos solitários habituados aos humanos, que significava em geral ferimentos e morte para os golfinhos, e ocasionalmente mesmo para os seres humanos. Para os outros tipos de habituação as coisas não são melhores. [... ler mais]

Os excertos que se seguem continuam a ser retirados de um trabalho de Amy Samuels, Lars Bejder, e Sonja Heinrich para a Marine Mammal Commission norte-americana (ref1). Nos Estados Unidos é ilegal alimentar mamíferos marinhos selvagens, mas em muitos países, incluindo o Brasil, não existem quaisquer restrições. Noutros locais é permitido, mas seguindo regras mais ou menos severas. Em geral fornecer comida a golfinhos tem que ver com interesses turísticos. O local onde a coisa está mais bem documentada é Monkey Mia, a tal localidade na Austrália onde ocorreu a morte da cria devido a um ataque de tubarão que referi numa contribuição anterior. Os efeitos da habituação aos humanos são os do costume:

  • Os relatos indicam que o "Old Charlie", o golfinho original de original Monkey Mia foi morto a tiro;
  • sete golfinhos desapareceram e pensa-se que terão morrido em resultado da poluição nas águas rasas onde esperavam para serem alimentados;
  • turistas foram mordidos na zona de aprovisionamento;
  • uma cria foi morta por um tubarão enquanto a mãe estava na área de aprovisionamento;
  • um juvenil desmamado ficou dependente das dádivas de peixe e morreu;
  • quando comparado com o comportamento fora da zona de aprovisionamento, a frequência de comportamento maternal era mais baixa e a frequência de agressões intraspecíficas mais elevada; e
  • verificou-se que as fêmeas aprovisionadas tinham uma taxa de sobrevivência das crias significativamente menor que a das fêmeas que se alimentavam naturalmente na mesma baía

O artigo refere outros locais e em todos a situação é semelhante. Os autores terminam esta secção com:
Conclusão: as dádivas não controladas de alimento são o elemento essencial para encontros na água com golfinhos em vários locais por todo o mundo. Resultados de pesquisa e evidência acidental são inequívocos em determinar que as dádivas não controladas de alimento são prejudiciais para os cetáceos selvagens. Não foi ainda determinado se existem efeitos prejudiciais de aprovisionamento alimentar feito de controlada.

Recomendação: é preciso colocar com urgência em práctica a proibição de alimentar os roazes corvineiros na zonas costeiras da Florida.

Ora o turismo significa empregos e uma vez estabelecida a práctica de alimentar os golfinhos num dado local, erradicá-la é um problema, mesmo que seja prejudicial para os animais. Os australianos nisto foram menos fundamentalistas que os americanos e estabeleceram simplesmente algumas restrições, que parecem para já ter levado a algumas melhorias.

O trabalho aborda ainda a questão de nadar com golfinhos habituados à presença humana, mas as conclusões são mais incertas pois não há estudos suficientes. Há no entanto indicações de que também é prejudicial para os golfinhos e os autores sugerem que se adoptem as regras básicas quando se lida com animais selvagens: observar de longe e com binóculos, evitar interagir directamente com os animais, evitar áreas críticas para alimentação, descanso, cuidados parentais,etc. No caso do nadar com golfinhos não habituados a seres humanos, os autores são taxativos: é assédio e deve ser proibido.

Ficha técnica
Imagem cortesia de Peter Asprey, via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Amy Samuels, Lars Bejder, and Sonja Heinrich (2000). A Review of the Literature Pertaining to Swimming with Wild Dolphins. Marine Mammal Commission.

sábado, setembro 22, 2007

Simo, Simo, não nades com humanos

Há não muitos anos atrás havia um outro golfinho na costa de África, próximo da cidade de Hippo, também chamada Diarrhytus, que de igual modo recebia alimento da mão dos homens, permitia que lhe tocassem gentilmente, brincava com aqueles que nadassem e se banhassem no mar, e carregava no seu dorso quem quer que se colocasse sobre ele.

