sexta-feira, outubro 20, 2006

Ter outro diabo no corpo

Carregue nas setas para navegar ou no diabo para ir para o início da série.

Este diabo da Tasmânia está simplesmente a descansar, mas o seu ar algo desanimado é adequado à situação periclitante destas criaturas. De seu nome científico Sarcophilus harrisii, o diabo da Tasmânia só se encontra nessa ilha ao largo da Austrália, tendo desaparecido do continente há cerca de 600 anos. Trata-se do maior carnívoro marsupial existente, do tamanho de um cão pequeno, medindo cerca de 60 centímetros de corpo-cabeça, com cerca de 25 centímetros de cauda. Pesa menos de 8 kg e, no estado selvagem, vive geralmente menos de 6 anos. Em 1996 foi detectado o primeiro caso de uma doença terrível, um tumor facial que acaba por levar à morte em poucos meses, e que tem dizimado populações. A doença aflige diabos em mais de metade da ilha e contina a espalhar-se. Por estranho que possa parecer, podemos estar a assitir a uma extinção causada por um animal morto há bastante tempo, mas que teima em assombrar os seus congéneres. [... ler mais]

A explicação para a doença é da autoria de A.-M. Pearse e K. Swift e foi publicada na revista Nature (ref1) há alguns meses. Numa tradução livre do resumo:
Uma parecença marcante no cariótipo destes tumores malignos significa que poderão ser infecciosos.

O diabo da Tasmânia, um carnívoro australiano de grandes dimensões, encontra-se sob a ameaça de doença fatal, amplamente espalhada, na qual um tumor da boca e da face perturba a capacidade do animal em se alimentar. Mostramos aqui que os cromossomas nestes tumores sofreram um rearranjo completo, que é idêntico para cada um dos animais estudados. À luz desta notável descoberta, e do bem conhecido comportamento agressivo dos diabos, propomos que a doença é transmitida por transplante alógeno, com uma estirpe de células infecciosas passada directamente entre os animais através de dentadas que infligem uns aos outros.

Os diabos da Tasmânia são animais solitários, mas que se juntam muitas vezes para se alimentarem de carcaças de animais mortos. Aí mostram maneiras à mesa execráveis, com rosnadelas, guinchos, e latidos constantes, e lutas terríveis em que se mordem uns aos outros, e os deixam cheios de cicatrizes. Como as dentadas ocorrem com maior frequência na região da boca, onde se localizam a maior parte dos tumores, os cientistas resolveram investigar se o tumor não estaria simplesmente a ser transplantado de uns animais para outros.

As células normais dos diabos possuem 14 cromossomas, que incluem os cromossomas sexuais XX e XY. As células cancerosas possuem apenas 13 cromossomas, que apresentam inúmeras anormalidades, e onde os cromossomas sexuais estão ausentes. O mais importante é que os tumores faciais em todos os animais investigados pelos autores apresentam exactamente as mesmas anomalias nas suas células cancerosas. A reorganização dos cromossomas dos diabos da Tasmânia é muito complexa, e não se detectaram estágios intermédios, mesmo em tumores pequenos que se estão a iniciar. Os autores referem que as modificações vistas nos cromossomas não são semelhantes a nenhum tipo de arranjo visto em tumores humanos, quer sejam espontâneos ou causados por vírus. Um dos animais estudados forneceu evidência bastante clara do que se está a passar:
Apoio adicional, para a teoria do transplante alógeno na transmissão da doença, proveio da observação, afortunada, de uma inversão pericêntrica no cromossoma 5 no cariótipo de um animal. Esta anomalia foi encontrada em todas as culturas dos tecidos normais daquele diabo, mas não estava presente em nenhum dos cromossomas 5 das suas células do tumor facial, onde deveria ter sido observada se a neoplasia se originasse dos seus próprios tecidos.

A conclusão é simples: as células cancerosas não pertenciam originalmente a este animal, infectaram-no e desenvolveram-se no seu rosto. Os autores referem um tipo de tumor que mostra o mesmo tipo de anomalias nos cromossomas, o sarcoma venéreo transmissível dos cães, que se acredita ser também devido a um "clone capaz de existência parasítica." Pelo vistos há mesmo exemplos de transmissão de tumores cancerígenos em seres humanos:
Os humanos podem também infectar-se uns aos outros acidentalmente com cancro (câncer), através da implantação de células em pacientes que receberam transplantes de orgãos. Esses cancros desenvolvem-se então de acordo com a sua progressão habitual.

Aqui os autores notam um aspecto importante para compreender a epidemia que afecta os diabos. Os transplantes de orgãos têm uma possibilidade de rejeição mais reduzida se o dador for um parente próximo, com tecidos compatíveis. Os diabos, com pouca diversidade genética, terão assim uma resposta imunitária reduzida às celulas cancerosas implantadas quando se mordem uns aos outros. Os seus sistemas imunitários não reagem a elas como sendo organismos invasores. Esta parece ser uma boa pista para compreender o que se está a passar no terreno. Para o passo seguinte vai ser preciso fazer análises de ADN mais detalhadas, que possam explicar a toxicologia, progressão, e propriedades epidemiológicas da doença.

O problema nesta história é que o tempo urge e as medidas têm que ser tomadas depressa. As taxas de mortalidade são aterradoras: são raros os animais que vivam mais de três anos, e a densidade populacional caiu qualquer coisa como 80% nos locais infectados. Para piorar as coisas, começaram a aparecer raposas na Tasmânia em 2001 e, se elas se estabelecerem, uma população reduzida e doente de diabos poderá não conseguir sobreviver.

Ficha técnica
Imagem do diabo a descansar cortesia de Wayne McLean, encontrada nesta página da Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) A.-M. Pearse and K. Swift (2006). Allograft theory: Transmission of devil facial-tumour disease. Nature 439, 549. Laço DOI.

2 comentários:

João Carlos disse...

Caio, se nos reportarmos às asneiras cometidas pelos colonizadores britânicos no meio-ambiente australiano (a introdução dos coelhos e dos dingos, por exemplo), fico a magicar se esse tipo de câncer não terá origem exógena.

Já houve até uma tentativa de exterminar os coelhos, contaminando-os com a Myxomatosis, que redundou em coelhos com imunidade natural.

Será que os "pobres-diabos" da Tasmânia não estarão sendo vítimas da incrível insensibilidade dos colonizadores?

Caio de Gaia disse...

Os dingos foram introduzidos pelos aborígines muito antes de os britânicos lá chegarem.

Os colonizadores provavelmente estarão inocentes no caso dos diabos. Os diabos são vistos com alguma simpatia, não eram perseguidos, e até estavam num máximo populacional. É pouco provável que alguém se desse ao trabalho de os erradicar com tal sofisticação.

Muito provavelmente os diabos estão a ter problemas devido a um bocado de tecido de um diabo que se recusa a morrer e ao mau feitio que têm.