Este é um excerto do livro nono da «Naturalis Historia» de Gaius Plinius Secundus (23-79), mais conhecido como Plínio o Velho. É uma entre várias descrições, nessa obra, do comportamento de golfinhos solitários que buscavam a presença humana. Segundo Plínio os golfinhos reconheciam o nome Simo e para os chamar bastava gritar Simo, Simo, que eles vinham. Infelizmente a história do Simo de Hippo teve um final infeliz. O golfinho tornou-se uma celebridade, atraindo inúmeros turistas da época, incluindo alguns poderosos e prepotentes. Os abusos desta multidão de visitantes perturbaram de tal forma os habitantes locais que eles acabaram por matar o pobre golfinho para que os deixassem em paz. Tal como há dois mil anos, ainda hoje sucede que consequências nefastas para os golfinhos são o resultado típico da interação entre golfinhos e humanos. Isto é verdade mesmo em relação a essas coisas do "ecoturismo" que prometem a oportunidade de nadar com os golfinhos selvagens.[... ler mais]

A problemática do "nadar com os golfinhos selvagens" foi analisada num trabalho de Amy Samuels, Lars Bejder, e Sonja Heinrich para a Marine Mammal Commission norte-americana (ref1). Os excertos que se seguem foram retirados desse trabalho.

Nos Estados Unidos existe um quadro legal que define aquilo a que se chama assédio dos mamíferos marinhos:
Qualquer acto em que se persiga, atormente, ou incomode, que
  1. tenha o potencial de magoar um mamífero marinho ou uma população de mamíferos marinhos na natureza (Assédio de tipo A), ou
  2. tenha o potencial de perturbar um mamífero marinho ou uma população de mamíferos marinhos na natureza causando o romper de padrões de comportamento, incluindo, mas não limitado a, migração, respiração, aleitamento, procriação, alimentação, ou abrigo (Assédio de tipo B).

Este é um quadro legal particularmente severo, em que alimentar um golfinho selvagem é considerado crime. Por outro lado, algumas actividades tais como entrar na água para fotografar, nadar com, e mesmo tocar em golfinhos, tinham um carácter ambíguo. O trabalho de Amy Samuels e colegas destinou-se a verificar até que ponto essas actividades poderiam ser classificadas como assédio. Para isso os autores fizeram uma revisão detalhada da literatura pertinente, e separaram os tipos de contacto em categorias, de acordo com encontros com:
  1. golfinhos que são tipicamente soltários e que buscam companhia humana, designados neste relatório como "solitários, sociáveis";
  2. golfinhos que estão habituados a interações dentro de água através do aprovisionamento em comida por humanos, designados como "aprovisionados-em-comida";
  3. cetáceos que toleram ou buscam nadadores humanos para interações prolongadas numa base regular (não incluindo os aprovisionados-em-comita e os solitários, sociáveis), designados como "habituados"; e
  4. cetáceos que não estão habituados aos nadadores humanos, designados como não habituados.

As três primeiras categorias distinguem no fundo a forma como se deu a habituação dos animais ao contacto humano. Uma das coisas que a que achei piada no estudo foram outras classes que os autores consideraram. Estamos a falar de coisas como nadar com golfinhos em cativeiro, a interação com barcos, e o... "nadar com tubarões". Pois é, por vezes as pessoas enganam-se e o que parece um golfinho não é.

Comecemos então com o nadar com um golfinho solitário, tal como no exemplo do pobre Simo. Um aspecto curioso que os autores referem a propósito destes golfinhos é que nem sempre o contacto tem a ver com comida. Alguns golfinhos não aceitam comida, outros aceitam mas não a comem, e alguns chegam ao ponto de serem eles a oferecer comida aos seres humanos.

Os golfinhos soltitários,sociáveis estão bem habituados ao seres humanos, demasiado bem aliás. A quebra de contacto pode ocorrer se os humanos não fornecerem "entretenimento" adequado aos golfinhos. É aí que as coisas se podem tornar problemáticas:
Dos 26 golfinhos solitários, sociáveis que estão bem documentados (15 machos, 8 fêmeas, 3 de sexo desconhecido), a maioria é descrita como tendo interações quase diárias com os humanos e interações pouco frequente com os seus congéneres. Onze tiveram períodos de comportamento sexual dirigido a humanos, bóias, e/ou navios; 15 dirigiram comportamento agressivo aos seres humanos. A agressão dos humanos pelos golfinhos resultou por vezes em ferimentos graves nos humanos, tais como ruptura no baço, costelas partidas, ou mesmo morte.

Ora o reverso da medalha é bastante pior no que se refere a mortos e feridos.
Catorze golfinhos solitários sofreram ferimentos em resultado da sua habituação aos humanos e à actividade humana. Por exemplo, o "Freddy" enredava-se frequentemente em redes de pesca e por três vezes teve anzóis ou linha enfiados no seu corpo. "Nudgy" levou com uma lança e foi atingido por remos. "Percy" teve um anzol de pesca enfiado num olho. "Donald" e "Horace" sofreram ferimentos graves em colisões com barcos ou com hélices. O "JoJo" foi descrito como tendo 37 ferimentos relacionados com a interação com seres humanos desde 1992, incluindo oito que acarretavam perigo de vida.

Há mesmo paralelismos modernos com o Simo da antiguidade: cinco golfinhos que desapareceram em circunstâncias misteriosas depois das populações locais se queixarem dos incomódos que causavam. Os autores referem muitos exemplos que golfinhos solitários, sociáveis que morreram às mão de seres humanos. As conclusões dos autores do artigo são claras:
Conclusão: Embora os golfinhos solitários, sociáveis façam tipicamente o primeiro contacto com os humanos, a habituação aos humanos e os encontros dentro de água são geralmente um processo gradual conseguido com um esforço considerável por parte dos humanos. Infelizmente para os golfinhos, a habituação aos humanos coloca os golfinhos em risco de ferimentos ou morte. Programas de gestão rigorosos podem reduzir esse risco.

Recomendação: Os golfinhos solitários, sociáveis de qualquer espécie são particularmente vulneráveis aos impactos das actividades humanas, e todas as interações com humanos deveriam ser rigorosamente proibidas, com a proibição a ser aplicada de forma em cada situação.

Percebe-se o tom forte dos autores. São cerca de 2000 anos de referências na literatura em que estas coisas acabam mal para os golfinhos. Este texto já vai longo. Terminarei na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem do cadáver de roaz-corvineiro a partir das páginas da NOAA.

Referências
(ref1) Amy Samuels, Lars Bejder, and Sonja Heinrich (2000). A Review of the Literature Pertaining to Swimming with Wild Dolphins. Marine Mammal Commission.

sexta-feira, setembro 21, 2007

A dor de uma mãe


Numa ocasião foi visto um cardume de golfinhos, grandes e pequenos, e dois dos golfinhos ligeiramente atrás foram vistos a nadar por baixo de um pequeno golfinho morto quando este se estava a afundar, e a suportarem-no nas suas costas, tentando por compaixão prevenir que fosse devorado por um qualquer peixe predador.

Este é um excerto do livro nono da «História dos Animais» de Aristótoles (384 AC - 322 AC). É a primeira referência escrita que se conhece ao chamado comportamento epimelético nos golfinhos. Este termo complicado significa que prestam ajuda a indivíduos doentes ou feridos. A forma mais comum de assistência é apoiar um animal por forma a que ele chegue à superfície. Tal como no caso descrito por Aristóteles, muitas vezes os golfinhos prestam assistência a golfinhos que estão mortos. Eu referi na minha última contribuição um exemplo, no roaz-corvineiro (Tursiops truncatus), envolvendouma mãe e a sua cria morta por um tubarão. Esta imagem mostra um outro caso descrito na literatura. O animal a flutuar de barriga para cima, um roaz corvineiro com cerca de dois anos, está morto. À direita na imagem vê-se uma coisa escura na região da axila do animal morto. É a barbatana dorsal de um outro roaz-corvineiro, atarefado a empurrar o cadáver contra a corrente. [... ler mais]

Este exemplo é descrito num artigo de Fernando Félix num dos volumes do Investigations on Cetacea (ref1).
No dia 4 de Dezembro de 1991, acompanhado pelo Senhor Jake León, estava a observar um grupo de roazes corvineiros que se alimentavam na baía do canal de Puná Vieja, na Ilha de Puná no estuário do rio Guayas, no Equador. Após permanecer duas horas com o mesmo grupo de golfinhos que observámos de perto, chamou-nos a atenção um golfinho morto a flutuar a cerca de 200 metros de distância. Deixámos o grupo para inspecionar o animal. Quando nos dirigíamos a ele, vimos outro golfinho que o estava a empurrar contra a corrente de maré e na nossa direcção. O golfinho morto era uma fêmea imatura de cerca de 2 metros de comprimento, talvez com 2 a 3 anos de idade.

A imagem no início da contribuição refere-se a esta cena. Os autores descrevem em seguida o estado do cadáver:
O corpo estava completo mas ligeiramente inchado e emanava o cheiro de decomposição. Partes dos intestinos pendiam da fenda anal-genital. A barbatana dorsal, as barbatanas laterais e as barbatanas da cauda estavam presentes. Em vários locais onde a pele tinha desaparecido era visível a camada de gordura. Não eram visíveis ferimentos externos. Julgando a partir da condição externa presumimos que o golfinho teria morridos dois a três dias antes.

Os outros golfinhos nas redondezas não prestavam grande atenção ao esforçado animal nem ao cadáver, e nenhum tentou ajudá-lo. O apego do animal em questão, um adulto que os autores designam por No. 271, ao cadáver eram extraordinário:
Desde o início que tentámos não interferir, pensando que o golfinho morto teria possivelmente vindo a flutuar, e que teria atraído o curioso No. 271 e que seria abandonado em breve. Contudo, o No. 271 continuou a carregar o golfinho morto e decidimos olhar de mais perto para examinar o corpo com mais atenção. Mas, de cada vez que tentávamos aproximar-nos do corpo, o No. 271 interferia, colocando-se entre a lancha e o corpo, frequentemente com a cabeça fora de água, olhando e virando-se rapidamente, batendo com a cauda, possivelmente um comportamento de ameaça; voltava então ao corpo, empurrando-o para baixo com força, para lá do nosso alcance.

Eis aqui uma imagem do golfinho a tentar afastar o corpo do animal morto dos incómodos seres humanos:

O autor e o seu acompanhante tentaram pelo menos dez vezes apossar-se do cadáver mas o defensor reagiu sempre da mesma forma e eles acabaram por desistir. Após 50 minutos em que observaram o animal persistir nos seus esforços, transportando o cadáver contra a corrente, acabaram por partir. Voltaram no dia seguinte mas não havia golfinhos no local.

O autor não conseguiu determinar a partir das suas observações o sexo do animal que estava a empurrar a fêmea morta, nem o grau de parentesco. As crias dos roazes corvineiros permanecem junto às mães de 3 a 6 anos, pelo que dada a idade provável do animal morto seria possível que se tratasse da mãe. A agressividade dirigida aos humanos que tentavam aproximar-se, e as tentativas de afastar o corpo da jovem fêmea, mostram um comportamento protector bem desenvolvido em relação à suposta cria. O impressionante nesta história é que continuou a prestar cuidados ao cadáver mesmo quando a decomposição já ia avançada, mas mesmo isso não é caso único.

Encontrei na internet uma descrição algo semelhante à anterior, se bem que o artigo ainda não tenha sido publicado. Existe no entanto um rascunho da autoria de Giovanni Bearzi do Tethys Research Institute. Neste caso, observado nos dias 3 e 4 de Julho de 2007, observado por Joan Gonzalvo Villegas e Zsuzsanna Pereszlenyi no golfo de Amvrakikos na Grécia, os intervenientes foram uma fêmea e a sua cria nascida morta. Estes autores são bastante mais emotivos na forma como descrevem a experiência. Nas palavras de Giovanni Bearzi:
Embora os investigadores devam evitar ser guiados pelos seus sentimentos e devam evitar fazer interpretações arbitrárias, neste caso era bastante claro que a mãe estava angustiada. Ela parecia incapaz de aceitar a morte,e comportava-se como se houvesse uma esperança de salvar a sua cria.

O autor refere que os gritos da mãe e o desespero aparente na forma como tocava na cria com o rosto e com as barbatanas peitorais foram uma experiência chocante para os tripulantes da embarcação. Mais uma vez os outros golfinhos não prestaram grande atenção à ocorrência. A mãe estava só no seu desgosto, e nos dois dias em que a observaram os investigadores não a viram a alimentar-se. Os autores referem que a cria estava já a entrar num estado avançado de decomposição, mas por respeito pelo sofrimento evidente da mãe não tentaram recolher o corpo para uma eventual autópsia. Algumas imagens destas observações pode ser encontradas aqui.

Referências
(ref1) Félix, Fernando (1994). A case of epimeletic behaviour in a wild bottlenose dolphin Tursiops truncatus in the Gulf of Guayaquil, Ecuador. Investigations on Cetacea. Ed. by G. Pilleri. Vol. 25:227-234.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Quando o tubarão ataca

Este tubarão a ser retirado da água e pesado pelos humanos sorridentes é ironicamente um dos famigerados "comedores de homens". Como podemos ver a designação é enganadora pois estas criaturas têm muito mais a temer dos humanos do que os humanos delas. Trata-se de um tubarão tigre, de seu nome científico Galeocerdo cuvier, espécie em que os adultos podem ultrapassar os 4 metros de comprimento e os 900 kg de peso. O tubarão tigre não é esquisito com o que come, e se não despreza um ser humano de vez em quando, peixes, tartarugas, aves e mamíferos marinhos também fazem parte da sua dieta. Na verdade, chega mesmo a ingerir coisas que de alimento não têm nada, tais como latas e botas, o que leva a que por vezes seja designado como o caixote de lixo do mar. Embora os roazes corvineiros não façam parte da dieta habitual destes tubarões, os golfinhos têm que ter alguma cautela quando eles estão nas redondezas. Aviso desde já que o que se segue é uma história triste, envolvendo um tubarão, um golfinho bebé, e a dor de uma mãe.[...ler mais]

O artigo que descreve o ataque de um tubarão tigre a um golfinho bebé é da autoria deMann e Barnett e foi publicado na revista Marine Mammal Science (ref1). Vamos então aos factos:

Entre as 15:30 e as 15:35 no dia 19 de Março de 1994, Hobbit, um golfinho com 110 dias foi atacado por um tubarão perto da costa de Monkey Mia (uma estância de pesca) em Shark Bay, no oeste da Austrália. Hobbit era a filha de Holeyfin, uma das fêmeas que visitavam diariamente a costa em busca de sobras de peixe e para contacto com os pescadores e turistas.

Cerca de hora e meia após o ataque os autores recolheram o cadáver de Hobbit para uma autópsia e dedicaram-se a reconstituir o ataque recolhendo informações das pessoas presentes:
Pelo menos uma dúzia de pessoas testemunharam o ataque inicial, que ocorreu a aproximadamente 70 metros da costa em 5 metros de água. Cinco testemunhas, escolhidas por causa da sua capacidade em identificar todos os golfinhos que visitam a praia, (um operador turístico, dois funcionários das estância, e dois turistas) foram entrevistados separadamente durante o período de um dia que se seguiu ao acontecimento.

Estavam presentes na praia mais quatro golfinhos, Nic (filha adulta de Holeyfin), Nak (filho de Nic com 108 dias), Sur (uma fêmea adulta), e Fin (filho de Nic com 47 meses). A partir dos relatos das testemunhas foi possível reconstituir a sequência de acontecimentos.
Por volta das 15:35 Holeyfin saiu a grande velocidade da praia na direcção de Hobbit. Foi seguida poucos segundos depois por Sur, Nic, e Fin. Todas as cinco testemunhas concordaram em que esses golfinhos rapidamente sairam disparados na direcção de Hobbit. Dois observadores estavam seguros que Nak, a cria, ficou perto da costa. Calcula-se que Holeyfin estivesse a pelo menos 70 metros de Hobbit quando o ataque começou. Ninguém viu sangue ou evidência do ataque até Holeyfin e os outros chegarem ao local onde Hobbit foi atacada. Momentos depois, as testemunhas viram os golfinhos a debaterem-se e uma barriga de golfinho ou de tubarão arqueada e a rolar para fora da água. Foi abservado que pelo menos um golfinho adulto e a Hobbit tiveram contacto corporal com o presumível tubarão. Hobbit foi lançada para fora de água a esguichar sangue, do que resultou uma enorme mancha na água. A comoção cessou e Hobbit ficou a flutuar à superfície.

Os autores do artigo observaram então o comportamento da mãe, que permaneceu junto à cria, já morta.
Holeyfin permaneceu a menos de 2 metros de Hobbit até às 15:59. Ela tocou e empurrou, a aproximadamente cada 30 segundos, repetidamente para cima a Hobbit que flutuava na água. Às 15:56 ela empurrou Hobbit para o fundo marinho e manteve-a lá durante alguns segundos. Apesar de termos hidrofones na água, podíamos ouvir o assobiar alto e contínuo pela Holeyfin cada vez que ela aparecia à superfície ou passava perto do barco.

Mas a mãe não se encontrava sozinha. O tubarão pelos vistos não tinha desistido, e uma barbatana surgia de vez em quando nas imediações.
Às 16:21 um tubarão nadou na direcção de Hobbit e Holeyfin rapidamente perseguiu o tubarão, permanecendo menos de um metro atrás do tubarão durante aproximadamente 20 metros.
O tubarão era um pouco mais pequeno que a Holeyfin que tinha cerca de 2 metros de comprimento e os autores identificaram-no como sendo um tubarão-tigre. A Holeyfin manteve-se perto da cria descrevendo círculos a menos de 20 metros do corpo até que os autores do artigos o retiraram da água às 17:07 para determinarem a causa da morte. Não é uma imagem bonita:

Aquela ferida na barriga é arrepiante. As marcas dos dentes indicam que o tubarão tigre que a Holeyfin perseguiu podia muito bem ser o assassino. A partir das dimensões da mordida na barriga foi possível determinar que o autor da dentada seria um tubarão tigre de 170 a 200 centímetros de comprimento. Os autores sugerem que o tubarão começou por arrancar a barbatana caudal da Hobbit, cujos assobios alertaram a mãe e os outros golfinhos. Só quando os outros golfinhos chegaram é que o tubarão teria mordido a barriga, o que explicaria só então ter sido visto o sangue. O ataque pode ter sido facilitado pelo estado de saúde da pequenita. A Hobbit era bastante mais franzina que o seu sobrinho Nak, apesar de ser uns dias mais velha, e apresentava já há algum tempo algumas chagas e padrões de comportamento que indicavam que estaria em condições algo precárias. A autópsia revelou que ela tinha broncopneumonia.
Estas observações fornecem evidência clara de que os golfinhos selvagens tentam defender outros contra os ataques de tubarões. Observações do ataque inicial sugerem que vários golfinhos intervieram, apesa de demasiado tarde. Após o ataque, Holeyfin permaneceu com a Hobbit e perseguiu e expulsou do local o mesmo ou um outro tubarão.

O comportamento da mãe, empurrando a cria para a superfície é comum nos golfinhos como resposta a ferimentos ou morte de crias e voltarei a falar nisso em contribuições futuras. A perda da cria teve repercussões no comportamento posterior Holeyfin. Depois disso, passou grande parte do tempo com o seu neto Fin (50% quando comparado com 3% antes da morte da Hobbit). Além disso, ela que quase não assobiava antes da morte da Hobbit, assobiou de forma quase contínua no dia do ataque e no que se seguiu.

Apesar de no caso da Hobbit o estado debilitado ter possivelmente propiciado a morte da cria, os autores do artigo referem estudos que mostram que as mães, que têm por hábito procurar sobras de peixe junto de humanos, apresentam taxas de mortalidade mais elevadas das crias com menos de um anos. A companhia dos seres humanos em geral só traz problemas às criaturas selvagens.

Ficha técnica
Fotografias do tubarão tigre tiradas por James P. McVey do NOAA Sea Grant Program, obtidas aqui e aqui.

Referências
(ref1) Mann J., Barnett H. (1999). Lethal tiger shark (Galeocerdo cuvieri) attack on bottlenose dolphin (Tursiops sp.) calf: defense and reactions by the mother. Marine Mammal Science 15(2):568-575.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Mau como os... golfinhos

Esta pequena criatura tímida, que tem que ultrapassar tantas dificuldades simplesmente para conseguir sobreviver num ambiente tão hostil, passou por uma provação de tal forma atroz que me faz estremecer só de a contemplar.

Esta é uma frase de Barbi White e refere-se ao pequeno cetáceo marinho, conhecido em Portugal por boto, da espécie Phocoena phocoena, que se mostra na imagem ao lado. Trata-se do cadáver de uma fêmea, que foi incrivelmente maltratada. Lacerações e feridas perfurantes por todo o corpo, lesões internas e ossos fracturados. A criatura foi espancada até à morte. Não é comportamento predatório, o agressor não estava minimamente interessado em comer o animal que matou. Não se trata de uma ocorrência isolada, este tipo de mortes são muito comuns no litoral de Moray Firth, na Escócia. Mas que animal é responsável por esta morte, aparentemente sem propósito, esta verdadeira "malvadez"? A resposta é algo de inesperado, trata-se do último animal que ocorreria a muitos de nós. [... ler mais]

A identidade dos agressores é dada num artigo de Harry Ross e Ben Wilson na revista Proceedings of the Royal Society of London (ref1). Numa tradução livre do resumo:
A maioria (63%) dos botos encalhados ao longo da Moray Firth, na Escócia, morreram de traumatismo caracterizado por fracturas múltiplas do esqueleto e orgãos internos danificados. Os ferimentos de superfície consistiam de cortes na pele assemelhando-se às marcas de dentes infligidas por um cetáceo noutro. Os espaços entre eles correspondiam aos dos dentes dos golfinhos roazes-corvineiros, dos quais existem populações em Moray Firth. Foram testemunhadas quatro interações violentas entre roazes e botos. As razões para essas interações são desconhecidas e exemplos semelhantes documentados noutros mamíferos são extremamente raros. Estes achados desafiam a imagem benigna dos roazes corvineiros e providenciam uma causa de mortalidade de botos que até agora não tinha sido registada.

Os roazes-corvineiros, da espécie Tursiops truncatus, são os animais que a maioria de nós associa à palavra golfinho. São as criaturas que fazem aquelas habilidades nos parques marinhos e que aparecem nos filmes. São o paradigma do animal simpático ao qual as pessoas reagem de forma emotiva. De certa forma são vistos mais como um ícone cultural do que como um animal selvagem. Só que a natureza é por vezes brutal e não se compadece com as nossas ideias pré-concebidas sobre os outros seres. Os golfinhos não são criaturas místicas com a missão de nos mostrarem o que deveríamos ser. Apesar disso, quando li este estudo, anos atrás, fiquei com uma sensação de perda. Claro que os nossos preconceitos se reflectem também no "horror" que a história nos causa. Se em vez de um cetáceo marinho
a vítima fosse uma alforreca ou um peixe a história não nos afectaria por aí além. Só que a história não acaba aqui, as coisas ficam ainda piores.

A grande questão é o porquê destas pulsões assassinas? Não se trata de um hábito predatório, e outras explicações como competição por alimento, ou uma possível ameaça para as crias, são pouco prováveis. Os botos marinhos são muito pequenos quando comparados aos roazes-corvineiros, na verdade são do tamanho de crias jovens de roazes-corvineiros. A diferença de tamanho entre agressor e vítima é bem patente nesta imagem de um ataque, tirada por Peter Asprey em Maio de 2005, em Chanonry Point na Escócia. O agressor é um roaz corvineiro macho.


A resposta ao porquê seria descoberta pouco depois deste artigo. É algo de tenebroso. Na verdade trata-se de um jogo, algo que os golfinhos fazem para ganharem práctica para actos de violência sobre outras criaturas. Criaturas com o tamanho aproximado dos botos. Tudo leva a crer que os golfinhos matam os botos como treino para serem mais eficientes a matarem as suas próprias crias. Falarei disso na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagem e excerto inicial da contribuição obtidos a partir desta página do Cetacean Research & Rescue Unit.
Foto de ataque cortesia de Peter Asprey, via Wikimedia Commons.
Referências
(ref1) Ross, H. M. & Wilson, B. (1996) Violent interactions between bottlenose dolphins and harbour porpoises. Proc. R. Soc. Lond. B 263, 283-286. doi:10.1098/rspb.1996.0043.